segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Prisão perpétua


Professor só tem dois destinos possíveis: enquanto está aqui na Terra é a cadeia. Depois que bater com as dez é o inferno. Simples assim. Entre os adjetivos que podemos e devemos usar para qualificar um professor estão: ladrão, contrabandista, falsário, gatuno, larápio, safado. Em resumo, professor é tudo bandido. E ponto final.

Eu arriscaria estender essa minha definição a todo e qualquer professor, mas, como eu mesma sou professora, portanto, carrego comigo todos os adjetivos citados acima e não quero aumentar minhas penas com acusações de injúria, calúnia, difamação, danos morais e blá, blá, blá, vou restringir meus comentários aos professores de língua estrangeira.

(Mas lá no fundo o que vou dizer serve pra TODOS os mestres que se esgueiram criminosamente pelo mundo, tenho certeza!)

Retomando, professor de língua estrangeira é tudo bandido. A gente faz fotocópia não autorizada de livro, jornal, revista; baixamos clipes de música da internet; copiamos discos e filmes de todo gênero; usamos imagens de Deus e o mundo sem pedir licença; mandamos vir ou trazemos, nós mesmos, DVDs de outros países dos quais vamos quebrar o mecanismo de regiões que impedem que os filmes sejam exibidos aqui, ou desbloquearemos o aparelho de DVD!

Não há um só dia, uma só aula, em que eu não infrinja alguma lei de direito autoral e, ouso arriscar, imagino que o mesmo acontece com meus colegas de profissão, seja em que sala dessa Torre de Babel repleta de meliantes eles estiverem.

O mais engraçado é que não lucramos com o fruto de nossas más ações, ao contrário, pagamos por ele, literalmente, isto é, usamos o nosso vil metal! Pagamos as cópias, compramos os DVDs virgens ou não, gastamos nosso tempo, dinheiro, além de horas e horas da banda larga da nossa internet (sem falar nas horas de sono que prodigalizamos nessas tarefas).

Assim foi, assim é e assim será cada vez mais.

Se a polícia decidisse botar escuta num centro de línguas qualquer poderia ouvir coisas como:

- Aí brother, tô com uma lista novinha de filmes pra trabalhar os tempos do passado. Vai um aí?

- Opa, mec, demorô! Passa o bagulho pra cá! Madona mia! Grazie!

- Hombre, como tu é um profe manero, vou liberá isso aqui pra ti também. Tiens!

- Ach ja. Mas é aquela música que a gente usa pra trabalhar negação! Do cholery! Eu tava atrás disso há um tempão. Como é que tu conseguiu?

- Easy! Fiz uma conta com endereço no estrangeiro e comprei um vale presente pra mim mesmo, daí consegui usar o vale presente pra baixar o MP3 da música e também uns e-books de autores contemporâneos.

- Trop cool, aê!

- Pra semana que vem vou dar um jeito de baixar uns documentários daquele canal de TV com restrição de visualização em outro país e te aviso.

- Ça marche, cabron!

E os policiais nem vão precisar de intérprete. Mas, se precisarem, vão ter vários à disposição no xilindró porque o resultado dessa blitz vai ser superpopulação de professor em cana.

O que eu acho mesmo é que devia aparecer alguém com coragem suficiente pra fazer uma espécie de “quebra de patente” do mesmo jeito que fizeram com os medicamentos uma vez: simplesmente acabar com essa história de direito autoral pra uso educacional de bens culturais. Livro, foto, revista, filme, comercial, música, clipe, DVD, etc., etc., etc. Se é pra usar em sala de aula, pra educação, então não tem essa de direito autoral. Usa-se e pronto. No todo, em parte, cortado, editado, de qualquer jeito.

Tem trabalhos maravilhosos que poderiam ser feitos em sala de aula e que não são porque há restrição de uso, ou ficaria tão caro pagar esses direitos que a atividade é inviável. Quer dizer, muitos não são feitos, mas outros acontecem simplesmente porque os professores ignoram solenemente a lei, os perigos, as sanções: no submundo dos educadores, principalmente aqueles em fase terminal de dependência pedagógica profunda, não há lei, ameaça de castigo terreno ou celeste que os impeça de fazer o que for necessário, sem maiores escrúpulos. A dependência é severa mesmo e a gente faz qualquer coisa pra ver surgir no olho do aluno aquele brilho, seguido de um Ahhhhhh!, indicativo de que ele entendeu e aprendeu alguma coisa!

E então? Quem se habilita a comandar essa cruzada? Ressuscitemos a Princesa Isabel e vamos abolir as leis de direito autoral sobre o uso educacional de seja lá o que for. Acordemos o Newton pra ele calcular a força gravitacional do peso a diminuir sobre as consciências dos professores. Eles continuarão carregando o peso dos livros e dos diversos materiais que levam para sala de aula. Se der pra diminuir o peso da condenação terrena ou divina já seria bom demais.

O paraíso mesmo seria fazer vir do mundo dos vivos ou mortos um filósofo e um químico que, trabalhando em interdisciplinaridade, transformassem todo o peso da culpa em ouro porque, em termos de salário, nem mesmo Newton mostraria que há planeta no universo em que a lei da gravidade faça com que o peso de quase nada fique muito maior que zero. Seja na matemática de Einstein ou dos salários, multiplicação por zero, continua dando zero, não tem jeito!

Isso quer dizer que nós, pobres professores, e pobre aqui deve ser entendido no sentido literal que conheceram Camões ou Machado de Assis, não teremos nem o suficiente para pagar a fiança. E, se tivéssemos, desconfio que gastaríamos tudo em contrabando de lápis, caderno e giz para dentro das prisões a fim de dar aula para os outros detentos.

Uma vez que a gente entra pro mundo do crime, não consegue (nem quer) sair mais!


1º colocado da categoria Funcionário no concurso Revele seus outros talentos, edição 2014, PUCPR



quinta-feira, 20 de junho de 2013

Legislação e religião não se misturam!


O momento é tenso, mas estou profundamente orgulhosa do que vem acontecendo. Obviamente repudio totalmente o vandalismo e a violência, mas eles são a menor parte dos que estão saindo às ruas para protestar contra TUDO o que está nos deixando indignados. Amanhã, eu mesma estarei presente na rua, engrossando a massa dos descontentes.

Aproveitando o embalo, decidi pôr em prática uma ideia que tive há algumas semanas, quando mais um grão dessa indignação que me fará ir para as ruas amanhã veio se juntar à montanha sobre a qual eu já vivia. Tudo por conta da eleição daquele deputado (cujo nome me abstenho de mencionar para evitar ainda mais publicidade) para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

Ontem ele começou a mostrar exatamente a que veio, nenhuma novidade nisso! A novidade, para mim, é que acredito que ele e a bancada à qual pertence não vão ter a força que acreditam que têm para fazer passar leis que dizem respeito às crenças deles. Pelo menos, isso não acontecerá sem MUITA discussão.

Cada um tem o direito de ter suas próprias convicções religiosas. Vivemos num país livre, graças a todos os deuses de todas as religiões! Só que ninguém tem o direito de querer impor suas próprias convicções a todos os brasileiros. Ninguém! Qualquer um pode, intimamente, pensar o que quiser sobre temas como aborto e homossexualidade, para ficarmos só nos mais recentes. Mas as leis são para TODOS, independente de crença.

Então, você pode concordar com a proposta desse absurdo que está ficando conhecido como "cura gay", mas isso não pode ser imposto a toda a população! Se esse projeto for aprovado, abrirá as portas para que outras leis baseadas em crenças religiosas sejam também aprovadas o que é um verdadeiro absurdo!

Para mostrar o ponto a que podemos chegar se permitirmos que a religião paute a proposta de leis, imaginei quatro situações bizarras e criei imagens para representá-las. Vou divulgar aqui e no Facebook. Espero que outros, tão indignados quanto eu, comprem a ideia e que ela se dissemine e se torne realmente um movimento por um país laico.

Eu tenho minhas crenças. Elas são as minhas leis pessoais. Só minhas e de quem mais pensa como eu. Já as leis do Congresso são para todos e nenhum deus tem nada a ver com isso!









quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Hein?

O quê? Estou de volta?! Uhuuu!!!

A vontade de continuar o blog sempre foi imensa, desde que ele foi abandonado. E agora não sei se é uma volta mesmo, ou só um último suspiro antes de morrer, mas hoje, fazendo nada pela Internet, revi um vídeo que foi dos mais legais que assisti esse ano e decidi publicar aqui uma crônica que escrevi alguns meses atrás.

No primeiro semestre participei de uma Oficina de Análise e Criação Literária de Crônicas, sob a orientação da Mônica Berger e o resultado foi que escrevi algumas... crônicas! :-) Aos pouquinhos vou soltando os textos por aqui...

O primeiro que decidi compartilhar tem relação com esse vídeo do Youtube.

O vídeo mostra um pedido de casamento e é o exemplo perfeito do que eu acho que NÃO se deve fazer, mas, vejam que contradição, não consigo assistir sem me emocionar às lágrimas a cada vez. É porque ali naquela elaboração toda estão os amigos, a família, de perto e de longe, e eu senti simplicidade e sentimento verdadeiro naquelas pessoas. Sei lá! Gostei e pronto!

Talvez esses exageros de vez em quando façam bem, só não podem se tornar a regra! Por isso divulgo o vídeo, mas ao mesmo tempo o que penso dessas "super produções", especialmente ligadas a pedidos de casamento (imagine o que o cara vai ter de aprontar para as bodas que virão pela frente: papel, plástico, platina, prata, ouro!!!).

Quem quiser ver o vídeo clique aqui.

Meu humilde texto, pra não acabar o ano (e quem sabe o mundo!) sem dizer minhas últimas palavras, vai na sequência.

É longo, claro! Como os textos de blog NÃO devem ser.
Mas não estamos falando em contradições?

Hein?


Há alguns anos fiz um curso de fonética e aprendi que a onda sonora vibra num contínuo de frequências, da mais baixa à mais alta, mas o ouvido humano só consegue reconhecer os sons que vibram numa frequência intermediária. Imaginando um bolo de chocolate recheado por uma grossa camada de doce de leite é como se a gente não percebesse a massa nem cima nem embaixo e sentisse o gosto só do recheio.

Quando alguém fica exposto a sons muito fortes por muito tempo, seja por trabalhar num local barulhento ou por ouvir música muito alta com fones de ouvido, por exemplo, o cérebro, para se proteger, começa a ignorar as frequências mais baixas, gerando uma espécie de surdez para os sons suaves. Isso quer dizer que, quanto mais tempo exposto a essa situação, mais surda para os sons baixos a pessoa vai ficando. Não é que o ouvido deixe de ouvir, é o cérebro que deixa de registrar, o que significa que só sons muito fortes, cada vez mais fortes, serão reconhecidos, o resto será ignorado. Como o limite superior não muda, dá pra imaginar um recheio cada vez mais magrinho naquele bolo.

Tá, e daí? Deve ser a pergunta que ronda sua cabeça enquanto lê essas bobagens. Daí que eu acho que estamos vivendo uma época de perigosa surdez emocional.

Pra que algum acontecimento nos emocione ele tem que ser cada vez mais espetacular, grandioso, exagerado. Estamos tão expostos às mudanças vertiginosas de tecnologias e de possibilidades, estamos tão habituados a ver limites sendo ultrapassados, que coisas absolutamente impressionantes há pouquíssimo tempo já não nos causam qualquer sensação. Mas como precisamos muito de sensações e emoções andamos à caça delas onde estiverem, daí as montanhas russas cada vez mais rápidas e violentas, os filmes cada vez menos enredo e mais efeitos especiais, os shows cada vez mais palco e menos artistas e assim por diante, até chegar às drogas cada vez mais devastadoras e capazes de dependência praticamente instantânea.

Tenho observado muitas situações de exemplo dessa espécie de anestesia emocional mas, como isso é uma crônica e não um romance épico em sete volumes, vou me restringir a comentar somente duas.
Um tempo atrás descobriram que um apresentador de programa de reportagens policiais em Manaus estava encomendando assassinatos. Dessa forma, a equipe dele era sempre a primeira a chegar ao local do crime e pegava imagens do presunto ainda fresquinho.

Por que ele chegou a esse verdadeiro absurdo inqualificável? Provavelmente porque tinha atingido todos os níveis possíveis para provocar emoção nos telespectadores que mostravam sinais de fastio com as reportagens normais, dos crimes normais que acabaram se tornando banais. Os números do IBOPE simplesmente não subiam, ou pior, desciam! Telespectadores infiéis estavam indo buscar emoção em programas novos, só porque eram novos, talvez.

O segundo exemplo é bem menos trágico, mas aconteceu comigo. Eu estava assistindo à apresentação de um circo de ciganos. Em um dado momento uma moça enrolou as pernas em longas tiras de tecido que pendiam do alto e se soltou parando um pouco antes de chegar ao chão, sem usar as mãos. Eu sei, todo mundo já viu isso dezenas de vezes na TV desde que os acrobatas do Cirque du Soleil inventaram esse número há... sei lá... milênios? Séculos? Não?! Pouco mais de uma década? Poxa, são mais de dez anos! Uma eternidade! Como muita gente, também sufoquei um bocejo e pensei: “Ai, de novo isso? Que tédio!”. E foi então que um raio de luz caiu sobre mim e provocou uma verdadeira epifania:

COMO ASSIM, QUE TÉDIO?!

Uma pessoa se enrola em panos pendurados a metros de altura, sem nada mais que a segure a não ser os músculos das coxas, larga-se em queda livre de cabeça para baixo e para a centímetros do chão! Tudo isso diante dos meus olhos e só o que eu penso é: “Outra vez? Que tédio?” Esse é um exemplo típico de surdez, cegueira ou anestesia emocional.

Precisamos de mais, sempre mais. O fabuloso já não nos satisfaz, os limites do fantástico precisam ser constantemente quebrados e a uma velocidade cada vez maior. Só que a emoção dura cada vez menos porque logo é substituída por outra ainda mais forte. E nós, com essa música enfiada nas nossas orelhas, precisamos de estrondos cada vez mais altos. Estamos ficando surdos para músicas, nem digo suaves, digo mesmo normais, ou que eram normais até pouquíssimo tempo.

O susto que tive com minha própria anestesia emocional me levou no dia seguinte a parar alguns minutos para me extasiar com a refeição matinal que faria, composta de uma xícara de café com leite e uma fatia de pão com manteiga.

Fiquei perplexa diante daquela verdadeira maravilha das conquistas! Eu tinha diante de mim séculos de evolução, de descobertas, de uso da inteligência, de raciocínios lógicos, de tentativas frustradas e de lampejos geniais que foram se acumulando ao longo do tempo. Foi preciso perceber que a frutinha do café devia secar, para depois ser torrada, moída, o pó filtrado em água quente, então adicionado ao leite e, em alguns casos, ainda se coloca um pouco de açúcar, que vem de um caule, que é espremido para gerar um suco que é processado a fim de obter aquele pó. Para o pão foi necessário encontrar a planta do trigo em certa quantidade, ver que aquelas sementinhas tinham de sair de dentro de um invólucro de palha que pinica, depois tinham de ser moídas para virar farinha. Foi fundamental ainda compreender que isso devia ser misturado à água, ao fermento (que descoberta genial!), ao sal (porque alguém observou o mar e entendeu como recolhê-lo em quantidade) e que a massa precisava do calor de um forno (fogo já era dominado, nem falemos disso). Para acabar, algum gênio descobriu que aquele leite que saía das vaquinhas podia ser separado em gordura e líquido e que essa gordura, batida, se transformava em manteiga.

Café com leite e pão com manteiga! Que coisa mais extraordinária! Que grande conquista da humanidade, quanto saber acumulado diante dos meus olhos todas as manhãs e absolutamente ignorado por mim e pelo meu tédio emocional!

Isso porque nem parei pra pensar no resto: xícara, garfo, faca, mesa, cadeira, forno de microondas, etc., etc., etc.

Estamos cercados de maravilhas e simplesmente as ignoramos diariamente numa busca ansiosa pelo novo, pelo estupendo, pelo sensacional, pelo nunca antes visto. Só que o nunca antes visto pode estar na frente, ao redor, em cima e embaixo de nós mesmos o tempo todo. O que não temos mais é cérebro para ver, nem para reconhecer isso. Estamos ficando surdos e cegos, morreremos de fome emocional diante de um banquete para centenas de talheres posto bem na frente dos nossos narizes e olhos insensíveis.

Como tudo, há o lado bom e o lado ruim disso. Ser eternamente insatisfeito e incompleto foi o que trouxe a humanidade até aqui. É preciso continuar assim, querendo mais. Só que, diante de algumas situações que tenho observado, acho que estamos precisando dar uma paradinha nessa ciranda pra contemplar um pouco, ou novamente, aquilo que já temos, para saborear vagarosamente as emoções, dando o tempo necessário para que nosso cérebro as registre. O sinal de alerta deve ser o primeiro bocejo diante de algo que deveria nos causar um sentimento qualquer e que já não causa mais.

Deixar de cuidar disso pode nos levar a um estado de ausência de sentidos: cegos, surdos, sem condições de sentir o gosto, o cheiro ou o toque das emoções que nos rondam sem cessar. As espetaculares são importantes. Demais! Vamos reservá-las para ocasiões especiais e raras, como antes tínhamos a roupa de domingo.

Eu não sei você, mas adoro doce de leite e quero que o recheio do meu bolo seja sempre o mais espesso possível! Uma festa para os olhos, o nariz, o toque, a boca e os ouvidos: Hummmmmmmmm!

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Em outras paragens...

Eu sei! Nem consigo achar hora pra atualizar este blog e venho aqui pra contar que uma vez por mês escreverei coisinhas em outro blog?! Não é traição, juro!

É que muitas coisas me preocupam nessa vida... Lixo, por exemplo. Já tive a oportunidade de falar sobre isso por aqui, é só dar uma olhada em tudo o que é Papo Verde.

Aí não resisti a um convite para aliar duas coisas: minha preocupação com o lixo e também trabalhos artesanais. Era pedir demais, não?

Então, a partir de agora, uma vez por mês vou contar como fazer algum trabalho artesanal usando material reciclado no blog Vitrine Verde. O primeiro post já pode ser conferido na minha coluna que se chama A menina da mão verde.

Mas não vou abandonar este meu cantinho lítero-verborrágico... As letras continuam mais do que presentes na minha vida, podem acreditar! Só que têm se manifestado de outras formas menos públicas. Pelo menos por enquanto...

Então, meus caríssimos bleitores, vocês estão todos convidados a acompanhar o Vitrine Verde. Espero vocês lá. Todos os quatro!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Quem tem medo de tecido importado?

Sei que publiquei aqui, dia primeiro de janeiro, meu desejo de ano novo que era o de trazer de volta as letrinhas pra minha vida. E depois, sumi!

Mas esse desejo lançado aos ventos virtuais realmente se concretizou e as letrinhas voltaram pra minha vida em coisas que aparecerão durante o ano, só não tinha ainda materializado aqui nesse meu espacinho. Que injustiça a minha!

Então, pra me redimir, vou publicar um conto que já está escrito há três anos, mas ainda guardado, criando poeira digital... É mais uma aventura da Quiltéria, personagem que criei lááááá em dezembro de 2006, cuja vida é um patchwork de momentos das amigas quilteiras que fiz pelo mundo afora (e isso NÃO É força de expressão!). Dessa vez a história da Quiltéria foi inspirada em uma amiga de Porto Alegre, chamada Anete Soares. Juntei um comentário dela, com mais coisinhas minhas vividas aqui e ali, e deu isso que vocês vão ler.

Mais uma vez, texto longo demais pra blog, mas por enquanto é o que dá! Sempre dá pra imprimir, né? E agora tem iPad, iPod, iPhone, ai-quanta-coisa-nova-e-diferente-que-não-sei-usar que vamos ter de aprender a ler na tela mesmo. Não tem jeito!

Então lá vai: minha volta às letrinhas com minha adorada Quiltéria!

Quem tem medo de tecido importado?

Há tempos Quiltéria fazia patchwork e já era impossível passar numa loja de tecidos sem dar uma paradinha, comprar alguma coisa. Até que um dia, uma novidade chamou sua atenção:

- Olha! O que são esses quadradinhos?
- São tecidos importados. Sobras que eles vendem assim, em pedacinhos. São ótimos para trabalhos pequenos, aplicação. Isso sem contar com aquelas coisas lindas que a gente faz só com restinhos. E o preço é ótimo!
Quiltéria não cabia em si de felicidade! Junto com outras amigas quilteiras lançou-se à tarefa de selecionar quadradinhos nas pilhas imensas. Todos tão lindos! Como escolher?
Com muito custo ela conseguiu separar uns 50 pedacinhos de tecido e foi pra casa.
Chegou, espalhou todos pelo chão da sala e começou a separá-los em combinações. Dois a dois, três a três. Mudava pedaços de uma combinação a outra, e descobria, encantada, um caleidoscópio de possibilidades. Começou a imaginar as peças maravilhosas que faria assim que terminasse a cortina da cozinha.
Foi difícil achar motivação para acabar a cortina, tamanha era a vontade de começar a usar seus paninhos importados, mas ela conseguiu. Enfim, poderia se dedicar à divertida ocupação de cortar os tecidinhos para fazer pegadores de panela que combinassem com a cortina recém-terminada... Espere aí! Cortar? Ela teria de cortar os paninhos? Cortar em pedacinhos pequenininhos como fazia com os outros tecidos, os nacionais?
Olhou pesarosa para seus paninhos importados, alisou carinhosamente a pilha. Sentiu um peso no coração. Não dava! Impossível cortá-los. Os primeiros importados que ela tinha comprado. E era tão pouquinho...
Isso! Era isso que ela tinha de fazer: comprar mais quadradinhos, assim, se tivesse bastante, não teria pena de cortá-los.
Voltou à loja e, dessa vez, já teve de brigar com uma ou outra cliente por alguns dos pedaços de pano. Todas aquelas desesperadas! Que absurdo!
Chegou em casa com mais 50 pedacinhos e repetiu o ritual: espalhou pelo chão da sala junto com os 50 da primeira compra, olhou, separou em combinações. Alisou um por um, suspirou e pensou: Amanhã mesmo começo meus pegadores de panela!
Mas, no dia seguinte, onde foi parar a coragem? Quiltéria inventou mil desculpas pra não entrar no quarto de costura. Nem bem dava um passo e lembrava de uma coisa importantíssima e inadiável a fazer como, por exemplo, separar os enfeites de Natal que deveriam ser restaurados. Eles já estavam na Páscoa! É fechar o olho e abrir e já é Natal!
A coisa estava ficando grave. Quiltéria tentou várias vezes, fechou a cara, caminhou com olhar firme para a sala de costura, pegou o cortador, a régua e a placa. Colocou, decidida, o paninho sobre a placa, ajustou a régua, pegou o cortador e... largou tudo e saiu correndo, acabando de lembrar que não tinha ainda feito a lista de compras de presentes de Natal!
A situação estava ficando insustentável! Ela pediu conselho às amigas. Uma delas disse:
- Olha esse portal do patchwork na internet. É maravilhoso! Lá tem uma loja também. Entre na loja e compre tecidos importados, mas em metros! O problema é que os seus paninhos são muito lindinhos e pequenininhos. Você sabe que se usar, vai acabar. Se tiver em quantidade, isso não acontece. Vai por mim!
E assim ela fez. Estourou o saldo no banco por conta de vários metros de tecido importado que encomendou no site da loja. Na verdade, ela até se sentia mais leve, sem todo aquele dinheiro acumulado. Dinheiro é pra gastar, é ou não é?
Aguardou ansiosamente a entrega do correio com a encomenda que continha o seu tesouro. Quando eles chegaram, abriu o pacote rapidamente e namorou-os demoradamente. Depois lavou todos os paninhos, pendurou para secar, passou cada um imaginando os trabalhos incríveis que faria. Dobrou um a um, com cuidado. Fez uma pilha, agrupando-os em combinações. Desempilhou, empilhou novamente em nova ordem. Alisava-os suavemente, mas, a cada vez que estendia um deles sobre a placa, ajustava a régua e pegava o cortador, o suor começava a brotar na testa, os lábios fremiam, as mãos tremiam e todo mundo sabe que não dá pra cortar paninho com as mãos tremendo! Melhor deixar pra depois!
Quiltéria começou a se desesperar! Não dormia direito, tinha olheiras. José, seu marido, não sabia mais o que fazer para animá-la. Nem brigou por causa da conta estourada, tamanha era a tristeza da esposa.
Um dia, passeando pelo fórum da sua amada comunidade do Orkut, Quiltéria descobriu que não estava sozinha. Mal conseguiu conter as lágrimas quando leu o que a mestra criadora da comunidade, Candida, tinha escrito. Era uma série de recomendações para ter coragem de usar os panos importados. Quiltéria seguiu à risca cada uma delas! Mas nem assim conseguiu a coragem necessária para cortar seus importados. Será que teria de conviver pra sempre com eles dentro daquela mala? Sim! Nem em armário eles estavam mais. Incapaz de deixá-los num canto, como tinha sugerido a mestra, acabou por comprar uma mala. Seus paninhos importados tinham ganhado uma mala só para guardá-los. No fundo o que ela pensava era: Se a casa pegar fogo, eu consigo sair com essa mala e salvo meus paninhos! Era assustador!
Um dia, Quiltéria foi a um lanche com outras quilteiras. Elas comemoravam a visita de uma amiga que estava morando fora do país por um tempo. O encontro aconteceu numa confeitaria. Alguém um dia ainda vai provar que quilteiras e confeiteiras têm tudo em comum. A conversa não podia estar mais animada, todas querendo falar ao mesmo tempo, as risadas correndo soltas. Desse grupo fazia parte uma outra amiga, que também tinha morado por três anos fora do país. Foi quando o diálogo que mudou a vida de Quiltéria aconteceu:
- E você? Trouxe muitos paninhos da Europa?
- Nenhum.
Um coro, quase gregoriano, ocupou o lugar das risadas:
- NENHUM?!
- Nenhum! Quando viemos embora não tínhamos espaço suficiente na nossa bagagem para trazer as peças que eu tinha feito e também os tecidos que eu tinha comprado por lá. Então arrumei os trabalhos prontos junto com as malas que vieram conosco no avião e coloquei todos os panos numa caixa que enviei pra mim mesma pelo correio.
- Com TODOS os panos?
- Todos. Sem exceção.
- E daí?
- E daí que essa caixa nunca chegou...
- Você reclamou nos correios? Foi atrás?
- Claro! Mas ninguém sabia de nada, minha caixa com paninhos simplesmente se desintegrou no ar.
- Eram os panos nacionais, né?
- Não. Os nacionais eu dei de presente para minhas amigas que ficaram por lá. Nessa caixa tinha só os importados.
- Mas por que você não usou esses tecidos nos seus trabalhos?
- Não tive coragem... A cada vez que eu pegava um deles, desistia. Acabava usando um dos nacionais que tinha levado comigo. A grande ironia é que, se eu tivesse usado meus paninhos importados, hoje eles estariam aqui comigo, nos trabalhos que eu fiz. Estariam expostos na parede da sala pra que eu desse uma olhadinha neles todos os dias... Mas não usei. Não vou ver nenhum deles... Nunca mais...
Um silêncio sepulcral desabou com o peso de uma tonelada sobre a mesa, antes tão festiva.
Os olhares baixos. Os suspiros. De vez em quando uma delas inspirava e abria a boca como se fosse dizer alguma coisa, mas desistia. A história era escabrosa demais.
Quiltéria voltou pra casa e, assim que entrou, José estranhou sua expressão. Grave, decidida. Tentou perguntar o que tinha acontecido, mas não teve resposta.
Ela passou pisando firme por todos, entrou no quarto de costura e fechou a porta. Do lado de fora a família ficou escutando os barulhos: portas que abrem e fecham, cliques, claques, sons de coisas sendo rasgadas. Depois, a máquina de costura. Silêncio. Novamente a máquina. Silêncio. Máquina. Silêncio. Máquina...
Horas depois Quiltéria abriu a porta do quarto de costura, a respiração ofegante, os cabelos em desalinho, um brilho diferente no olhar. José pensou reconhecer novamente sua Quiltéria dos tempos de namoro e não se enganou. Ela caminhou na direção de José. Enlaçou o marido pelo pescoço, lascou-lhe um longo beijo e o empurrou para o quarto do casal.
Em cima da mesa, ao lado da máquina de costura, era possível ver o topo de um lindo painel com minúsculos pedacinhos de tecidos, todos diferentes. Várias bordas. Um painel feito inteiramente de tecidos importados.
A porta do quarto do casal se fechou e outros barulhos começaram a ser ouvidos. Mas essa... bem, essa é uma outra história!

sábado, 1 de janeiro de 2011

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A magia de vez em quando reaparece

Não, quase não escrevo mais...
Acho que um dia voltarei a escrever, mas por enquanto, não dá.

Então, vivo um pouco minhas criatividades do passado, as muitas coisas que fiz num período em que fiz muita coisa mesmo! O período em que esse blog nasceu e foi engordando, até chegar a essa dieta que o mantém vivo só por estar ligado aos aparelhos. É que a esperança de que ele um dia volte a viver ainda não morreu, essa danada, que resiste, resiste, resiste! Então, tá. Que ela fique aí resistindo...

Enquanto isso, como disse, aproveito as produções do passado.

Esses dias, passeando pelo blog da minha amiga Patrícia li um post em que ela falava de um outro blog, chamado Banana Craft que publica de tempos em tempos festas de aniversário como antigamente, isto é, quando a gente fazia tudinho e não alugava simplesmente um buffet ou coisa parecida.

Nada contra os buffets! Já usei várias vezes e usarei outras tantas, é uma das coisas mais práticas que já inventaram, aliás, faz parte da minha lista de grandes inventos da humanidade! Mas fazer decoração de festa infantil é uma coisa que eu adoro, já tive até sonhos de ter um negócio assim, então, quando dá, eu mesma faço a decoração das festas das crianças.

Em 2008 foi a vez da Ana Luíza, como já tive a oportunidade de contar por aqui.

Como a proposta do blog Banana Craft é falar de festas handmade decidi mandar minha história, e não é que gostaram dela?

Então esta aí, mais uma das minhas artes de um passado recente.

Enquanto não volta meu tempo pras palavras, nem pras tesouras, nem pros pinceis, vou relembrando o tempo em que eles estiveram tão presentes que me permitiram criar tanta coisa legal. Um dia eles voltam, sei disso!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

RRRRRRRRRRR!!!

Cuidado! Tem um bicho muito feio rosnando aí em frente e é bom que a gente faça alguma coisa para acalmá-lo senão a coisa vai ficar feia pro nosso lado! Não é de hoje que o assunto me preocupa. Muito! E, para acalmar os ânimos da criatura, basta que a gente se inspire no seu próprio rosnado e povoe a cabeça com dezenas de Rs a cada dia. É preciso Reciclar, Reutilizar, Reinventar, Revitalizar, Reduzir e tudo o mais que comece com R e que possa Recuperar o mundo em que vivemos.

Se a gente se concentrar nesses Rs, pode ser que não seja roído pelo monstro assustador, que foi criado por nós mesmos, é preciso reconhecer.

Assim, que venham os Revolucionários, que mudarão a maneira de produzir para acabar com as agressões ao meio ambiente. Que pululem os Racionais, que repensarão sua maneira de consumir, evitando excesso desnecessários. Que entrem em cena os Resistentes, que encontrarão formas de reduzir a quantidade absurda de embalagens de todos os tipos que nos sufoca. O homem, como ser espertinho que é, saberá dar conta do recado, tenho certeza disso. Alguém que foi capaz de atingir conquistas tão espetaculares, saberá encontrar o rumo para arranjar a rebuliço que algumas dessas conquistas acarretaram.

Inspirados na própria natureza, nós, humanos, encontraremos o caminho para sair da enrascada em que já estamos e, de quebra, nos resguardarmos daquela que se anuncia para breve.

Tem os que agirão em grande escala, como um terremoto, que abalará as estruturas e que causará grandes e repentinas mudanças. Tem aqueles que agirão em área mais restrita, embora não com menos força, como uma longa temporada de chuvas e raios que mudará forçosamente o terreno pelas destruições de velhos padrões, pela chamada à consciência, por mostrar continuamente novos caminhos para antigos hábitos. E tem aqueles que agirão como formiguinhas, em atitudes minúsculas, às vezes risíveis, mas que, no conjunto, levarão a grandes resultados.

É assim que governos determinarão leis, empresas criarão conceitos, pessoas agirão silenciosamente. No final, todos reunidos, na medida de suas forças e possibilidades, evitarão a catástrofe há muito anunciada da morte do nosso planeta, e da gente junto, de carona nesse melancólico fim.

Eu pertenço humildemente ao grupo das formiguinhas. E fico ali, com meu tamanho ínfimo, apoiando instituições que acredito que podem fazer mais do que eu. Além disso, faço o que posso no miudinho, evitando sacolas plásticas, procurando maneiras diferentes de embalar presentes, deixando de lado, sempre que possível, tudo o que é descartável, mandando arrumar equipamentos no lugar de comprar novos e encontrando maneiras de reciclar e reutilizar mateiriais.

Foi por isso que aderi ao projeto da Ecochoice, uma loja virtual que promove e vende itens em cuja fabricação haja preocupação com o meio ambiente, seja lá em que sentido for (reciclagem, produção sutentável e tantas outras iniciativas).

Tem umas coisinhas que eu fiz à venda por lá, embora vender coisas não seja meu objetivo. Sou tão boa vendedora que seria incapaz de vender água no deserto! Mas estou com um sério problema...

Desde o ano passado comecei a pintar as latas de produtos que eu uso e que iriam para o lixo. Fiz isso para evitar mais detritos nos aterros sanitários, para reduzir a compra de objetos para minha própria casa (porta lápis, porta escova de dentes, porta óleo de cozinha, porta tesouras e tantos outros materiais) e também para dar de presente à família e aos amigos evitando, assim, comprar mais presentes xing-ling, os quais vêm embalados em vários plásticos e papeis que acabarão no lixo, sem contar o papel de presente, lacinhos, etc. e tal.

Depois de um ano, o drama: as latas vazias continuaram dando cria, já distribuí latinhas decoradas pela casa toda, já presenteei todo mundo, acho que tem muito pouca gente que ficou sem ganhar latinhas no ano que passou! E mais latinhas saem do meu cafofo, e vão ocupando espaço em casa. Eu não podia, por motivos óbvios, mandá-las para o lixo (modéstia à parte, elas são bem simpáticas). Além das latinhas, faço descansos de mesa com tampinhas de garrafa, pinto caixotes de frutas pra guardar livros, faço guirlandas com restos de tecido, só que essas coisas ainda não estão entulhando a minha casa. Por enquanto, a invasão de gremlins é só das latas mesmo...

Então, anuncio aqui que de tempos em tempos oferecerei peças customizadas por mim na Ecochoice! Eu fiz uma escolha que é a mesma dos criadores da loja. Uma escolha pela continuidade da vida nesse planeta o mais próximo possível de como encontramos a natureza quando chegamos por aqui.

E você? Qual é a sua escolha?

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Dá uma lambida?

Mais selinhos!

Mantendo minha atitude antidesportiva, demoro MESES pra agradecer, divulgar e, de quebra, não vou cumprir o ritual de indicar outros blogs. Nasci com esse defeito, gente. E como tem outros mais graves na fila esperando (inutilmente) para serem corrigidos, esse vai ficando...

Aqui vão os selinhos gentilmente oferecidos.

Primeiro o da minha super amiga, Sandra Pagano:

Amiga! Ainda teremos o prazer de um outro abraço de ursa daqueles!

Agora o selinho da Ariane Garcia, genitora da Mel, criado por ela mesma!


Ariane, eu sou assim meio sem jeito pra essas coisas, mas manifestações como a sua são uma das razões que me fazem insistir nesse blog abandonando a vontade de desistir que aparece às vezes...

OBRIGADA! Aos selos, aos que continuam me visitando mesmo com minhas ausências, pelas presenças comentadas e também silenciosas.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Olho por olho...

Temos de reconhecer: às vezes, os vizinhos não se dão muito bem. Estão aí judeus e palestinos que não me deixam mentir. É claro que a coisa não precisa chegar àquele extremo, mas tem situações em que não tem política da boa vizinhança que resolva!

Eu mesma já tive meus percalços com vizinhos chatos e cheguei ao ponto de ter de mudar de prédio pra evitar as reclamações de um ranzinza do andar de cima. Uma das minhas primas foi obrigada a vender o excelente apartamento que tinha comprado só pra se ver livre dos pitis histéricos de um morador que reclamava do barulho que eles faziam. Ela chegou a ensinar o filho adolescente a fazer xixi sentado porque o tal reclamava do barulho do xixi do menino, dá pra acreditar?

Há algum tempo fiquei conhecendo os tormentos de uma amiga, cujo vizinho tinha a casa em obras há oito anos, obras essas que já tinham provocado dois incêndios e um alagamento na casa dela. Depois de anos de brigas sem fim ela adotou a postura conhecida como os incomodados que se retirem, desistiu e comprou outro lugar para morar, mas teve de aguardar até que o novo local ficasse pronto, sempre convivendo com o canteiro de obras do gênero o inferno mora ao lado.

Quando alguém vive uma situação semelhante e tem de esperar até poder se mudar, o que fazer para sobreviver sem surtar até chegar o dia da libertação?

Eu concordo totalmente com o ditado que diz: se você não pode com ele, junte-se a ele. No caso da minha amiga ela tinha tentado todos os meios diplomáticos e legais. Nada resolveu. Numa situação dessas, para não viver só o lado ruim de uma convivência forçada, minha sugestão foi a de encontrar formas criativas de passar o tempo, no melhor estilo junte-se a ele.

Não sei em que pé está o imbroglio da minha amiga, mas caso você, dileto bleitor, esteja passando por situação semelhante, pode aproveitar as dicas que andei caraminholando. Aqui vai minha singela contribuição na forma de um Manual de Sobrevivência Para Quando Seu Vizinho Atormentar Sua Vida. São muitas as atitudes possíveis, vejam só...

Costure um monte de bonequinhos e espete agulhas e/ou pregos por todo corpo. Degole alguns, enforque outros, depois pendure todos eles dentro da sua própria casa, mas em um lugar que seja bem visível pelo sociável vizinho.

Faça uma maquiagem pálida, pinte olheiras, vista roupas pretas por um mês seguido, ouça somente música do compositor alemão Wagner (a Cavalgada das Valquírias é ótima!) e dê um jeito de, quando encontrá-lo, estar com um olhar perdido ou então esbugalhado. Se puder andar segurando um facão de açougueiro, melhor ainda!

Mude seus hábitos alimentares! Adote uma dieta que contenha, no café da manhã, um cozido preparado à base de músculo, bucho, rins, fígado, couve-flor, brócolis e repolho. Prepare o prato todos os dias sempre às 6h da manhã. O ideal é colocar a panela para cozinhar do lado de fora da sua casa na sacada ou área de serviço, um lugar qualquer que seja bem próximo da casa do seu amado vizinho.

Depois que fizer o cozido por vários dias seguidos, assim que cruzar com ele dê uma gargalhada súbita e então comece a falar o seguinte: Hã? O quê? Jack? É você, Jack? Cortar em quantos pedaços? No cozido? Sei... e lance ao seu vizinho um olhar de alto a baixo, cheio de significados.

É hora de abraçar de corpo e alma o sincretismo religioso! Programe encontros na sua casa, não se esquecendo de encerrá-los impreterivelmente às 22h. Nem um minuto antes, nem um minuto depois. A programação da semana poderia ser a seguinte: segunda-feira, umbanda. Terça-feira, um grupo carismático de carpideiras. Quarta-feira, aquele pessoal gente boa dos Hare Krishna. Quinta-feira, ensaio de grupo Gospel sertanejo. Sexta-feira será a noite do exorcismo ou das bruxas, quando sua casa abrirá as portas aos amigos e, vestidos de túnicas, vocês cantarão músicas em línguas estranhas e dançarão ao redor de um caldeirão. Não se esqueça de providenciar o indispensável equipamento de som bem potente.

Fique de olho na meteorologia. A cada vez que acontecer uma tempestade, bata portas e janelas, arraste correntes e arranje um CD de uivos e gemidos.

Falando em gemidos, muito provavelmente as coisas não estarão muito animadas na sua casa por causa das desgastantes brigas. Então, o negócio é improvisar! Alugue uns filmes pornôs e ligue bem alto na madrugada. Daí, bata a cadeira na parede divisória entre as casas no ritmo dos gemidos do filme. Portanto, Ah! Ah! Ah! Ahnnnnnnnn!!! serão acompanhados de Pum! Pum! Pum! Papapapapapa!!! De preferência, repita a operação a cada duas horas. No dia seguinte, quando encontrar seu vizinho, assim como quem não quer nada, exiba umas vinte caixas camisinhas e outras tantas de Viagra, dando um sorrisinho safado e dizendo: Hoje a coisa vai ser quente de verdade!

Aproveite para colocar em prática seu espírito solidário: ofereça-se para cuidar de bebês recém-nascidos que sofram de refluxo gástrico ou que estejam naquela fase das cólicas que fazem as crianças chorarem ininterruptamente por horas seguidas, principalmente na madrugada. Tenho certeza de que você facilmente dará conta de cinco crianças ou mais!

Esse será a hora perfeita para colocar em prática o plano tão acalentado, mas sempre adiado, de levar uma vida saudável! Portanto, dedique um tempo aos exercícios físicos. Providencie música de academia e contrate um personal trainer super animado que, equipado de um megafone, comande a sessão saúde com gritos de estímulo: Vamos lá! 1, 2, 3, 4! Força aí! Mais uma vez! 1, 2, 3, 4! Muito bom! Os exercícios serão praticados durante duas horas, sempre a partir das 8h da manhã em todos os sábados, domingos e feriados.

Deixe a música entrar na sua vida e também na do seu vizinho. Observe seus hábitos musicais e, generosamente, ouça aquilo que ele NÃO ouve, afinal, conhecer coisas novas é sempre bom. Escute suas músicas durante horas, se possível repetindo dez a quinze vezes seguidas a mesma canção. Pode ser pagode, techno, funk, música étnica, tipo chinesa, japonesa, indiana ou alemã, sertanejo, Kelly Key, Bonde do Tigrão ou, melhor ainda, uma seleção dos anos 70 composta de Jane e Herondy, Kátia, Márcio Greick, Nelson Ned e Odair José. Desde que seja das oito da manhã às vinte e duas horas sem parar, em repetições ininterruptas.

Compre uma telha de zinco e posicione-a embaixo de uma torneira que você deixará pingando durante toda a madrugada, numa área que se possa escutar da casa do seu amigável vizinho. Recolha toda a água em um balde e use para o cozido depois. Não dá pra desperdiçar água potável, não é mesmo?

Adote uma ou mais dessas medidas. Certamente não vai resolver de jeito nenhum o problema com o mala do seu vizinho, mas garanto que você vai se divertir demais! E é o povo quem diz que água mole em pedra dura... Pode ser que um dia você acabe ficando famoso por ter ido parar naquele quadro do Fantástico, O Conciliador. Todo mundo sabe que a esperança é a última que morre, não é? Depois, até mesmo, do seu vizinho!

domingo, 11 de abril de 2010

Um trem facim dimais, sô!

Para Eugenio
... TAM TAM TAM TAM TAM TATATATÃ!

A musiquinha de edição especial do telejornal na TV fez o de sempre: girou todos os pescoços do ambiente na sua direção. Pescoços estes que sustentavam cabeças, que separavam orelhas, que sabiam que boa coisa não estavam por ouvir.

A polícia ainda não conseguiu esclarecer o mistério do bandido que anda aterrorizando as casas de repouso da cidade. Mais uma vítima foi encontrada hoje e o perfil se repete: mulher idosa, cabelos brancos, óculos, baixa estatura e tipo roliço, como todas as outras, em estado de choque. Esta se chama Emengarda e foi encontrada como uma múmia, enrolada em fraldas geriátricas. Como as vítimas anteriores, ela não consegue ainda dar depoimentos, mas seu relato não deve ser muito diferente daquele registrado pelas demais senhoras atacadas pelo bandido. Ou bandida. O malfeitor aparece quando a vítima está sozinha e veste roupa de cozinheiro, usa um aparelho que modifica a voz e também uma máscara com um rosto de algum chefe de cozinha. Na semana passada, quando D. Genoveva foi encontrada enfiada no seu andador equilibrado de cabeça para baixo sobre quatro urinois, o meliante usava uma máscara de Jamie Oliver. Já apareceu como Nigella Lawson, Claude Troisgros, Paul Bocuse e Ana Maria Braga. Apareceu também como Álvaro Rodrigues, Ofélia, Palmirinha e Tia Anastácia.

O modus operandi é sempre o mesmo: a vítima é surpreendida durante a noite, amordaçada e imobilizada. A partir daí sofre um interrogatório exaustivo que dura toda a madrugada. Nos últimos tempos elas têm sido também ameaçadas fisicamente com colher de pau ou rolo de macarrão. Já houve relatos do uso de espremedor de alho e descascador de legumes. As perguntas giram em torno de técnicas culinárias as quais todas as vítimas afirmam ter respondido, mas, aparentemente, isso não satisfaz o criminoso, que se irrita cada vez mais até que, nas primeiras horas da manhã, parte tão silenciosamente como entra, não sem antes deixar a vítima numa situação constrangedora, como foi o caso de D. Genoveva e o andador na semana passada, mas também D. Inácia encontrada de quatro, a prótese dentária colada com adesivo permanente em posição de mordida nas nádegas e os chinelos de tecido pendurados nas orelhas. Outra semelhança entre as vítimas é elas terem ligação direta ou indireta com o estado de Minas Gerais.

Como o facínora está sempre disfarçado é muito difícil qualquer identificação e a polícia acredita que...

TLEC!

Um par de olhos arregalados encarava o vazio da TV recém-desligada. Sons abafados partiam da boca amordaçada por um pano de copa bordado com moranguinhos.

Ouviu bem, D. Maria?

A apavorada senhora viu surgir diante de si a cara do Olivier Anquier que falava sem mover os lábios com aquela voz de pato.

Viu o que vai acontecer com a senhora se não colaborar? E então, D. Maria, a senhora vai ser boazinha, não vai?

Mmmmmmmmm mm mmm mmmmm!!!

A mordaça foi retirada com uma certa violência da boca da pobre senhora, que balbuciou com voz fraca:

Meu nome não é Maria, é...

Não me interessa o seu nome! – Olivier gritou sem aquele charmoso sotaque francês. A mordaça foi recolocada.

Nós temos tempo D. Maria. Temos toda a noite diante de nós. Como se diz por aí, quem tem pressa come cru e a noite é uma criança...

Parou de repente. Se não fosse a máscara seria possível jurar que tinha o olhar perdido no horizonte:

... e meu filho também é uma criança, a senhora está me ouvindo?

A mesa da cozinha foi golpeada violentamente com o batedor de ovos, deixando bem claro o estrago que poderia ser causado caso tivesse sido na cabeça da aterrorizada senhora.

Uma criança! E para uma criança de nove anos o pai e a mãe são sempre herois! HEROIS! Isso significa que eles são capazes de tudo! SEMPRE! Não há lugar para o fracasso de um pai ou de uma mãe na cabeça de uma criança, D. Maria. NÃO HÁ!

Olivier com a voz de pato andava agora de um lado para o outro, agitando freneticamente o fouet, batedor de ovos em bom francês.

E, além de ser responsável por ter dado a vida ao meu filho, eu sou Chef de Cuisine E TAMBÉM Chef Patissier, a senhora sabe o que é isso?

A pobre mulher amordaçada com o pano de moranguinhos e amarrada à cadeira com o fio elétrico do mixer fez um sinal negativo com a cabeça, os olhos ainda arregalados e marejados de lágrimas.

Como eu imaginei. Vous êtes nulle, nom de Dieu!

Agora ela começava a reconhecer o Olivier...

Eu passei meses estudando no Cordon Bleu de Paris, está me ouvindo? Meses! Fiz os cursos completos de Chef de Cuisine e também de Chef Patissier o que significa que eu garanto um jantar de l’apéritif au dessert, impeccable! Do início ao fim! Até curso de sommelier eu fiz. Faço casamentos que nem a morte separa entre minhas refeições e o vinho. Sei aguçar as papilas de qualquer ogro que me apareça pela frente. Do champagne ao caviar, da baguette ao fois gras, le chef, c’est moi! Voilà! O chefe sou eu!

O sinal da mulher, dessa vez, foi afirmativo, mas os olhos continuavam esbugalhados.

Então, é simplesmente IMPENSÁVEL que meu filho peça que eu prepare uma comida e que esse prato não seja simplesmente DIVINO, compris? DI-VI-NO!

Ele aproximava a cara do Olivier ameaçadoramente do rosto da frágil senhora e, se não fosse o lindo sorriso de dentes brancos que a máscara exibia, ela teria tido uma indigestão.

Mas isso aconteceu comigo, D. Maria. Comigo! Eu, que recebi três estrelas do Guia Michelin. Eu, a Gisele Bündchen das panelas. Eu, o Pelé das escumadeiras. Moi!

Com um soluço seco o bandido abandonou os braços ao lado do corpo, deixando cair os ombros, numa demonstração de total desilusão. A bondosa vovó lhe faria um cafuné na cabeça e lhe daria um beijinho na testa se não estivesse amarrada e amordaçada.

Olivier grasnava de novo. Mesmo com o timbre de pato, a desprotegida mulher sentia que aquela voz era melíflua, pegajosa como uma calda de caramelo, escorregadia como uma coxa de galinha untada em azeite extra virgem, traiçoeira como o ponto do creme inglês:

Portanto, D. Maria, acho bom a senhora colaborar. A senhora não vai querer que eu perca a paciência, vai? – ele continuou, a agitação crescendo novamente como um pão fermentando antes de ir ao forno – Consultei livros, vasculhei bibliotecas de confrarias, escrutinei a internet. Investiguei centenas de fóruns, percorri milhares de blogs, assisti à horas e horas gravadas do Mais Você! Testei uma por uma das receitas que encontrei, apliquei meticulosamente os conselhos que recebi e NADA FUNCIONOU! NADA!

A penalizada senhora balançava a cabeça de um lado para o outro, começando a simpatizar com aquele Olivier. Ele continuava a falar, a angústia transparecendo na sua voz de pato:

Meu filho está me pressionando, já estou no limite das desculpas que posso dar! O desespero tomou conta de mim e eu tive de apelar para essa atitude extrema: a senhora e todas as outras que se recusaram a colaborar! Então, D. Maria, abra esses ouvidos como se abre um mexilhão e responda de maneira precisa às perguntas que eu vou lhe fazer. De maneira PRECISA, compris? Isso significa que não vou aceitar medidas como um punhado ou a olho, entendeu?

A amordaçada senhora se afastava o quanto podia daquele Olivier que a ameaçava, fouet em punho, gostas de suor começando a brotar na testa que parecia agora uma taça de sorvete fora do congelador. E as ameaças continuavam:

A senhora faz tricô pelo que estou vendo... E também gosta de bingo! Ora veja... Pois se não houver colaboração da sua parte, saiba que clara de ovo é uma excelente cola, D. Maria, e eu vou deixá-la coberta da cabeça aos pés com essas cartelas de bingo coladinhas umas às outras, além de amarrá-la com essa lã como se faz com um frango, a senhora está me ouvindo?

A cabeça amordaçada fez um nervoso sinal afirmativo. Ela agora tremia como gelatina.

E nem queira saber o que vou fazer com essas agulhas de tricô, D. Maria! Nem queira saber! Mas comece, desde já, a pensar em frangos de padaria. Garanto que isso não vai ser legal, portanto, não me provoque!

O ambiente começou a ficar quente como forno pré-aquecido. Ele pegou uma caixa de ovos e disse:

Preste muita atenção: eu vou lhe fazer uma pergunta e, em seguida, vou retirar essa mordaça. E, então, a senhora vai me responder DE MANEIRA PRECISA, como combinamos, enquanto eu tomo notas nesse caderninho, d’accord?

A senhora não sabia patavina de francês, mas teve certeza de que não havia outra atitude possível a não ser concordar com o chef. Balançou a cabeça rapidamente, olhando para as agulhas de tricô sobre a mesa e não querendo nem imaginar o uso que aquela criatura podia fazer delas.

Muito bem. Hoje à tarde, quando meu filho chegar da escola, vai encontrar uma iguaria muito especial sobre a mesa. Vai comer tudo e jamais, eu disse JAMAIS, vai dizer novamente que aquilo que fazem as mães ou as empregadas dos coleguinhas dele é que é bom. A partir de hoje EU serei expert nesse acepipe! Sem qualquer concorrência!

Mmmmmmmm – a cabeça subiu e desceu algumas vezes.

Enquanto falava, Olivier quebrava os ovos e separava calmamente as claras em uma tigela colocada ao lado das cartelas de bingo, numa atitude explicitamente ameaçadora. Acabou de quebrá-los, agitou levemente as claras com o fouet num gesto preciso e, ao lado da pilha de cartelas e da tigela com claras, dispôs meticulosamente as agulhas de tricô.

Olivier curvou-se sobre si mesmo até ficar com os olhos furados da máscara na altura dos olhos aterrorizados da meiga senhora, pegou um bloco, uma caneta que ficou suspensa no ar e falou com falsa calma:

Então, D. Maria, me diga: como é que se faz bolinho de chuva? – e puxou o pano de moranguinhos, removendo a mordaça que sufocava a pobre mulher.

Ela tossiu algumas vezes, pensou um pouco e depois começou a gaguejar, aliviada com a simplicidade da pergunta:

Bem... eu pego uma tigela, coloco um tanto de leite e outro tanto de farinha, quebro dois ovos. DOIS! – olhou para Olivier e repetiu o número para deixar bem claro o quanto estava disposta a colaborar com a exigência de precisão do seu algoz – aí coloco umas colh... er... é... três! Três colheres de açúcar, uma pitada de fermento e... mmmmmmmmm!

A mordaça voltou a sufocar a apavorada senhora. Se ela pudesse ver os olhos por trás da máscara de Olivier pensaria imediatamente em escalopes sendo flambados no conhaque. O pato grasnou:

Um TANTO de leite e outro TANTO de farinha, D. Maria?!!! Uma PITADA de fermento, putain?! Em qual volume do Larousse a senhora já viu alguma receita que pedisse um tanto de alguma coisa, bordel de merde! Já vi que a senhora, como todas as outras, também não está querendo colaborar – disse, enquanto pegava as agulhas de tricô sobre a mesa da cozinha...

domingo, 7 de março de 2010

40 pensamentos em 40 anos de vida

Ano passado entrei para um grupinho do qual não sairei mais. E, se sair, vai ser num estado tão lastimável que é melhor nem desejar isso. Agora faço parte oficialmente do grupinho dos enta. Aqueles que têm quarenta, cinquenta, sessenta anos... Pra sair dele, só depois de apagar cem velinhas e acho que não terei fôlego pra tanto.

Fazer quarenta anos é pra ser um marco na vida, não? Algumas idades têm esse poder: quinze, dezoito, vinte e um e, a partir daí, as idades redondas como trinta, quarenta, e por aí vai. Eu confesso que estou gostando de ter essa idade redondinha, embora não esteja gostando muito do fato de estar redondinha, mas essa é uma outra história.

Acho que sou uma pessoa melhor aos quarenta do que aos trinta. E infinitamente melhor do que aos vinte. Claro que estou falando da cabeça, mais especificamente do conteúdo dessa cabeça, é evidente!

Há alguns meses recebi um desses emails que circulam por aí com uma lista de lições que uma mulher aprendeu da vida. O email dizia que ela tinha noventa anos, mas pesquisando na internet descobri que ela tem cinquenta, e que escreveu a lista pela primeira vez aos quarenta. Depois foi acrescentando novos itens na medida em que foi ficando mais velha, mas está ainda loooonge dos noventa! Isso me fez pensar que as pessoas imaginam que é necessário chegar ao fim da vida pra ganhar sabedoria. Boa notícia: dá pra ganhar antes! E melhor ainda, quanto mais o tempo passa, mas espertinhos vamos ficando, desde que estejamos dispostos a tomar uns remédios amargos por aí...

Pois bem. Achei interessante a ideia da Regina Brett e decidi criar minha própria listinha com quarenta coisas que aprendi nesses quarenta anos (muito bem) vividos. Não fui mais ler a lista dela para não me influenciar (tinha muita coisa legal ali). Simplesmente fui listando pra mim mesma o que considero que sejam lições aprendidas e internalizadas, gravadas a ferro e fogo sem chance de serem esquecidas. Divido aqui com vocês esses meus pensamentos soltos.

Só peço uma coisinha: se alguém decidir passar por email por aí vai me deixar imensamente feliz, mas por favor não mudem (ainda) minha idade pra noventa, tá? Prefiro chegar aos noventa depois de passar por mais cinquenta anos inteirinhos! :-)

Lá vai...

1. A coisa mais difícil de encontrar na vida é o equilíbrio.

2. Só o que é possível me faz sofrer. A partir do momento em que percebo que algo é impossível, deixo de sofrer por isso. Sofrer pelo impossível é inútil.

3. Eu alcancei quase tudo o que desejei. Mas isso só aconteceu quando deixei de pensar obsessivamente nesses desejos.

4. Sempre que desejei algo e não alcancei, depois percebi que não teria sido bom pra mim.

5. Amigos são circunstanciais. Família é pra vida toda.

6. Mas há amigos que também são pra vida toda, seja qual for a distância que estiverem de mim.

7. Não há como apressar a experiência de vida, assim como não se pode apressar a gestação de um ser.

8. Foi quando fiquei muito longe do meu país que mais aprendi sobre ele. A compreensão de muita coisa exige distanciamento.

9. Tentar resolver problemas que ainda não tinha muitas vezes só fez com que aparecessem problemas que passei realmente a ter.

10. Só os sobreviventes têm cicatrizes. Quem não tem cicatrizes, ou nunca lutou, ou já morreu.

11. Eu não estou livre de ter os mesmos sentimentos ruins que tanto critico nos outros. Aliás, muitas vezes acabei fazendo exatamente aquilo que critiquei no outro.

12. Os monstros dos quais tive mais medo sempre eram muito mais assustadores na imaginação do que na realidade.

13. Todas as pessoas têm sempre alguma coisa incrível pra contar sobre a vida delas.

14. A generosidade não é desinteressada.

15. Buscar a perfeição só me deixou mais imperfeita.

16. A maternidade não me tornou sobre-humana. Eu continuei a sentir cansaço, raiva e dor, mesmo em relação aos meus filhos.

17. Mas, me sentir humana sendo mãe, só me tornou mais livre e acho que fará com que eu sofra menos a solidão no futuro. Não cobrarei presença dos meus filhos porque saberei que eu mesma não dei de mim o que eles gostariam de ter tido.

18. Ter filhos é perder a chance de ser arrogante. Os filhos me mostraram o quanto sou falível.

19. Qualquer situação, por pior que seja, tem sempre um aspecto positivo a considerar. Basta procurar.

20. O bem mais precioso que possuo é meu tempo. Só que o tempo que tenho nunca vai ser suficiente pra eu fazer tudo o que tenho vontade.

21. O conhecimento inebria e propicia momentos de extrema felicidade. Mas quanto maior o conhecimento, mais raras são as ocasiões de sentir essa felicidade porque mais absurdo parece o mundo.

22. Saber que outras pessoas têm problemas maiores do que os meus não diminui a dor que sinto.

23. Entretanto, sempre que consigo rir das minhas próprias mazelas, tudo fica menos difícil.

24. Não importa o tamanho da bolsa ou da mala, sempre vou enchê-la.

25. O corpo tem limites. E é muito difícil conviver com eles.

26. Cada idade tem alguma coisa muito legal que só é possível de ser vivida plenamente naquela idade.

27. Criar e alimentar expectativas só estraga a vida.

28. Não dá pra manter a proximidade com todas as pessoas que eu gostaria da maneira como gostaria.

29. Trabalhar no que eu gosto garante muitas horas de diversão no dia.

30. Eu não preciso de tudo o que compro.

31. Mas de vez em quando é muito bom comprar coisas das quais não preciso!

32. A rigidez de crenças e comportamentos só fez com que eu me quebrasse mais rapidamente.

33. Meu pior inimigo, aquele que é mais cruel é o senso comum. Como contradizer o senso comum? Como lutar contra o que é invisível e que, mesmo assim, sufoca?

34. A melhor forma de gastar meu dinheiro é com cursos e viagens. Ninguém pode roubar de mim o que vivi e aprendi.

35. Os filhos não têm de participar das discussões dos pais.

36. A maioria daquelas mensagens filosóficas de autoajuda é verdadeira. Mas elas são quase todas muito chatas!

37. Assistir ou ler jornais me deixa infeliz. Então não assisto. O que for realmente importante vou ficar sabendo, no nível de detalhe em que preciso saber. Nem mais, nem menos.

38. Os momentos em que eu mais ganhei vida, foram aqueles em que perdi meu tempo com bobagens inúteis.

39. As pessoas que têm sorte são as que acreditam que ela existe.

40. A maior parte das coisas que aprendi foi vivida desde que nasci, mas só ficou realmente clara nos últimos anos.