terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Navegar é preciso. Desistir, também...

Vocês sabem, eu sou um plâncton. Isso significa que não brigo contra a corrente da vida. Deixo a onda me levar, como já tive a oportunidade de dizer. E sou orgulhosa da minha capacidade de adaptação de plâncton-camaleão. A corrente me leva pra lá e pra cá e eu sempre encontro alguma coisa muito legal pra fazer nas novas paragens.

Portanto, como tenho muitos interesses na vida, se tem um mal do qual nunca sofri e jamais sofrerei é tédio. Aprender qualquer coisa nova me interessa, desafios me interessam, oportunidades me interessan. E, em tudo que faço, vou ao fundo, quero descobrir como fazer melhor, quero fazer o meu melhor.

Isso é bom, não é?

Nem tanto.

Há alguns anos, conversando com minha amiga Sheila cujos dias têm 72 horas (foi a conclusão à qual cheguei para explicar como ela consegue dar conta de tudo o que faz), ouvi dela uma frase que me marcou: "É muito difícil dizer não para o que a gente gosta de fazer".

Esse ano eu senti na carne a verdade e a dureza dessa frase. Não só fui obrigada a dizer não pra uma série de oportunidades na vida, como fui também obrigada a conjugar repetidas vezes o verbo desistir, sempre na primeira pessoa do singular. E como desistir dói...

Por muito tempo, praticamente só disse não a mim mesma. Até que comecei a dizer sim, como contei por aqui o ano passado. Passei de um extremo a outro e saí dizendo sim pra tudo o que me dava prazer. Liberei um dique de desejos represados por tanto tempo. Vivi eufórica a permissão que eu mesma me dei pra fazer tudo de que eu gostasse. Aí descobri que tudo é palavra inimiga de outra, muito importante, chamada equilíbrio. Foi então que os verbos optar, decidir e desistir se impuseram a mim.

Os últimos meses foram repletos de desistências da minha parte. Desisti de tocar adiante os projetos de patchwork que tinha com minhas amigas e cúmplices Giuse e Denise. Desisti de fazer o exame de seleção para o doutorado cujos preparativos eu vinha fazendo há dois anos. Desisti de participar de ativamente de algumas comunidades virtuais onde encontrei amigas-irmãs. Desisti de acompanhar blogs de amigos de perto e de longe. Desisti de manter, mesmo que minimamente, minha personalidade virtual de Orkut, Flickr, Twitter, Facebook e afins, personalidade esta que está em total crise psico-cibernética. Por fim, desisti de atualizar este blog.

Essas foram as grandes desistências, aquelas que aconteceram somente nos últimos dois meses. Houve centenas, milhares de outras desistências. Algumas maiores, das quais não quero falar em público, e outras menores, pelas quais o público não teria interesse algum.

A cada uma delas senti dor, experimentei uma desconfortável sensação de fracasso.

Concluí que fui à falência. Quebrei. Fui à bancarrota. Não posso pagar o preço pelos meus desejos, porque eles me exigem tempo, e tempo é artigo de altíssimo luxo. É o bem mais precioso que tenho, ou melhor, que não tenho.

Pode parecer que o momento é de total abatimento e melancolia. Em parte, até é mesmo. Mas, depois da sensação bastante incômoda de falha, de limitação, vem, às vezes, alguma realização e uma certa serenidade. Vem a concretização de algumas poucas coisas às quais me dedico agora e a certeza de conseguir chegar ao fim delas.

Pode parecer estranho, mas ter muitas habilidades é tão paralisante quanto não ter habilidade alguma. A imagem que formei pra mim mesma é a de uma pessoa cheia de sorte que ganhou da vida uma porção de aneis maravilhosos, joias lindíssimas. Um monte de aneis para somente um ou dois dedos. Simplesmente não dá pra usar todos os aneis ao mesmo tempo, então, por mais maravilhosos que eles sejam, ficarão guardados em caixinhas, esperando pelo dia em que poderão receber a atenção que merecem. Aí, sai o anel de diamantes e entra o de rubis. Os dois juntos não podem ser usados.

Portanto, desisti de muitas coisas, entre elas, de escrever.

Não é uma desistência definitiva. Pouquíssimas coisas nessa vida são definitivas. Só desisti da tentativa de escrever tanto quanto gostaria, com a frequência que desejaria. Manterei meus textos, só que poderão ser, talvez, bissextos. Ou não. O que deixei pra trás foi somente a imposição de regularidade que eu mesma me fazia.

Largo completamente as últimas cordinhas com as quais eu tentava manipular, ainda que debilmente, meu destino, para me encontrar plâncton de vez. E, continuando na linha dessa minha filosofia de vida, apresento mais uma música, trilha sonora dos plânctons pelo mundo. A primeira é aquela óbvia, do Zeca Pagodinho, que diz Deixa a vida me levar... A segunda vem na voz de Lulu Santos:

Tudo azul
Todo mundo nu
No Brasil
Sol de norte a sul
Tudo bem
Tudo zen
Meu bem
Tudo sem
Força e direção
Nós somos muitos
Não somos fracos
Somos sozinhos nesta multidão
Nós somos só um coração
Sangrando pelo sonho
De viver
Tenho arregimentado novos plânctons por aí pra me fazer companhia e já somos muitos! E tem mais: plânctons de ontem e de hoje, de todos os credos e artes, descobri que há outros que já cantavam o estilo plâncton de ser há muito tempo. Encontrei até mesmo um poeta porta-voz, chamado Carlos Pena Filho, que escreveu o seguinte poema, cujo título é A solidão e sua porta:

Quando mais nada resistir que valha
A pena de viver e a dor de amar
E quando nada mais interessar
(Nem o torpor do sono que se espalha)

Quando pelo desuso da navalha
A barba livremente caminhar
E até Deus em silêncio se afastar
Deixando-te sozinho na batalha

A arquitetar na sombra a despedida
Deste mundo que te foi contraditório
Lembra-te que afinal te resta a vida

Com tudo que é insolvente e provisório
E de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório
Esse aí foi um plâncton meio tristinho, tenho de reconhecer. Mas esse poema é simplesmente maravilhoso!

Nesse momento, desisto mais uma vez. Desisto de lutar contra o sono que fecha meus olhos. Que eu tenha uma boa noite e que meus sonhos me levem a mares nunca dantes navegados.

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Hiromi, minha amiga, esse post foi pra você. Bem grandão! :-)

sábado, 10 de outubro de 2009

Cabelos soltos são mais seguros

Acabei de receber um email daqueles que tem todo o jeito de notícia falsa que circula na internet, os mundialmente conhecidos, embora poucos saibam o nome técnico com que foram batizados, hoaxes.

Pasme, meu caro bleitor, segundo a mensagem, a China estaria fabricando elásticos de cabelo a partir de camisinhas usadas!
A amiga que me mandou o email já adiantava que a notícia tinha sido verificada, incluindo, para não deixar dúvidas, o link que comprova tudo. Eu, como boa descendente de São Tomé, fui atrás fazer minhas próprias pesquisas e descobri que é verdade mesmo! Quer dizer, parcialmente verdade...

É verdade que foram descobertos elásticos de cabelo feitos a partir de preservativos na China. O que não se tem certeza é se eram camisinhas efetivamente usadas ou se eram refugo industrial. É uma notícia velhinha, de 2007. Uma eternidade para os tempos em que vivemos...

Aquele Eugène Ionesco e seu grupinho achavam que tinham inventado grande coisa com o tal teatro do absurdo. Mal sabiam eles que o mundo real em que vivemos é infinitamente mais absurdo! O que é uma epidemia que transforma em rinocerontes os seres humanos de uma cidade diante de singelos elásticos para prender cabelos feitos de material originalmente criado para prender coisa bem diferente?

É tão absurdo que não vou nem comentar! Mas me diverti um monte pensando em coisas tão ou mais absurdas a partir desse simples fato do nosso amado mundo (ir)real. Vamos a elas...

Será que não foi uma revolta das próprias camisinhas que não queriam mais essa vida de simples objeto descartável, com trabalho forçado em ambiente escuro, úmido e, muitas vezes, insalubre? Elas se rebelaram! Queriam o direito a respirar ar puro, ver o mundo, viajar pelas cabeças femininas. Já que estamos falando de absurdo, nada é impossível, não? Tudo bem, tudo bem. É absurdo, mas nem tanto. Vamos botar os pés no chão e voltar à notícia.

Não se sabe se eram preservativos usados ou não. Vamos admitir que eram usados (blargh!).

Em primeiro lugar, fico realmente tranquila em saber que os chineses estão usando preservativos e diminuindo, assim, a quantidade de novos chineses sobre a face da terra. Que alívio! Eles tem essa imensa vantagem numérica sobre nós. Se não pararem de se reproduzir como coelhos não vai ter lugar pra todo mundo por aqui. E como ninguém mais vai querer prender o cabelo com medo de estar usando material que já frequentou outros pelos, vai acabar voando cabelo na cara da gente, o que será super desagradável. Então, que eles continuem usando camisinha!

Mas, se eram elásticos feitos a partir de preservativos usados, então, esses preservativos tinham de ser coletados de alguma forma. E eu me pergunto: como?! Como juntar tantos preservativos com jeitão de fim de festa? Todo mundo sabe que uma indústria chinesa não fabrica menos de um contêiner de um determinado produto. Pra fabricar um contêiner de elásticos de cabelo, seria necessário um contêiner de preservativos usados. O povo anda animadinho lá na China!

Continuo perplexa, tentando imaginar como essa coleta poderia ser feita. Será que tem um pessoal de triagem que fica separando as camisinhas no lixo? Catadores de camisinha nos lixões? Ou será que os chineses são educadinhos e tem cestinhos de lixo especiais para preservativos nas ruas... Vamos ficar com essa possibilidade.

Se existem cestinhos especiais para receber as camisas de Vênus depois da farra, de que cor eles seriam? Qualquer ser humano antenado e preocupado com o meio ambiente sabe que agora os cestos de lixo tem cores específicas: azul pra papel, vermelho pra plástico, verde pra vidro... Já foram usadas quase todas as cores básicas: amarelo, preto, branco, cinza, marrom, laranja e até mesmo o roxo que é pra material radioativo. Pras camisinhas sobrariam cores como salmão, fúcsia, cáqui, magenta, turquesa ou cirilo e isso geraria um problema imenso. Como é de conhecimento geral, camisinhas são usadas por homens. Portanto são eles que, a princípio, deveriam descartá-las. E é igualmente do conhecimento geral que os olhos masculinos são incapazes de diferenciar cores como bege ou terracota. Uma vez que todas as possibilidades que existem naquela caixinha de lápis de cor da pré-escola já foram usadas para outros fins na coleta seletiva, o que sobrou foi o transparente, logo, os cestos de lixo para coleta seletiva de camisinhas deveriam ser simplesmente transparentes, o que geraria um constrangimento sem fim!

Os pobres chinesinhos, ao se desfazerem de seus preservativos usados, acabariam por comparar o exemplar que estavam descartando com os outros já presentes no cesto em termos volume de preenchimento, tamanho final, taxa de laceamento, etc. etc. etc. Isso acabaria em depressão e, consequentemente, num imenso gasto de saúde pública em psicólogos e antidepressivos. Não! Definitivamente não deve haver coleta seletiva para preservativos usados na China. Acho que as mulheres chinesas de longas madeixas podem voltar a prender tranquilamente suas melenas: com certeza absoluta não foram preservativos usados que acabaram virando as alegres chuquinhas! Ufa!

O grande problema dos preservativos usados é que algumas mulheres colocam o elástico na boca antes de prender os cabelos e isso poderia ser fonte de contaminação com o vírus da AIDS ou outras doenças sexualmente transmissíveis. De qualquer forma, colocar o elástico na boca já é um ato meio nojento. Pelo menos, encontrar um cabelo na comida é nojento, não é?

Esse post já está ficando escatológico demais. Vamos passar rapidamente à outra possibilidade: os elásticos eram feitos a partir de refugo industrial. Alguma fábrica de camisinhas destinou os itens que não passaram pelo controle de qualidade para outros fins. De novo, algumas considerações a fazer.

Como será o controle de qualidade de uma fábrica dessas? Imagino uma longa esteira, pela qual passeiam os preservativos penduradinhos como se fosse um varal de roupas e, enquanto dão esse rolé, vários robôs testam os diversos quesitos que garantem a eficiência do produto. Um deles enche a camisinha de água pra ver se tem furinho, outro a preenche com um cilindro metálico e esfrega em tubos revestidos de espuma que imita os mais diversos músculos humanos pra ver se não rasga, um terceiro robô testa cilindros de várias espessuras e comprimentos pra determinar que tamanho vai colocar na etiqueta da embalagem... Agora fiquei com vontade de conhecer uma fábrica de camisinhas! Deve ser um cenário perfeito para uma peça do Ionesco, não? Claro que nem estou considerando a hipótese de esse teste de qualidade ser feito por mãos (ou outras partes do corpo) humanas! Seria absurdo demais! Nem Samuel Beckett teria uma ideia dessas!

Ficarei sem resposta a essa questão, infelizmente. Só considerarei o fato de que camisinhas foram refugadas e enviadas para uma outra fábrica (talvez até do mesmo dono, uma mente brilhante do mundo dos negócios) para serem transformadas em inocentes elásticos de cabelo. Independente da maneira como chegaram até lá, se era refugo e se ia parar no lixo, então qual é o problema? Não se fala tanto em reciclagem, em reaproveitamento? Esses materiais sintéticos tipo borracha, silicone, plástico são os grandes vilões da poluição, não? Então por que condenar os chineses quando eles resolvem ter uma atitude civilizada da mais pura cidadania mundial fazendo reciclagem? Ora, veja você! Ninguém está contente mesmo!

Bem, é papo abóbora demais para um sábado à noite, meio de feriado, às vésperas do horário de verão, quando eu deveria estar tomando sorvete à beira-mar, mas estou de pijama de soft e meia de lã, tomando chá pra esquentar e pensando seriamente em ligar um aquecedor. Isso sim é que é absurdo! Por via das dúvidas, estou de cabelos soltos. Você sabe, esquenta o pescoço! ;-)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Resolvido. Por hoje...

O marido atende ao telefone. Do outro lado a mulher, em prantos:

- Não suporto mais! Esses meninos brigam sem parar, correm, caem, se machucam. Eu não sou a mãe deles, sou só a avó e não tenho mais saúde para isso! Não dou conta dessa situação sozinha!

Ele desliga e corre para casa. Ao entrar, vê os netos que dormem tranquilamente no sofá da sala. Ouve o barulho do secador de cabelos da mulher no banheiro.

Eram dezenove horas de uma quarta-feira. Dia do futebol com os amigos...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O feminino, em essência

- Mamãe, quando é que eu vou crescer?

- Logo.

- Logo quando?

- O tempo vai passar e você vai crescer.

- Mas, quando?!

- Logo, logo! Pode ficar tranquila!

- Tá demorando muito!!!

- Por que você quer crescer tão rápido?

- Pra ter peitão e usar salto alto...

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PS.: uma L.E.R. impertinente está me deixando meio afastada dos teclados...

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Casal moderno

Cansada dos anos de papai-mamãe, resolveu que teria uma noite selvagem! Foi encontrada pela manhã. Eletrocutada pelo parceiro, o vibrador.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Roubaram a cordinha do mundo!

Era pra ser um email... Mas estava ficando imenso e é um assunto que gostaria de discutir com um monte de gente, sem esquecer o fato de que além de escrever a mensagem eu precisava também escrever um post aqui no blog (há tempos sem atualização), então decidi fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Como diz aquele antigo ditado política e ecologicamente incorreto, quis matar dois coelhos com uma cajadada só. E que ninguém do Greenpeace apareça por aqui!

Agora vivo dessa forma: costuro enquanto vejo televisão, preparo aulas usando assuntos e textos que me interessam, assim posso me divertir, me informar e trabalhar ao mesmo tempo, cozinho o que faz bem à saúde, ouço música enquanto trabalho, penso, logo existo, como disse Descartes. Mas só consigo pensar enquanto faço uma outra coisa... Ou duas. Ou três! Isso significa que não existo enquanto não faço nada?!

Não sei mesmo o que acho dessa vida que estamos todos levando... A mensagem que comecei a escrever era pra tentar acalmar as angústias de uma pessoa que pensa que não sabe mais algo que sabia, que não consegue fazer entrar mais conteúdos na cabeça e, ao pensar nela, acabei pensando em mim e numa série de outras ideias relacionadas. Como num hipertexto, um pensamento puxou outro, que puxou outro, que puxou outro e... é EXATAMENTE AÍ que está o problema!

Vivemos num turbilhão! Tudo gira à velocidade da luz ao nosso redor, tudo acontece ao mesmo tempo em todos os lugares e, embora novas e maravilhosas tecnologias tenham sido inventadas, ainda não acharam um jeito de um corpo ocupar mais de um lugar no espaço ao mesmo tempo. Quer dizer, agora tem aquela coisa da imagem holográfica, mas, mesmo assim, é só uma projeção de uma mesma pessoa em vários lugares. Uma projeção que fará a mesma coisa em todos os lugares. Ainda não existe a holografia que permite que eu dê aula na universidade, assista a uma palestra na Bienal, converse com os amigos num bar, passe tempo brincando com meus filhos em casa e ainda esteja dormindo pra descansar dessa maratona enquanto preparo a próxima... Não dá!

Só que me dilacero em mil pedaços pra tentar fazer tudo isso e fico orgulhosa de mim mesma porque consigo, literalmente, em partes. Mas aí encontro pessoas e vejo que elas fizeram outras coisas tão ou mais interessantes ou obrigatórias, coisas essas que eu mesma não consegui. E fico achando que sou incompetente, que não dou conta, que sou preguiçosa, que fico me enrolando em casa respondendo emails enquanto escuto música francesa pra ver se tem alguma novidade que possa ser utilizada em aula e, de quebra, me divirto um pouquinho já que gosto mesmo de música francesa e não dá muito tempo pra diversão. Mas, puxa vida, isso me fez deixar de ver o vídeo da Vanusa assassinando o Hino Nacional, além de não ler a notinha dizendo que o Collor é o mais novo "imortal" da Academia Alagoana de Letras e me impossibilitou completamente de participar do jogo Mafia Wars no Facebook, substituto do Orkut que, diga-se de passagem, está às moscas cibernéticas com centenas de recados sem responder além de fóruns de comunidades abandonados. E também não dá pra esquecer que não consegui fazer exercícios físicos, na verdade, bicicleta ergométrica sobre a qual pedalo enquanto devoro os romances que morro de vontade de ler mas que, como não são úteis para o trabalho ou para a prova de seleção para o doutorado que farei no fim do ano e nunca conseguem alcançar o primeiro lugar da fila para que eu possa saboreá-los, ficam juntando poeira na minha estante. Estante essa que está desorganizada, acumulando, além de poeira, os outros livros sobre os assuntos que me interessam ardentemente, os quais compro na esperança de um dia, quem sabe, poder pelo menos folhea-los. Compro os livros e, porque sempre estou atrasada para alguma coisa, os jogo de maneira apressada sobre essa estante que está esperando o dia em que conseguirei colocá-la em ordem. Nesse dia me lembrarei, mais uma vez, das tantas coisas que eu gostaria de aprender, estudar, construir, fazer, sem ter a mínima chance de sequer começar. E como é possível que tenha pessoas ao meu lado que conseguem ser melhores do que eu?!!!

É simples: não conseguem! O que acontece é que vejo o que elas executam, mas não tenho ideia do que elas gostariam de fazer, entretanto, não fazem. Só vejo as realizações e elas são muitas. Mas estou certa de que eu e todas essas pessoas mergulhamos constantemente a cabeça nas águas profundas da tristeza e da melancolia para observarmos de longe a imensidão do iceberg de desejos submerso sob um mar de falta de tempo. Com isso, não nos damos conta da pontinha desse iceberg de realizações que fica à luz do dia, para deleite, não nosso, mas dos demais, tão ocupados estamos em nos culpar e nos martirizar pelo que NÃO fizemos, pelo que NÃO conseguimos atingir ou realizar...

Escuto constantemente a seguinte frase: eu não sei onde você acha tempo pra fazer tudo o que faz! Sempre que escuto isso eu penso: Tudo o que? Eu não faço nem um terço do que deveria, isso sem contar que não faço nem um décimo do que gostaria! Estou constantemente em atraso e em dívida com os outros, comigo mesma, com minhas obrigações e, principalmente, com minhas vontades. E ainda tenho de conviver com pessoas que conseguem fazer as tais coisas que eu gostaria ou deveria! Que afronta!

Será que sou só eu que tenho vontade de urrar histericamente: PAREM ESSE MUNDO QUE EU QUERO DESCER!!!!!!?

O que eu acho é que a gente tinha de mudar o ponto de vista. Não somos nós que não estamos fazendo todas as coisas que deveríamos ou gostaríamos. São as coisas que, por conta dos respingos líquidos de nossas lágrimas, estão se multiplicando como Gremlins que ficam ali no calabouço escuro da nossa culpa, pulando diante de nós e dizendo: Eu primeiro! Eu primeiro! Eu primeiro! E a gente olha abobado de um Gremlin pra outro sem saber por onde começar, dando conta de um, mas percebendo que surgiram três outros logo ao lado... Esses são os do mal. Os bichinhos do bem, os fofinhos e bonitinhos que não comeram depois da meia-noite, portanto, não arruinaram a dieta, aqueles que representam nossas vontades, nossa diversão e nosso prazer, esses ficam se multiplicando loucamente à distância, cada vez mais à distância, sem que a gente tenha a menor chance de chegar até eles porque temos um mar de Gremlins carrancudos, com os dentes à mostra e com etiquetas nas testas que dizem: Trabalho, Saúde, Manter-se informado, Estar em dia com as notícias econômicas, políticas, culturais e sociais, Atualizar o currículo, Fazer uma pós, Fazer uma certificação profissional, Aprender o quarto idioma, Limpar a caixa postal de emails, Fazer caridade, Cuidar dos filhos, Cuidar do corpo, Estar na moda, Ler Crepúsculo, Seguir o Twitter, Entrar no Facebook...

Vivemos uma época cruel em que a diversão, os prazeres e a liberdade estão todos expostos sobre uma linda mesa, decorados e apetitosos, iluminados por raios laser, cercados de sereias que cantam: Venha, tudo é possível, tudo está à sua disposição! Você pode tudo! O mundo é seu! As oportunidades estão aqui, sobre essa mesa, tudo é tão fácil. Você só não aproveita se não quiser... Só que estamos a centímetros de alcançar a tal mesa, as mãos e a cabeça livres, mas os pés presos às imensas bolas de ferro das nossas obrigações. As reais e aquelas que nos impomos por pressão nossa e do resto do mundo. Se todo mundo faz, então nós também temos de fazer, saber, ler, compreender, participar... Trabalhamos e corremos feito loucos uma vida inteira para nos livrarmos dessas bolas, pensando que quando chegarmos à aposentadoria poderemos, enfim, atingir a tal mesa para nos fartar e fazer o que quisermos do nosso tempo. Mas estou perdendo as esperanças... Quando observo meus pais, meus tios e outras pessoas aposentadas ao meu redor e vejo o quanto elas correm de um lado para o outro, sem chance de dar atenção a todas as suas obrigações nem de atender a pelo menos parte dos seus desejos...

E assim seguimos todos jogados de um lado para o outro, arrastados pelos pés, chicoteados no meio do turbilhão...

Se eu sei o que fazer pra sair dessa? É evidente que não tenho a menor ideia! Se soubesse o que fazer escreveria um livro pra dar essa receita ao resto do mundo. Provavelmente, passaria o resto dos meus dias dando palestras por aí, entrando e saindo de aviões, acordando cada dia numa cama de hotel diferente, sem o menor tempo de simplesmente... viver!

Olha, mesmo se eu descobrir como fazer pra fugir dessa armadilha, não volto aqui pra contar. Embora eu suspeite que escapar é impossível! O Belchior tentou e não é que foram encontrar o coitado escondido numa aldeia de dois mil e poucos habitantes? Não tem saída! Até mesmo eu, uma eterna, renitente e inconformada otimista, estou tendo de admitir que não há nada mais sábio do que outro ditado popular repetido pela antiga ministra: esse estupro é mesmo inevitável, o negócio é relaxar e gozar. Completando a série de lugares-comuns, vou mandar tudo o mais para o inferno (como cantou, mas agora renega, Roberto Carlos), dizimar meus Gremlins expondo-os à luz do sol e me abraçar a meus queridos filósofos hedonistas que diziam que a vida é pra ser vivida com prazer! Todo o resto é que não tem importância.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Dom Casmurro em três microversões

Tiago F. Moralles, do blog Penates, lançou essa semana uma iniciativa genial: como seriam contados os clássicos da literatura em microversões? Intrigada por essa estimulante possibilidade, aticei meus neurônios para recontar algum clássico cujo enredo e estilo eu já conhecesse, uma vez que não teria tempo de reler nenhum nesta semana.

Imaginei três microversões para o romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, meu ídolo desde a juventude. Como eu disse, procurei um livro cujo enredo eu conhecesse o suficiente para poder ser recontado de memória. Penso mesmo que recontar uma história qualquer depois de ter lido há um certo tempo é até melhor. Concentra somente no essencial.

Já expliquei por aqui que concisão não é o meu forte. Disse também que indecisão é quase meu sobrenome e ter de escolher um enfoque para deixar outro de lado é praticamente uma tortura. Então escrevi três versões, cada uma colocando em relevo um aspecto do romance que foi marcante para mim nas várias leituras que fiz no todo ou em parte, e também na recente adaptação para televisão à qual assisti.

A primeira é aquela que evidencia a dúvida e que relembra uma das características marcantes de Capitu:
Pasme, leitor: cismou que a ressaca daquele olhar teria arrastado também o amigo. Acabou por naufragar solitário. Roído por ciúme e dúvida.
A segunda, sugere que Bentinho e Capitu tinham tudo para serem felizes, mas a dúvida que ele não quis esclarecer foi o que, na realidade, causou o drama.
Seria feliz junto ao amor de infância, mas acreditou ver o amigo mover-se no corpo do filho. Acabou por morrer só. Consumido pela dúvida.
A terceira é mais uma pergunta retórica do que especialmente a história recontada. Uma invencionisse da minha parte. É que tenho minhas dúvidas se Bentinho sofria pela traição presumida de Capitu ou porque isso teria acontecido com seu melhor amigo. Tenho cá com meus botões que se ele suspeitasse de um outro homem qualquer, talvez o drama não tivesse ocorrido.
Pondere comigo, dileto leitor: teria ele igualmente sofrido e feito sofrer se a suspeita não recaísse sobre o amigo de infância? Mistério...
Em outras (e vulgares) palavras: será que a dor de corno é maior dependendo da identidade do safado que meteu um chapéu de vaca na cabeça do vivente? Só Machado mesmo pra explicar essa...