sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Apertem os cintos, porque o piloto...

Preciso comentar uma notícia que li esta semana. É a seguinte: sindicalistas do maior sindicato de pilotos de avião São Paulo protestaram publicamente queimando manuais de procedimentos em praça pública. Eles alegam que os tais manuais cerceiam a liberdade de atuação e a autonomia de cada piloto que, dentro da sua aeronave, quer ter a liberdade de conduzir seu trabalho da maneira que acredita ser a mais adequada.

Tais pilotos passaram por um curso superior de formação de pilotos, obviamente. Nesse curso eles tomaram contato com diversas teorias sobre a aviação, discutiram inúmeras abordagens sobre psicologia aplicada aos passageiros, além de terem estudado profundamente a história da aviação e a organização geral das empresas aéreas. Claro que tiveram disciplinas práticas, nas quais era esperado que recebessem instruções precisas e objetivas sobre como pilotar um avião, mas, com algumas exceções, mesmo nessas disciplinas os professores acharam mais interessante e proveitoso para os futuros pilotos discutir outras tantas teorias, principalmente as marxistas, porque todo mundo sabe que a burguesia e as elites tentam desde sempre dominar o povo oprimido e cabe aos pilotos fazer passar essa mensagem a seus passageiros, provocando com isso a tão desejada transformação do mundo.

Vocês não estavam sabendo disso? Não tinham visto essa notícia? Na verdade, eu também não tinha. Ela não foi destaque nacional e eu só acabei sabendo por puro acaso quando folheava uma revista de abril passado numa das intermináveis esperas em consultórios a que tenho sido submetida. Estou atrasada para comentar o fato, reconheço. Só que ele é tão relevante que não podia deixar passar.

Apesar de a revista ser do mês de abril, não era do dia primeiro, mas não resisti! Antes que meu singelo texto provoque novo caos aéreo (olha a pretensão!) vou confessar: é brincadeirinha!!! Os pilotos de avião jamais fizeram um protesto estapafúrdio desses, onde já se viu? Continuem sossegados. Todos podem entrar nos aviões tranqüilos de que os pilotos sabem exatamente como fazer para conduzir os aparelhos, conhecem perfeitamente o local de onde partem, têm certeza absoluta do destino aonde devem chegar e que os procedimentos a serem adotados no percurso estão claríssimos para todos. Inclusive, se um piloto tiver um mal súbito (o que pode acontecer com qualquer humano), outro piloto assumirá o comando e tudo estará lá: todos os procedimentos, as metas, etc. Antes de entrarem em uma cabine eles estudaram anos a fio e o fato de terem manuais de procedimentos não diminui em nada a capacidade intelectual deles, nem os impede de serem criativos para tomar decisões em momentos de crise nem, de maneira nenhuma, tira a autonomia desses profissionais. E, obviamente, mesmo que uma pessoa passe vinte anos ou mais da sua vida andando de avião todos os dias, ela não se sente capaz de pilotar um avião, nem mesmo um teco-teco, não é mesmo?

Respirem aliviados, meus caros bleitores, esse absurdo completo não acontece no cenário da nossa aviação. Ufa!

Mas ele acontece, exatamente assim, no cenário da nossa educação. A notícia que li realmente foi divulgada, mas não eram pilotos de avião os que protestavam queimando manuais de procedimentos, mas sim, professores do sindicato dos professores de São Paulo. Os argumentos do protesto eram exatamente os que descrevi no início: manuais de procedimentos para professores são absurdos, tiram a autonomia do professor, etc., etc., etc. Muitos podem estar pensando: Olha essa exagerada de novo! Um piloto de avião tem vidas nas mãos. O despreparo ou a falta de procedimentos claros pode causar uma catástrofe, matar pessoas, não tem comparação uma situação com a outra. Antes que aqueles que me acham exagerada me convençam de que estou realmente precisando de um ansiolítico, uma camisa-de-força ou ambos, farei algumas considerações e comparações que julgo interessantes. Depois, podem me mandar para o Pinel.

Um professor despreparado não corre o risco de eliminar vidas diretamente como os pilotos. Mas quem é que ensina os pilotos a pilotarem? Vamos um pouco mais adiante. Quem é que ensina os médicos a operarem, os engenheiros a projetarem, os advogados, futuros juízes, a julgarem? Quem é que forma as pessoas que, no futuro, serão vereadores, deputados, prefeitos, governadores e por aí vai? Surpresa! O professor! Portanto, o estrago de um professor despreparado não é imediato, mas existe e é tão silencioso e distante do fato gerador em si, que não há como imputar aos professores a culpa pelo despreparo de milhões de pessoas. E se formos retrocedendo na vida escolar, vamos ver que essa é uma culpa partilhada, pulverizada em anos e anos de sala de aula. A maior parte da nossa infância, adolescência e início de juventude passamos sob os cuidados desses profissionais que fazem o melhor que podem com os recursos que têm ou que, na maioria das vezes, não têm. Todos sabemos que temos uma escola cheia de deficiências e problemas, mas se hoje as coisas estão infinitamente melhores do que há alguns anos, não dá pra ignorar que temos ainda um caminho igualmente infinito pela frente!

Agora que já não ouço mais os protestos de quem me acha exagerada, começo a escutar os balbucios de quem diz: E quem é ela para sair criticando de maneira tão mal-humorada essa classe sofrida que trabalha demais e ganha de menos? Peço que esperem mais um minuto antes de atirarem pedras nessa Madalena aqui, que de arrependida não tem muito.

Sou professora. Há quinze anos. Comecei no ensino superior e, tirando a faixa etária que vai da primeira à sétima série do ensino fundamental, o resto já andou pelos meus livros de chamada. Da pré-escola, passando por alunos de oitava série, ensino médio, ensino superior, até a pós-graduação, mas também alunos de preparatório para concursos públicos, treinamento empresarial, treinamento profissionalizante, curso presencial ou à distância e, até mesmo, curso de artesanato, já tive todo tipo de aluno nas minhas de salas de aula.

Faço aqui um mea culpa e confesso que quando comecei nessa carreira não tinha tido formação alguma! Mas pertenço a uma família que é uma verdadeira dinastia de professoras e, além disso, dos meus vinte e quatro anos na época em que comecei, tinha passado pelo menos vinte e dois deles dentro de uma sala de aula, portanto, acreditava que sabia o que fazer! Se de médico e louco todo mundo tem um pouco, de professor, muitos acreditam que têm tudo. Mais ou menos como o viajante que, de tanto viajar e observar o piloto, pensa que pode pilotar o avião. Vocês acham que vai ser uma sorte danada se esse avião chegar inteiro ao destino? Pois é! Meus aviões, em melhor ou pior estado, chegaram ao destino. Mas o que aconteceu depois? Estremeço só de pensar que um dos meus alunos pode ter feito parte da equipe que desenvolveu algum sistema de controle de tráfego aéreo por aí e que, em parte por despreparo meu e de outros professores que teve na vida, acabou construindo um programa de computador que venha a falhar.

Por acreditar que precisava de formação para continuar a ser professora, fui estudar Educação. Fiz uma especialização em Didática, depois um mestrado no qual foram discutidas questões de ensino e aprendizagem, fiz um curso de formação de professores com duração de seis meses e agora estou terminando um curso de Licenciatura, ou seja, um curso que coloca, definitivamente, um carimbo na minha testa e no meu currículo: professora. Não sou uma sumidade no assunto, mas considero que vivi razoavelmente por dentro e por fora essa questão da educação para me achar no direito de, muito prepotentemente, dar minha opinião.

Como seres humanos, vivemos uma eterna caça às bruxas, procurando sempre os culpados pelo que acontece. Sou humana, portanto, aproveitando que hoje é 31 de outubro, dias das bruxas, vou colocar meus gravetinhos em algumas fogueiras.

Tem o culpado óbvio, ululante e evidente, o que sempre foi reconhecido como carrasco do ensino de qualidade, ou seja, o governo e seus investimentos pífios, salários irrisórios, infra-estrutura medíocre, e blá blá bla. Isso tudo é verdade e já foi discutido por quem tem muito mais autoridade no assunto do que eu. Vamos passar rapidamente ao próximo algoz da educação: o próprio professor! Como? Sim, infelizmente...

Sou paranaense e há alguns anos sei de uma iniciativa do governo do estado com o objetivo de propiciar formação aos professores. Ela acontece de diversas formas, seja como incentivo salarial para quem faz pós-graduação, seja na promoção de semanas de formação num local chamado Faxinal do Céu. Nunca fui à Faxinal, não sou professora do estado, mas vou contar o que já vi e ouvi por aí. Preparem-se para fortes emoções!

Tem professor que paga para que outras pessoas façam a monografia de conclusão de seus cursos de pós-graduação. Aliás, não paga somente a elaboração da monografia, mas também a dos outros trabalhos que deveria fazer durante o curso. Tem professor que se recusa terminantemente a ir para Faxinal participar dessas formações. Tem professor que vai, mas boicota. Fica no quarto dormindo, foge das atividades, ou até comparece, mas fica batendo papo. E ontem, conversando sobre esse assunto com uma amiga cuja mãe é professora da rede municipal de ensino, soube de algo que me deixou estarrecida. No intuito de promover inclusão social, alunos com alguns tipos de deficiência, como a auditiva por exemplo, não são mais enviados para escolas especiais, mas freqüentam escolas regulares. Portanto, os professores devem participar de um curso de formação em Libras, a língua dos deficientes auditivos. O instrutor de um desses cursos na cidade de Curitiba é deficiente auditivo e, embora fale, tem uma pronúncia diferente daquela de uma pessoa considerada normal. Lembro que aqueles que estão sentadinhos nos bancos são todos professores, mas o que alguns deles fazem é ridicularizar a forma de falar do instrutor ou insultá-lo quando ele está de costas e não está ouvindo o que seus diletos alunos dizem! Eu não sei nem que sentimento me invade quando ouço histórias como essas! Dentre os muitos grupos de alunos que tive nessa vida, houve alguns formados só de professores e também de futuros professores (alunas de um curso de Pedagogia). Posso afirmar que, especialmente esse grupo de alunas de Pedagogia, está nos primeiros lugares na minha lista particular dos piores grupos de alunos que já tive na vida!

Não! Não são todos assim, graças aos céus de Faxinal e do resto do universo. Novamente, vamos respirar aliviados. Mas se eu, que não tenho nada a ver com tudo isso, não estou dentro do ensino público, nem do município nem do estado, sei dessas aberrações, quantas mais não acontecem por aí? Tremo, agora mais fortemente, só de imaginar!

Portanto, mesmo quando o governo faz alguma coisa, ainda que não seja a melhor coisa, os próprios professores boicotam. Não participam, nem que seja para criticar e propor outra solução. Como criticar aquilo do que não se participa? E o que dizer das pessoas que queimam manuais de procedimentos em nome do cerceamento de liberdade? Era uma iniciativa do governo de São Paulo no intuito de padronizar o ensino, estabelecendo metas e objetivos, mas os professores se sentiram afrontados!

Quero deixar muito claro que defendo até meu último fio de voz o direito que os professores teriam de questionar o manual. Eles poderiam até mesmo se reunir para criar um manual, mas jamais poderiam se opor ao uso de um. E essa rebeldia vem de onde? Da Universidade!

Quando estamos na faculdade, em teoria aprendendo a ser professores, grande parte do que fazemos é isso mesmo: teoria! Teorizamos sobre tudo, estudamos os filósofos, os pedagogos. Conhecemos o percurso de Emília Ferreiro, lemos as conclusões a que chegou Maria Montessori, discutimos embevecidos as teorias de Piaget, Skinner, Pavlov, Carl Rogers, Vigotski e tantos outros. É uma base teórica de profundidade inquestionável. Tudo isso nos é passado, em alguns casos, sob o olhar constante Dele, o maior, o supremo, o poderoso, salve, salve: Marx! Só que o pobre do Marx, acorrentado e amordaçado, limita-se apenas a arregalar os olhos, provavelmente marejados de lágrimas, e observar o que se faz e diz em seu nome. Digo isso porque acredito que foram pouquíssimos aqueles efetivamente leram Marx, ainda que traduzido. E quando digo pouquíssimos imagino que esse número se aproxima perigosamente do zero. Todos falam de Marx e de suas teorias a partir de reinterpretações das interpretações dos comentários das resenhas que foram feitas. A partir de um resumo de sua obra.

Estou terminando uma licenciatura depois de um curso de formação, um mestrado e uma especialização em didática e, de verdade mesmo, com algumas honrosas e recentes exceções, raríssimos foram os professores que, em sala de aula, me explicaram COMO dar aula, quais são os procedimentos a executar de tal forma que eu levante vôo com minha classe daqui e chegue sã e salva lá onde é o meu destino, passando esse grupo de passageiros da vida às mãos de outro piloto-professor, o qual saberá os procedimentos a seguir e assim por diante. Aprendi teorias e agora tenho total liberdade para agir como quiser quando fechar a porta da minha sala de aula. Como fazer? Isso é problema meu, faz parte da minha autonomia, eu é que me vire! Se não fossem os poucos mestres nesses longos anos de formação que me deram alguns indícios de caminhos, estaria absolutamente sozinha, por minha própria conta e risco. Eu e meus alunos.

Atualmente sou professora de francês. Descobri, maravilhada, que no ensino de línguas estrangeiras são usados métodos e que tais métodos são acompanhados de guias pedagógicos. Esses guias, pasmem, são manuais de procedimentos que dizem exatamente o que fazer a cada passo e qual o objetivo de cada uma daquelas atividades. Não me sinto nem um pouco tolhida na minha autonomia, nem na minha criatividade e esta semana me emocionei quase às lágrimas por uma bobagem. Recebi os e-mails com o exercício proposto aos alunos que consistia em escrever um pequeno parágrafo sugerindo a um francês fictício um lugar em Curitiba, dizendo porque eles preferiam esse lugar e dando algumas indicações de onde ele fica. Há pouco mais de dez semanas esses meus alunos mal sabiam dizer bonjour e hoje escrevem pequenos textos e falam de seus gostos e preferências em francês! Mérito meu? Em parte, sim. Mas em grande parte é mérito do guia pedagógico que me orientou no espaço infinito de possibilidades no ensino de uma língua estrangeira e mostrou o caminho a percorrer. Eu sigo um manual e não sou menos autônoma, nem menos criativa, nem menos capaz por isso! Os anos de estudos, inclusive das teorias, são necessários. Só um manual não faz um professor, assim como, mesmo com um manual detalhadíssimo em mãos, vou continuar incapaz de fazer voar uma aeronave.

Governo, academia, professores... A solução para termos uma educação de qualidade e, como conseqüência, um país de qualidade, está em todos eles, mas está também na sociedade que mal toma conhecimento de protestos absurdos como o dos sindicalistas de São Paulo. Com esse tipo de atitude, tal sociedade deixa que ela mesma e seus filhos sejam conduzidos por pilotos que torcem o nariz para os manuais de procedimentos. Fico curiosa em imaginar qual seria a reação dessa mesma sociedade se minha história surreal do início fosse verdade, ou seja, se o protesto fosse mesmo dos pilotos de avião...

Claro que, mesmo da forma como as coisas estão, chegaremos a algum lugar. Mas tremo descontroladamente da cabeça aos pés ao imaginar aonde poderá ser!

Versão para impressão

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Será que o Jassa ainda está vivo?

Ah o tempo, o tempo... Por que será que ele decide sumir dessa forma?

Aproveitando que o assunto do último post foram minhas madeixas, faço uma nova sessão Recordar é viver. É a prova de que meus infortúnios capilares vêm de longa data!

O post original é do meu outro blog, dia 19 de fevereiro de 2004. Nossa! Como passa o danado do tempo! E eu nem imaginava o que ainda viria pela frente com relação aos meus cabelos...

Antes de encerrar essa singela introdução, um comentário para matar a sede de curiosidade dos meus bleaders...

Parênteses. Aprendi ontem essa: um bleader é um blog reader. Vamos criar um termo nacional? Que tal bleitores?

Voltando ao assunto, saibam vocês, meus caros bleitores, que depois do evento que vão ler agora, passei um ano cortando eu mesma meu cabelo . Mas como não sou, nem nunca serei, uma boa cabeleireira, um dia capitulei e procurei outro salão. Antoine é o nome da criatura que devolveu um pouco de dignidade à imagem que eu via no espelho. Mas só um pouco... Diferente do Renato, meu cabelereiro brasileiro, o Antoine não tinha nada de mágico nem de santo e não sabia fazer milagres!

Até a próxima! Idéias são muitas, textos começados existem, mas ainda me falta encontrar o mágico ou santo que dará um jeito no meu tempo!

============
Um dia desses parei pra fazer uma análise crítica e realista a respeito do meu estado físico geral depois de alguns meses morando na França. Vamos aos resultados:

· Quem inventou o velcro também teve de passar um tempo fazendo faxina, lavando as mãos constantemente, etc. A pele estava tão ressecada que eu já nem precisava mais pegar coisas de tecido, elas simplesmente colavam na minha mão e vinham junto comigo pela casa.

· Fazia tempo que não via minhas sobrancelhas e teria sido melhor continuar sem ver: elas estavam parecendo duas taturanas. Fiz um rabo-de-cavalo e meu primeiro ímpeto foi o de afugentar os bichos que estavam na minha cara. Foi só depois que eu percebi que eram as sobrancelhas.

· Meu cabelo? Sem comentários. A última vez que passou por um salão foi ainda no Brasil. Minhas luzes não passavam de, no máximo, um abajurzinho. A franja estava um verdadeiro caminho de rato, já que tinha feito a besteira de tentar fazer justiça com as próprias mãos, ou seja, cortar eu mesma.

· Para coroar, os quilinhos (dezenas deles) que se apaixonaram por mim e relutam em ir embora.

Apesar de tudo isso, estranhei quando me olhei no espelho e percebi um leve sorriso no meu rosto. Será que estava aprendendo a ser feliz mesmo na adversidade? Foi aí que observei mais de perto e vi que o sorriso, na verdade, era a pele repuxada. Tinha acabado meu creme hidratante.

Decidi dar um basta na situação!

Com as mãos fui radical: passei a usar luvas para tudo, até pra fazer xixi. As sobrancelhas eu mesma dei uma ajeitadinha. Coisa pouca. Só tirei os fios que estavam caindo dentro dos olhos e emendando tudo sobre o nariz, acabando com aquele ar de Frida Khalo. O rosto foi fácil. Fui ao supermercado comprar um creme hidratante. Só que nesta terra tenho um problema grave. Gravíssimo, eu diria. Sou obrigada a usar cosméticos nacionais! Ha ha ha! Essa é a parte boa de estar morando na França: cosméticos, queijos e vinhos, só os nacionais. Que chato! Escolhi um anti-rugas leve, primeiras rugas, coisa para quem acabou de passar dos trinta. Nisso eles são incríveis! É uma prateleira imensa em qualquer mercadinho de esquina com todos os tipos de creme que se pode imaginar. Até um para afinar o rosto que estou pensando em experimentar. Quem sabe eu não consigo acabar com essa cara de lua cheia e não fico igual à Mortícia Adams? Com o cabelo a coisa era mais complicada. Precisava de uma solução profissional!

Na França temos o médico da família (atende a todos nós, até à Ana Luíza), achei que devíamos ter também o cabeleireiro da família. Já tínhamos tentado um que cortou o cabelo do Vidal e do Felipe e, apesar de os cortes não terem ficado maravilhosos, decidi eu mesma testar pra ver se ficaríamos com ele de vez ou procuraríamos outra opção.

Marquei horário. Uma terça-feira. Dezoito horas. O grande dia!

Por causa do resultado não muito bom com o Vidal e com o Felipe eu estava meio cabreira. Mas sentei confiante na cadeira e fiquei esperando pelo chefe. O dono do salão, aquele que me transformaria numa criatura deslumbrante.

Ele chegou e perguntou o que eu queria. Minha resposta convicta foi: Não sei! E era verdade. Fiquei dias pensando como ia querer cortar o cabelo e não sabia o que fazer. Disse que ele podia fazer o que quisesse. Eu só queria manter a franja (bem cortada, é claro). E não queria o cabelo muito curto. Mas que tivesse volume. E que fosse prático para arrumar (com duas crianças não dá pra ficar horas na frente do espelho). Ah! E que, se possível fosse igual ao daquela foto ali na revista. Dei total liberdade, portanto, para fazer o que quisesse.

Ele se armou de tesoura e pente, pegou uma mecha do alto da cabeça e... tac! Cortou pela metade! Gelei na cadeira. Será que meu francês estava tão ruim que quando disse não muito curto acabei esquecendo de falar a negação? Fiquei ainda mais cabreira.

Foi quando chegou o assistente e ficou, como todo bom assistente, assistindo. Quis saber qual era a técnica de corte que estava sendo usada. O cabeleireiro explicou, o assistente disse ahhhn e continuou assistindo.

Aí o tal do assistente fez um comentário que iniciou o momento mais tenso do dia: Uma vez eu vi uma técnica de cortar que era bem estranha. Eles juntavam o cabelo todo em cima e faziam um único corte. O cabeleireiro disse: É verdade! Você faz assim, ó... Juntou todo meu cabelo no alto da cabeça, chegou a tesoura perto e... tac! Ele só falou o tac, não fez o tac. Eu me encolhi alguns centímetros. Ele se empolgou. Começou a descrever todas as técnicas de juntar o cabelo numa parte da cabeça e tac. Só que ele falava e fazia. Junta tudo na esquerda e tac. Junta tudo na direita e tac. Junta em cima, no meio, atrás e tac, tac, tac. Ele não cortava, mas repuxava todo meu cabelo, chegava com a tesoura perto e falava: tac. Além de estar ficando com dor de cabeça, a cada tac daqueles eu apertava os olhos e encolhia mais um pouquinho. O meu medo era que ele esquecesse o corte que pretendia fazer quando começou.

O clímax aconteceu na descrição da técnica em que o cabeleireiro coloca a cliente de quatro sobre a cadeira, joga o cabelo todo pra baixo e tac! Essa foi ele mesmo quem demonstrou. Não ousou me pedir pra fazer isso, mesmo porque, eu me recusaria. Mas fiquei pensando... Isso tudo foi um curso ma-ra-vi-lho-so que ele fez em Barcelona onde ele aprendeu tu-do o que sabe. O que acontece é que quando eu tinha dezoito ou dezenove anos fazia exatamente isso: juntava todo o cabelo no alto da cabeça e... tac! Eu mesma cortava meu cabelo. Se soubesse que essa era uma técnica refinadíssima tinha aberto um salão e hoje estaria rica. Fiquei, se é que isso é possível, ainda mais cabreira. Na verdade, até nem me importaria de ser cobaia, desde que ele não estivesse cobrando (bastante) por isso.

Felizmente acabou a aula. Já nem me via mais no espelho de tão encolhida que estava. Sentei normalmente de novo e ele voltou a cortar. Foi cortando, cortando. Cheguei a achar que ia cortar tudo. Não faz isso, não! É pouquinho, é fininho, mas é tudo o que eu tenho.

Durante esse tempo meus pensamentos se alternavam. Gostei. Não gostei. Detestei!!! Aí, aí, tá bom. Adorei! Não, do outro jeito. Não dá pra colar de novo esse pedacinho?

Ele terminou o corte, Voilà! Eu estava parecendo um fósforo: uma bolinha no alto da cabeça e o resto espremido nos lados do rosto. Já não tinha como ficar mais cabreira. Desisti de me preocupar. Cabelo cresce, não é mesmo?

De secador em punho, começou o processo de secagem e arrumação do cabelo. As mulheres vão me entender, ele girava o secador e amassava os fios, afinal, eu tinha pedido volume, não tinha? Desligou o secador e pegou a lata de spray (detesto spray!). Fiquei sufocada de tanto que ele apertou o dedo naquela latinha. Puxou para baixo, puxou para os lados, para cima. Acabou! Pegou o espelho para que eu pudesse apreciar o resultado na parte de trás. Não vou dizer que eu parecia uma leoa porque aprendi num parque de diversões num passeio de fim de semana que as leoas não têm juba. Mas eu estava parecendo... quem?... Já sei! Toni Tornado quando cantava ... na BR3... Murmurei um très bien meio engasgado, levantei, paguei e saí.

Ainda bem que o salão é na frente de casa e que felizmente não encontrei ninguém pela rua. Abri a porta do apartamento e voei como um raio para o banheiro. O Vidal na sala com as crianças, perguntou: E aí? Fiquei no banheiro um tempo observando. Passei um lápis nos olhos. Um batom. Talvez estivesse estranhando minha cara sem maquiagem. Não adiantou. Peguei uma escova e comecei a tentar tirar aquele spray todo. Foi difícil. Lágrimas de indignação e de dor de tanto puxar o cabelo escorriam dos meus olhos. Pensei em entrar embaixo do chuveiro e arrumar do meu jeito. Mas achei que seria um desaforo! Pagar caro no salão pra chegar em casa e desmanchar tudo? Isso eu fazia no Brasil quando era poderosa. Agora não estou com essa bola toda, não.

Um dia eu teria de reencontrar as pessoas do mundo, então saí do banheiro e entrei na sala para o Vidal dar seu veredicto. Ele disse que com aquela toalha na cabeça não dava pra ver nada. Brincadeirinha! Só lembrei da minha irmã, Renata, que aos oito anos de idade amarrou uma toalha na cabeça quando minha mãe mandou cortar o cabelo dela bem curtinho. Disse que só ia tirar a toalha quando o cabelo crescesse. Só hoje, quase vinte anos depois, consegui compreender a atitude da minha irmã. Tive vontade de fazer o mesmo.

O Vidal olhou. Ficou quieto por alguns (torturantes) segundos e, para meu horror, disse: O que foi que ele fez aí atrás? Quase surtei! Balbuciei algumas explicações para o que não tinha explicação alguma. Ele, gentil, tentou consertar: Nem fez diferença! Foi pior! Como não fez diferença? Quando eu saí tinha todos os fios quase do mesmo tamanho com as pontinhas viradas para baixo. Agora cada um tem um comprimento diferente com as pontinhas viradas para todos os lados!

O padre tinha dito: na alegria e na tristeza, na saúde e na riqueza, na saúde e na doença, não tinha? Faltou acrescentar com o cabelo seja lá como for. O Vidal decidiu ser solidário e acrescentou: Eu também não gostei do trabalho dele. É um cara legal, mas não dá. Vamos procurar outra pessoa... Fiquei um pouco mais reconfortada, mas, por via das dúvidas, decidi cobrir todos os espelhos da casa, afinal, o que os olhos não vêem o coração não sente, certo?

O travesseiro acabou fazendo um bom trabalho. No dia seguinte o cabelo já tinha baixado bem e com o passar dos dias foi ficando praticamente normal. Mas desconfio que ficarei longe de salões por um bom tempo...

Versão para impressão

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Pelo menos a voz continua a mesma!

Nascemos juntos. Quer dizer, não tenho recordações nítidas de nós dois na maternidade, mas estou certa de que, no mínimo, a promessa dele nasceu comigo. E até meus três anos de idade, pelo menos, nossa convivêcia foi pacífica, até mesmo harmoniosa. Daí veio um período do qual não me lembro muito bem e, então, a guerra foi declarada! Um dia, aos onze anos de idade, simplesmente sentei numa cadeira e, muito decidida, dei a ordem: Tosa! Meia dúzia de tesouradas depois, a cabeleireira tinha decepado minhas madeixas.

Meus cabelos passaram a ser curtos, o que se chamava à la garçon ou estilo Joãozinho, depende de quão chique tivesse ficado o resultado. No meu caso foi catastrófico. Mas quem é que controla os hormônios em fúria da adolescência que nos faz cometer loucuras?

De lá para cá, com raros períodos de trégua, estivemos em guerra franca e declarada. Devo reconhecer que ele tem sido mais forte do que eu...

Aquela surecada dos onze anos me deixou ainda mais indecente do que já fica indecente uma menina que sai da infância e cresce toda desconjuntada. Tinha pontas para todos os lados. Dessa época só tenho guardada uma foto 3x4 de uma carteirinha de estudante. Será minha arma de persuasão quando a Ana Luíza entrar na adolescência e tiver as mesmas idéias insanas.

Os tais hormônios, além do tsunami emocional que provocaram, atingiram também diretamente os cabelos e fizeram um estrago sem precedentes! Eu tinha fios de todas as espessuras, assim como fios de todos os tipos: dos lisos escorridos ao crespo sarará. Sem exagero. Isso quem descobriu foi uma das inúmeras cabeleireiras pelas quais passei na tentativa vã de dar um jeito naquela gadelha.

O que sei é que minhas memórias dos onze aos dezoito anos no que se refere a minhas melenas são repletas de tentativas de domar a fera enraivecida dos meus cabelos. Um calvário em bem mais de quatorze estações...

Claro que tentei de tudo. Todos os tratamentos que me aconselharam. Abacate batido, por exemplo. Vocês lembram de uma das cenas do filme O Exorcista? Pois é. Ver minha cabeça coberta de abacate batido no espelho me fez pensar em vidrinhos de água benta. E essa nem foi a receita mais esdrúxula que tentei!

Uma vez sugeriram uma mistura de ovo, azeite de oliva e, se não me engano, um frasquinho de vitamina A. Só que era pra aquecer o azeite de oliva. Claro que quando misturei o ovo ele começou a fritar. Dessa vez, a cabeça cheia de pedacinhos de ovo frito me deram uma vontade quase incontrolável de passar novamente pelas tesouras.

Naquela época, meu sonho era ter cabelos cacheados e foram várias as tentativas nesse sentido. Comecei indo ao salão para fazer bigoudis. Passava horas com aquelas coisinhas na cabeça. Soltava e me via cheia de cachinhos como Shirley Temple. A alegria durava da porta do salão à porta de onde quer eu fosse. Os cachinhos iam se transformando em pontas espetadas e eu acabava, em minutos, parecendo uma Medusa.

Claro que apelei para soluções radicais! Era época dos permanentes e só quem já fez isso pode dizer que sabe bem qual é a eau de cologne que usa Satanás. Mas nem mesmo a química mais pesada conseguiu colocar graciosos cachinhos na minha cabeça. Depois dos permanentes meu cabelo parecia vítima eterna da catástrofe dos bigoudis. E, antes que algum herói solto por aí decidisse reencarnar Perseu e decepar minha cabeça, desisti dos cachos.

Porém, isso não aliviou em nada a situação porque meus cabelos não eram crespos como eu sonhava, mas também não eram lisos. Eles eram uma... coisa. Uma coisa com aparência de vassoura de piaçava.

Como eu tinha de tentar algo, decidi investir no liso. Haja muque para fazer escova! Vale lembrar que estamos falando do século passado, portanto, absolutamente nada de silicone, muito menos nenhum dos 1834 cremes disponíveis que temos hoje. Era xampu de ovo da Colorama e Creme Rinse, aquele rosinha. E só! E, ah, os hormônios, quem disse que eles deixavam minhas mechas em paz? Nem com escova! Então eu apelava para a touca. Vocês conhecem essa técnica para ficar parecendo a Mortícia Adams?

A gente vai prendendo o cabelo com dezenas de grampos, enrolando tudo ao redor da cabeça em tantas camadas quantas forem necessárias para segurar todo o comprimento. Eu costumava fazer isso à noite e dormia assim. O negócio é que a técnica prevê enrolar para um lado e depois para o outro, o que, obviamente, eu não fazia, já que não acordava de madrugada para virar a touca. Portanto, na manhã seguinte tinha de levantar quinze ou vinte minutos antes para ter tempo de tirar a centena de grampos da cabeça e soltar o cabelo que ficava liso, mas todo para um mesmo lado. E os Emos se acham originais?

A lisura durava só até o primeiro ventinho úmido que eu pegava, ventinho esse que sopra em Curitiba uns trezentos dias no ano, mais ou menos. Nos outros sessenta e cinco chove torrencialmente, o que dá no mesmo! Eu saía de casa de manhã como Emo e voltava ao meio-dia igual ao Valderrama.

Como prova para aqueles que pensam que estou exagerando segue um fato verídico. Antes de começar a usar lentes de contato por conta de uma miopia galopante, eu usava uns óculos redondinhos. Um dia me disseram que eu era a cara da Janis Joplin.

Ainda bem que naquela época eu não fazia idéia de quem era Janis Joplin e também não existia internet. Quando vi uma foto dela pela primeira vez já era mais velha, tinha domado os cabelos e pude somente compreender perfeitamente porque ela morreu de overdose. Tem coisas que nem bebendo dá pra esquecer...

Como as toucas não davam jeito, sucumbi à sugestão de uma cabeleireira para testar uma técnica chamada touca de gesso que consistia em passar um produto no cabelo e escovar bem. Mais um perfumezinho de Belzebu que encarei pela frente. Fui ao salão cheia de esperanças e me entreguei às mãos profissionais que me deixariam igual à Perla.

Só que o gesso do nome da técnica não era força de expressão. Ela passou uma meleca branca em todo o cabelo e começou a escovar. Alguns segundos depois aquela coisa começou a endurecer, ela tinha dificuldade para fazer correr o pente ou a escova. Puxava, repuxava e eu tinha a sensação de que ia acabar ficando sem cabelo algum na cabeça. Depois de horas desse sofrimento, tudo foi lavado, secado, e... continuou exatamente como era antes!

Como tudo nessa vida tem um fim, a adolescência inclusive, embora eu não tenha ficado com o cabelo dos meus sonhos, dá pra dizer que tivemos uma certa trégua dos vinte aos trinta anos. Dez anos de relativa paz nos quais minha maior preocupação eram os fiozinhos brancos que começaram a aparecer.

E então, sofri uma nova revolução hormonal causada pela gravidez! Quando o bebê está ali pelos quatro meses, o cabelo da mãe começa a cair desesperadamente. Juntando-se a isso o fato de que mais ou menos nessa época já não eram poucos os fios brancos, dá pra imaginar que pegamos em armas novamente e partimos para a luta, meu cabelo e eu.

Não acreditava mais em soluções caseiras, é claro. Não poderia contar, nem por alto, a quantidade de tratamentos que fiz. Cremes, extratos, ampolas, xampus, pílulas, médicos dermatologistas. Minha herança genética não me deixava qualquer esperança. E as escovas continuavam porque sem elas iam pensar que eu era uma reencarnação da Janis Joplin. Sem os óculos.

Já nem sonhava mais com cabelos crespos, estava conformada. Sonhava só com a possibilidade de lavar a cabeça e deixar secar os cabelos ao vento. Sem chance! Fazer isso significava acabar como a Madame Mim. É por esse, entre outros motivos que não vêm ao caso agora, que detesto programas de praia ou piscina. Isso pra mim sempre foi um verdadeiro tormento capilar.

Com a segunda gravidez, aquilo que era ruim, ficou pior! E para complicar ainda mais a situação, morava fora do país sem dinheiro pra salão, creme ou tratamento. Tintura era eu mesma quem fazia, com resultados que iam do horrível ao tenebroso. Durante um ano cortei eu mesma meu cabelo porque a experiência em salão tinha sido traumática. Voltei para o Brasil num estado deplorável: além da segunda gravidez, um hipotireoidismo fez cair mais de um terço do meu cabelo, que já era quase um terço branco e, o que restou, continuou aquela coisa disforme, nem liso nem crespo.

Com a visita de uma amiga brasileira na minha casa na França aprendi várias coisas sobre silicone, cremes e tratamentos. Foi uma aula para lá de valiosa. De novo em terras verde-amarelas, e novamente submetida ao ventinho úmido de Curitiba, coloquei tudo em prática. Deu uma melhoradinha, mas ainda caía muito, não nascia o suficiente, eu estava insatisfeita. Vocês sabem, a gente vive reclamando, até descobrir que tudo pode ficar ainda pior...

Veio o diagnóstico de um câncer e, por causa das sessões de quimioterapia, fiquei careca. A verdade é que essa foi a época em que menos briguei com meus cabelos, simplesmente porque eles debandaram todos! A peruca foi uma experiência à parte, um causo a ser contado em outro dia.

Com o fim das quimios, meus cabelinhos começaram a voltar. Tivemos um reencontro festivo, cheio de saudades, cuidados e carinhos de ambas as partes. É verdade que, se antes eu tinha um terço deles brancos, agora é quase metade, mas tudo bem. Eles voltaram TODOS! Todos os que tinham caído durante toda a vida, o que significa que eu jamais me vi com tanto cabelo na cabeça!
Estou feliz com isso, é claro! Mas... Sempre tem um mas. Ah, o ser humano, esse eterno insatisfeito. Tal como haviam me prevenido e conforme eu sempre sonhei, agora tenho cabelos crespos! Não é ondulado não. É crespo mesmo. Tanto que tenho andado constantemente com a voz da Sandra de Sá na minha cabeça cantando Sarará crioulo.

Eu sei, isso foi tudo o que sempre quis, fiz permanente e coisa e tal. Mas a moda agora é chapinha e eu moro em Curitiba, que já foi a terra do topete e que hoje deve ter a maior concentração de profissionais de escova progressiva por metro quadrado do país! A considerar o que vejo nas cabeças das curitibanas, elas são todas descendentes de índias ou japonesas. Até as loiras.

Quando abandonei a peruca meu cabelo tinha pouco mais de meio centímetro de comprimento. Voltei a ser o Joãozinho dos meus onze anos. Quer dizer, uso umas echarpes para dar a impressão de que é um corte à la garçon. Fica mais chique.

Ouvi vários comentários de que ficou bom e cheguei a concordar. Mas disse que vou deixar crescer até eu ficar igual ao Capitão Caverna. Daí posso pensar em cortar curtinho de novo. A diferença é que nesse caso vai ser porque eu quis!

O problema é que com um centímetro de comprimento ele já começou a encaracolar. Olhava minha imagem refletida no espelho e me achava a cara do Ronaldinho, só que sem ter os mesmos milhões que ele no banco. Que injustiça!

Novamente tenho de acordar mais cedo, não por causa dos grampos, mas para fazer chapinha. Fazer chapinha num cabelo de pouco mais de um centímetro de comprimento é uma experiência abrasadora. Que o digam meus dedinhos queimados.

Como o cabelo tem crescido super rápido, o que é ótimo, as soluções que dou para não me sentir pavorosa mudam a cada semana. Nos primeiros dias eu conseguia alisar bem e, como eles estavam curtíssimos, eu era a versão feminina do Dr. Spock. Mas, o que deu certo semana passada, certamente não dará na próxima. Haja criatividade!

Nesta manhã tive ummomento difícil... Ontem eu tinha usado a técnica da vez que consistia em fazer chapinha na parte da frente, no que seria a franja, e também nas laterais, deixando a parte de trás ao natural, ou seja, igual a um poodle ruivo, separando as duas metades com uma tiara. Até estava ficando legal, dava um certo ar romântico, mas o clima de Curitiba... Calor úmido, seguido de chuva torrencial e depois garoa. Combinação explosiva. Voltei para casa cansadíssima e me atirei na cama sem nem olhar direito para o espelho. Hoje acordei e dei de cara com a Marge Simpson me encarando no banheiro.

Tudo bem, estou exagerando, admito. Meu cabelo não está azul! Mas o resto era igualzinho! Recomecei a sessão: silicone, spray, creme, chapinha. Deu uma ajeitadinha, mas não muito, e tremo só de pensar no dia de amanhã, principalmente porque continua o calor úmido, seguido de temporal e garoa...

Marquei hora no salão para o fim da semana. Esse cabeleireiro eu conheço e confio. Fez o último corte antes da peruca e operou um verdadeiro milagre com os poucos fios que restavam. Estou botando a maior fé nos poderes mágicos dele. Qualquer coisa, como não sou Sansão e sei que minha força não está nos meus cabelos mesmo, encaro uma máquina dois!

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Eu é que sei onde meu sapato aperta

Hoje aconteceu, mais uma vez, um fato que acontece há anos desde que me tornei consumidora: entrei numa loja de sapatos e pedi para experimentar um dos modelos que vi na vitrine. Não parece uma coisa banal? Mas não é! No meu caso, vivo momentos de extrema expectativa!

O ritual é o mesmo, com poucas variações sobre o tema: olho a vitrine procurando entre os modelos disponíveis aquele que atende aos meus requisitos, depois peço ao vendedor para me trazer um ou dois pares para experimentar...

Tá, tudo bem! Confesso que com o passar dos anos estou ficando cada vez mais exigente, mais cheia de manias. É coisa da idade. Portanto, tenho os tais requisitos. O jargão profissional dos vendedores de calçados muito provavelmente chama meus requisitos de frescuras mas, como o dinheiro e os pés são meus, acho que tenho o direito de querer ou não alguma coisa, não é verdade? Voltemos ao ritual...

Olho os modelos disponíveis, escolho um ou dois e chamo um vendedor dizendo, por exemplo:

- Eu queria ver aquela sandália de couro marrom ali e também aquela outra, número 39, por favor.

Às vezes, eles chegam a confirmar:

- Aquela de salto alto?

- Isso!

- 39, né?

- Exato!

- Só um momentinho, por favor.

E é aí que a expectativa começa. Quanto mais minutos tiver esse momentinho, mais apreensiva eu fico. E o meu desânimo só se confirma se eu observar o vendedor voltando escondido atrás de uma pilha de oito ou nove caixas de sapato que ele tenta equilibrar. Quanto mais caixas ele traz, menor a chance de eu ter encontrado o que procurava. E o ritual continua:

- Exatamente aquelas duas não tem, mas eu trouxe estes aqui, olha!

E eu olho! No lugar de uma sandália de salto alto em couro marrom vejo uma sapatilha preta, uma sandália dourada e um scarpin vermelho de plástico! E, então, o grand finale:

- Ah! Não tinha o 39, tá? Então eu trouxe o 38...

Provavelmente quando eu agradeço e viro as costas desolada sem nem ao menos experimentar o que ele, tão gentilmente, trouxe, devo ser fuzilada com o olhar além de virar objeto da conversa de cafezinho com os colegas: Mulherzinha mais cheia de frescuras!

Requisitos, meu amigo vendedor, requisitos. Se estou procurando uma sandália de salto alto em couro marrom e se, depois de ver tudo o que tinha na vitrine, escolho um modelo, é porque não estou querendo sapato sem salto, nem sandália dourada, muito menos calçados de plástico e, por mais obsceno que seja uma mulher que calça 39, o que eu posso fazer se a combinação genética entre meus pais gerou um Sasquatch? Fique tranqüilo, sou uma ligeira encarnação do lendário Bigfoot, ou Monstro do Pé Grande, mas não como criancinhas nem avanço nas pessoas mostrando as garras, embora até tenha vontade às vezes! Meu número é 39 mesmo e meus pezinhos de Cinderela não entram no sapatinho 38, muito menos no 37 (Sim! Até 37 já veio na pilha de caixas nada a ver que o vendedor trouxe pra mim). Não deu certo com as irmãs da Gata Borralheira e também não dará certo comigo. Além disso, nunca fiz treinamento pra gueixa. É 39 mesmo, fazer o que? Pelo menos minha altura não me deixa ficar parecendo um L maiúsculo. Principalmente porque tenho senso de ridículo suficiente pra não comprar sapatos de bico fino.

Tenho certeza de que, neste exato momento, além de ter contra mim uma horda indignada de vendedores de calçados, também tenho uma galera de leitores pensando: mas que criatura mais mal-humorada! Pobre vendedor que só quis ser gentil. Custa ser um pouquinho mais simpática? E a esses eu respondo: Custa. Custa, sim!

Não diz o ditado popular que tempo é dinheiro? Pois bem. As lojas de calçados só recebem UM par de cada modelo no tamanho 39. Unzinho só! Já fiz essa pesquisa em várias delas e a resposta é invariavelmente a mesma: só existe UM PAR de sapatos número 39 de cada modelo, o qual raramente está disponível quando eu chego. E, se por um lado, o fato de descobrir que não sou a única pezuda da cidade me alivia, por outro, faz com que eu entre numa corrida maluca contra esse outro Sasquatch que quase sempre consegue chegar antes de mim nas lojas e que, ainda por cima, tem o mesmo gosto que eu! Então, a cada vez que preciso procurar um sapato, sei que vou ter de passar por dez lojas ou mais até encontrar um par que seja do modelo, cor, altura do salto, material, preço e também tamanho adequados. Portanto, aqueles minutos que fico sentadinha na loja esperando enquanto o vendedor, que nem me conhece, logo não sabe dos meus gostos, garimpa coisas que não têm nada a ver com o que eu pedi, é o tempo necessário para minha adversária passar à minha frente e zapt!, me deixar comendo poeira na estrada. Descalça!

A solução para o meu caso talvez fosse entrar para alguma ordem religiosa dessas que andam sem sapatos por aí, mas morro de frio nos pés. Além disso, minhas chances de ser santa já ficaram para trás. Perdi qualquer esperança de canonização, tudo por culpa dos vendedores de sapatos que me fazem cometer o pecado da ira sem parar!

A passagem do tempo e a experiência têm as suas vantagens. Depois de viver esse ritual inúmeras vezes aprendi a fazer o pedido nas lojas de sapatos da seguinte forma:

- Eu queria experimentar um igualzinho àquele ali, preto, número 39. Mas é exatamente aquele modelo, PRETO e TRINTA E NOVE, tá? Se não tiver AQUELE MODELO, PRETO E TRINTA E NOVE, não precisa trazer NADA, certo?

Com certeza ele me dá as costas revirando os olhos (Mulherzinha mais cheia de frescuras!). Ingrato! Evito que ele desça escadas carregando as dezenas de caixas que ele vai ter de guardar depois e eu é que sou a chata!

Hoje, esqueci de fazer isso. Entrei na loja e disse, simplesmente:

- Queria experimentar aquela sandália de tirinhas caramelo, número 39, por favor.

Depois de mais de cinco minutos esperando, vi a vendedora chegar com duas caixas. Na primeira tinha um sapato fechado, marrom café, listado, alternando faixas de couro e vinil (Por favor! Faço um apelo desesperado aos fabricantes de sapatos: existem mulheres neste país que NÃO SUPORTAM sapatos de vinil, acreditem!). Na segunda caixa tinha um tamanco plataforma, com salto quadrado, todo bordado com flores coloridas. Pelo menos era na cor caramelo.

Pode ser que meus requisitos é que estejam exagerados, não é mesmo? Entre uma sandália de tirinhas de salto fino e um tamanco florido de salto quadrado não existe tanta diferença assim, eu até posso aceitar isso... Mas depois, que nenhum vendedor venha reclamar adicional de insalubridade por causa do chulé mortal que vai exalar dos meus pés quando eu tirar o tamanco para experimentar a rasteirinha azul turquesa que ele trouxer no lugar do sapato social prateado que pedi para ver. Resistirei até mesmo à tentação de jogar o tamanco na cabeça dele! Prometo!

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Presente? Tem gente que não dá bola!

Há alguns dias levei o Felipe para tomar vacina. Claro que o evento não poderia ter transcorrido sem momentos de tensão. É evidente que levar uma agulhada não é algo pelo qual se passe sem medo. Mas, observando o comportamento do Felipe, percebi que sofremos, sim, mas provavelmente sofremos mais do que a cota que nos é reservada. Por opção!

Enquanto a enfermeira preparava a vacina ele já começou a chorar. Chorou mesmo! O choro era pela dor que ele achava que sentiria. Uma dor antecipada e quase tão sofrida quanto se a agulha já estivesse enterrada em sua carne. Ele estava no meu colo e é claro que eu tentava acalmá-lo. Em vão. Ele nem escutava o que eu dizia. Até que pronunciei alguma palavra mágica e ele, enfim, parou de chorar para me ouvir. O que eu consegui dizer depois disso foi: Espere ela enfiar a agulha. Se doer, chore muito, chore forte. Mas espere! Pode ser que não doa...

Ele se acalmou e esperou. Esperou. Esperou. Então perguntou: Quando é que vai começar? A resposta foi: Já acabou!

Por alguma razão inexplicável, aquela vacina não doeu. Mas, infelizmente, ele já tinha sentido a dor. Uma dor que, no fim das contas, não veio. Pelo menos, não tão forte quanto ele imaginava.

Quantas vezes sofremos antecipadamente as dores da vida? Quantos problemas futuros, quantos projetos de problemas tentamos resolver? E o pior! Quantas vezes o fato de tentar resolver os problemas que ainda não tínhamos fizeram surgir problemas que passamos a ter de verdade?

O grande engano é acreditar que antecipar o sofrimento vai, de alguma maneira, nos preparar ou atenuar o sofrimento quando ele vier. Bobagem! Não vai! O sofrimento antecipado não diminui o sofrimento real quando ele acontece, porque só quando, e se, ele acontecer, é que vamos saber exatamente o que sentiremos, ou como agiremos. E isso vale para tudo! A imaginação de uma torta de chocolate não se compara ao prazer de comer a torta de verdade, assim como a lembrança de um beijo não substitui nem prolonga o prazer do beijo em si. Lembrar da torta ou do beijo dá prazer, assim como imaginar uma dor faz sofrer. E nem uma coisa, nem outra, impedem a força da emoção, seja boa ou seja má, no momento em que ela é vivida.

Ninguém morre de véspera. Nem mesmo o peru! Ele morre no momento em que devia morrer porque, simplesmente, não estava convidado para a ceia mesmo. Quer dizer, até estava, mas em outra condição.

Portanto, ficar no presente, tentando prever um futuro doído vai fazer doer hoje algo que doerá também amanhã. E o mais ingrato é que, caso a dor não venha como esperávamos, ou simplesmente não venha de jeito algum, teremos sofrido uma vez. Inutilmente. E se a dor vier, será ainda mais triste: teremos sofrido duas vezes. Inexoravelmente.

Por mais dura que seja esta realidade, não há como mudá-la: nossa vida acontece no presente. E só nele. O passado... passou. O futuro... não existe nem nunca existirá porque, quando lá chegarmos, já será presente.

Temos um presente da vida a cada instante e muitas vezes o ignoramos insistindo em olhar para trás ou para frente, antecipando dores ou tentando reviver amores, sabores e, até mesmo, horrores. Só que a vida requentada, assim como a vida ainda não preparada, não têm, nem de longe, o sabor da vida bem temperada e ainda fumegante.

Espero que o Felipe tenha registrado a experiência e, nos tempos presentes que ainda virão, aguarde primeiro a agulha perfurar a carne e o remédio invadir as veias para só então chorar as dores reais que a vida lhe trará de presente, no presente.

Serão presentes, sim, mesmo quando forem de mau gosto. Nem sempre gostamos de todos os presentes que ganhamos, mas isso não muda o fato de que eles nos foram ofertados. De presente. Presente de grego, às vezes. Mas, ainda assim, presente.

Tudo o que temos para viver aqui e agora já deveria nos ser suficiente. Pra que mais?