terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Navegar é preciso. Desistir, também...

Vocês sabem, eu sou um plâncton. Isso significa que não brigo contra a corrente da vida. Deixo a onda me levar, como já tive a oportunidade de dizer. E sou orgulhosa da minha capacidade de adaptação de plâncton-camaleão. A corrente me leva pra lá e pra cá e eu sempre encontro alguma coisa muito legal pra fazer nas novas paragens.

Portanto, como tenho muitos interesses na vida, se tem um mal do qual nunca sofri e jamais sofrerei é tédio. Aprender qualquer coisa nova me interessa, desafios me interessam, oportunidades me interessan. E, em tudo que faço, vou ao fundo, quero descobrir como fazer melhor, quero fazer o meu melhor.

Isso é bom, não é?

Nem tanto.

Há alguns anos, conversando com minha amiga Sheila cujos dias têm 72 horas (foi a conclusão à qual cheguei para explicar como ela consegue dar conta de tudo o que faz), ouvi dela uma frase que me marcou: "É muito difícil dizer não para o que a gente gosta de fazer".

Esse ano eu senti na carne a verdade e a dureza dessa frase. Não só fui obrigada a dizer não pra uma série de oportunidades na vida, como fui também obrigada a conjugar repetidas vezes o verbo desistir, sempre na primeira pessoa do singular. E como desistir dói...

Por muito tempo, praticamente só disse não a mim mesma. Até que comecei a dizer sim, como contei por aqui o ano passado. Passei de um extremo a outro e saí dizendo sim pra tudo o que me dava prazer. Liberei um dique de desejos represados por tanto tempo. Vivi eufórica a permissão que eu mesma me dei pra fazer tudo de que eu gostasse. Aí descobri que tudo é palavra inimiga de outra, muito importante, chamada equilíbrio. Foi então que os verbos optar, decidir e desistir se impuseram a mim.

Os últimos meses foram repletos de desistências da minha parte. Desisti de tocar adiante os projetos de patchwork que tinha com minhas amigas e cúmplices Giuse e Denise. Desisti de fazer o exame de seleção para o doutorado cujos preparativos eu vinha fazendo há dois anos. Desisti de participar de ativamente de algumas comunidades virtuais onde encontrei amigas-irmãs. Desisti de acompanhar blogs de amigos de perto e de longe. Desisti de manter, mesmo que minimamente, minha personalidade virtual de Orkut, Flickr, Twitter, Facebook e afins, personalidade esta que está em total crise psico-cibernética. Por fim, desisti de atualizar este blog.

Essas foram as grandes desistências, aquelas que aconteceram somente nos últimos dois meses. Houve centenas, milhares de outras desistências. Algumas maiores, das quais não quero falar em público, e outras menores, pelas quais o público não teria interesse algum.

A cada uma delas senti dor, experimentei uma desconfortável sensação de fracasso.

Concluí que fui à falência. Quebrei. Fui à bancarrota. Não posso pagar o preço pelos meus desejos, porque eles me exigem tempo, e tempo é artigo de altíssimo luxo. É o bem mais precioso que tenho, ou melhor, que não tenho.

Pode parecer que o momento é de total abatimento e melancolia. Em parte, até é mesmo. Mas, depois da sensação bastante incômoda de falha, de limitação, vem, às vezes, alguma realização e uma certa serenidade. Vem a concretização de algumas poucas coisas às quais me dedico agora e a certeza de conseguir chegar ao fim delas.

Pode parecer estranho, mas ter muitas habilidades é tão paralisante quanto não ter habilidade alguma. A imagem que formei pra mim mesma é a de uma pessoa cheia de sorte que ganhou da vida uma porção de aneis maravilhosos, joias lindíssimas. Um monte de aneis para somente um ou dois dedos. Simplesmente não dá pra usar todos os aneis ao mesmo tempo, então, por mais maravilhosos que eles sejam, ficarão guardados em caixinhas, esperando pelo dia em que poderão receber a atenção que merecem. Aí, sai o anel de diamantes e entra o de rubis. Os dois juntos não podem ser usados.

Portanto, desisti de muitas coisas, entre elas, de escrever.

Não é uma desistência definitiva. Pouquíssimas coisas nessa vida são definitivas. Só desisti da tentativa de escrever tanto quanto gostaria, com a frequência que desejaria. Manterei meus textos, só que poderão ser, talvez, bissextos. Ou não. O que deixei pra trás foi somente a imposição de regularidade que eu mesma me fazia.

Largo completamente as últimas cordinhas com as quais eu tentava manipular, ainda que debilmente, meu destino, para me encontrar plâncton de vez. E, continuando na linha dessa minha filosofia de vida, apresento mais uma música, trilha sonora dos plânctons pelo mundo. A primeira é aquela óbvia, do Zeca Pagodinho, que diz Deixa a vida me levar... A segunda vem na voz de Lulu Santos:

Tudo azul
Todo mundo nu
No Brasil
Sol de norte a sul
Tudo bem
Tudo zen
Meu bem
Tudo sem
Força e direção
Nós somos muitos
Não somos fracos
Somos sozinhos nesta multidão
Nós somos só um coração
Sangrando pelo sonho
De viver
Tenho arregimentado novos plânctons por aí pra me fazer companhia e já somos muitos! E tem mais: plânctons de ontem e de hoje, de todos os credos e artes, descobri que há outros que já cantavam o estilo plâncton de ser há muito tempo. Encontrei até mesmo um poeta porta-voz, chamado Carlos Pena Filho, que escreveu o seguinte poema, cujo título é A solidão e sua porta:

Quando mais nada resistir que valha
A pena de viver e a dor de amar
E quando nada mais interessar
(Nem o torpor do sono que se espalha)

Quando pelo desuso da navalha
A barba livremente caminhar
E até Deus em silêncio se afastar
Deixando-te sozinho na batalha

A arquitetar na sombra a despedida
Deste mundo que te foi contraditório
Lembra-te que afinal te resta a vida

Com tudo que é insolvente e provisório
E de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório
Esse aí foi um plâncton meio tristinho, tenho de reconhecer. Mas esse poema é simplesmente maravilhoso!

Nesse momento, desisto mais uma vez. Desisto de lutar contra o sono que fecha meus olhos. Que eu tenha uma boa noite e que meus sonhos me levem a mares nunca dantes navegados.

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Hiromi, minha amiga, esse post foi pra você. Bem grandão! :-)

sábado, 10 de outubro de 2009

Cabelos soltos são mais seguros

Acabei de receber um email daqueles que tem todo o jeito de notícia falsa que circula na internet, os mundialmente conhecidos, embora poucos saibam o nome técnico com que foram batizados, hoaxes.

Pasme, meu caro bleitor, segundo a mensagem, a China estaria fabricando elásticos de cabelo a partir de camisinhas usadas!
A amiga que me mandou o email já adiantava que a notícia tinha sido verificada, incluindo, para não deixar dúvidas, o link que comprova tudo. Eu, como boa descendente de São Tomé, fui atrás fazer minhas próprias pesquisas e descobri que é verdade mesmo! Quer dizer, parcialmente verdade...

É verdade que foram descobertos elásticos de cabelo feitos a partir de preservativos na China. O que não se tem certeza é se eram camisinhas efetivamente usadas ou se eram refugo industrial. É uma notícia velhinha, de 2007. Uma eternidade para os tempos em que vivemos...

Aquele Eugène Ionesco e seu grupinho achavam que tinham inventado grande coisa com o tal teatro do absurdo. Mal sabiam eles que o mundo real em que vivemos é infinitamente mais absurdo! O que é uma epidemia que transforma em rinocerontes os seres humanos de uma cidade diante de singelos elásticos para prender cabelos feitos de material originalmente criado para prender coisa bem diferente?

É tão absurdo que não vou nem comentar! Mas me diverti um monte pensando em coisas tão ou mais absurdas a partir desse simples fato do nosso amado mundo (ir)real. Vamos a elas...

Será que não foi uma revolta das próprias camisinhas que não queriam mais essa vida de simples objeto descartável, com trabalho forçado em ambiente escuro, úmido e, muitas vezes, insalubre? Elas se rebelaram! Queriam o direito a respirar ar puro, ver o mundo, viajar pelas cabeças femininas. Já que estamos falando de absurdo, nada é impossível, não? Tudo bem, tudo bem. É absurdo, mas nem tanto. Vamos botar os pés no chão e voltar à notícia.

Não se sabe se eram preservativos usados ou não. Vamos admitir que eram usados (blargh!).

Em primeiro lugar, fico realmente tranquila em saber que os chineses estão usando preservativos e diminuindo, assim, a quantidade de novos chineses sobre a face da terra. Que alívio! Eles tem essa imensa vantagem numérica sobre nós. Se não pararem de se reproduzir como coelhos não vai ter lugar pra todo mundo por aqui. E como ninguém mais vai querer prender o cabelo com medo de estar usando material que já frequentou outros pelos, vai acabar voando cabelo na cara da gente, o que será super desagradável. Então, que eles continuem usando camisinha!

Mas, se eram elásticos feitos a partir de preservativos usados, então, esses preservativos tinham de ser coletados de alguma forma. E eu me pergunto: como?! Como juntar tantos preservativos com jeitão de fim de festa? Todo mundo sabe que uma indústria chinesa não fabrica menos de um contêiner de um determinado produto. Pra fabricar um contêiner de elásticos de cabelo, seria necessário um contêiner de preservativos usados. O povo anda animadinho lá na China!

Continuo perplexa, tentando imaginar como essa coleta poderia ser feita. Será que tem um pessoal de triagem que fica separando as camisinhas no lixo? Catadores de camisinha nos lixões? Ou será que os chineses são educadinhos e tem cestinhos de lixo especiais para preservativos nas ruas... Vamos ficar com essa possibilidade.

Se existem cestinhos especiais para receber as camisas de Vênus depois da farra, de que cor eles seriam? Qualquer ser humano antenado e preocupado com o meio ambiente sabe que agora os cestos de lixo tem cores específicas: azul pra papel, vermelho pra plástico, verde pra vidro... Já foram usadas quase todas as cores básicas: amarelo, preto, branco, cinza, marrom, laranja e até mesmo o roxo que é pra material radioativo. Pras camisinhas sobrariam cores como salmão, fúcsia, cáqui, magenta, turquesa ou cirilo e isso geraria um problema imenso. Como é de conhecimento geral, camisinhas são usadas por homens. Portanto são eles que, a princípio, deveriam descartá-las. E é igualmente do conhecimento geral que os olhos masculinos são incapazes de diferenciar cores como bege ou terracota. Uma vez que todas as possibilidades que existem naquela caixinha de lápis de cor da pré-escola já foram usadas para outros fins na coleta seletiva, o que sobrou foi o transparente, logo, os cestos de lixo para coleta seletiva de camisinhas deveriam ser simplesmente transparentes, o que geraria um constrangimento sem fim!

Os pobres chinesinhos, ao se desfazerem de seus preservativos usados, acabariam por comparar o exemplar que estavam descartando com os outros já presentes no cesto em termos volume de preenchimento, tamanho final, taxa de laceamento, etc. etc. etc. Isso acabaria em depressão e, consequentemente, num imenso gasto de saúde pública em psicólogos e antidepressivos. Não! Definitivamente não deve haver coleta seletiva para preservativos usados na China. Acho que as mulheres chinesas de longas madeixas podem voltar a prender tranquilamente suas melenas: com certeza absoluta não foram preservativos usados que acabaram virando as alegres chuquinhas! Ufa!

O grande problema dos preservativos usados é que algumas mulheres colocam o elástico na boca antes de prender os cabelos e isso poderia ser fonte de contaminação com o vírus da AIDS ou outras doenças sexualmente transmissíveis. De qualquer forma, colocar o elástico na boca já é um ato meio nojento. Pelo menos, encontrar um cabelo na comida é nojento, não é?

Esse post já está ficando escatológico demais. Vamos passar rapidamente à outra possibilidade: os elásticos eram feitos a partir de refugo industrial. Alguma fábrica de camisinhas destinou os itens que não passaram pelo controle de qualidade para outros fins. De novo, algumas considerações a fazer.

Como será o controle de qualidade de uma fábrica dessas? Imagino uma longa esteira, pela qual passeiam os preservativos penduradinhos como se fosse um varal de roupas e, enquanto dão esse rolé, vários robôs testam os diversos quesitos que garantem a eficiência do produto. Um deles enche a camisinha de água pra ver se tem furinho, outro a preenche com um cilindro metálico e esfrega em tubos revestidos de espuma que imita os mais diversos músculos humanos pra ver se não rasga, um terceiro robô testa cilindros de várias espessuras e comprimentos pra determinar que tamanho vai colocar na etiqueta da embalagem... Agora fiquei com vontade de conhecer uma fábrica de camisinhas! Deve ser um cenário perfeito para uma peça do Ionesco, não? Claro que nem estou considerando a hipótese de esse teste de qualidade ser feito por mãos (ou outras partes do corpo) humanas! Seria absurdo demais! Nem Samuel Beckett teria uma ideia dessas!

Ficarei sem resposta a essa questão, infelizmente. Só considerarei o fato de que camisinhas foram refugadas e enviadas para uma outra fábrica (talvez até do mesmo dono, uma mente brilhante do mundo dos negócios) para serem transformadas em inocentes elásticos de cabelo. Independente da maneira como chegaram até lá, se era refugo e se ia parar no lixo, então qual é o problema? Não se fala tanto em reciclagem, em reaproveitamento? Esses materiais sintéticos tipo borracha, silicone, plástico são os grandes vilões da poluição, não? Então por que condenar os chineses quando eles resolvem ter uma atitude civilizada da mais pura cidadania mundial fazendo reciclagem? Ora, veja você! Ninguém está contente mesmo!

Bem, é papo abóbora demais para um sábado à noite, meio de feriado, às vésperas do horário de verão, quando eu deveria estar tomando sorvete à beira-mar, mas estou de pijama de soft e meia de lã, tomando chá pra esquentar e pensando seriamente em ligar um aquecedor. Isso sim é que é absurdo! Por via das dúvidas, estou de cabelos soltos. Você sabe, esquenta o pescoço! ;-)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Resolvido. Por hoje...

O marido atende ao telefone. Do outro lado a mulher, em prantos:

- Não suporto mais! Esses meninos brigam sem parar, correm, caem, se machucam. Eu não sou a mãe deles, sou só a avó e não tenho mais saúde para isso! Não dou conta dessa situação sozinha!

Ele desliga e corre para casa. Ao entrar, vê os netos que dormem tranquilamente no sofá da sala. Ouve o barulho do secador de cabelos da mulher no banheiro.

Eram dezenove horas de uma quarta-feira. Dia do futebol com os amigos...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O feminino, em essência

- Mamãe, quando é que eu vou crescer?

- Logo.

- Logo quando?

- O tempo vai passar e você vai crescer.

- Mas, quando?!

- Logo, logo! Pode ficar tranquila!

- Tá demorando muito!!!

- Por que você quer crescer tão rápido?

- Pra ter peitão e usar salto alto...

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PS.: uma L.E.R. impertinente está me deixando meio afastada dos teclados...

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Casal moderno

Cansada dos anos de papai-mamãe, resolveu que teria uma noite selvagem! Foi encontrada pela manhã. Eletrocutada pelo parceiro, o vibrador.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Roubaram a cordinha do mundo!

Era pra ser um email... Mas estava ficando imenso e é um assunto que gostaria de discutir com um monte de gente, sem esquecer o fato de que além de escrever a mensagem eu precisava também escrever um post aqui no blog (há tempos sem atualização), então decidi fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Como diz aquele antigo ditado política e ecologicamente incorreto, quis matar dois coelhos com uma cajadada só. E que ninguém do Greenpeace apareça por aqui!

Agora vivo dessa forma: costuro enquanto vejo televisão, preparo aulas usando assuntos e textos que me interessam, assim posso me divertir, me informar e trabalhar ao mesmo tempo, cozinho o que faz bem à saúde, ouço música enquanto trabalho, penso, logo existo, como disse Descartes. Mas só consigo pensar enquanto faço uma outra coisa... Ou duas. Ou três! Isso significa que não existo enquanto não faço nada?!

Não sei mesmo o que acho dessa vida que estamos todos levando... A mensagem que comecei a escrever era pra tentar acalmar as angústias de uma pessoa que pensa que não sabe mais algo que sabia, que não consegue fazer entrar mais conteúdos na cabeça e, ao pensar nela, acabei pensando em mim e numa série de outras ideias relacionadas. Como num hipertexto, um pensamento puxou outro, que puxou outro, que puxou outro e... é EXATAMENTE AÍ que está o problema!

Vivemos num turbilhão! Tudo gira à velocidade da luz ao nosso redor, tudo acontece ao mesmo tempo em todos os lugares e, embora novas e maravilhosas tecnologias tenham sido inventadas, ainda não acharam um jeito de um corpo ocupar mais de um lugar no espaço ao mesmo tempo. Quer dizer, agora tem aquela coisa da imagem holográfica, mas, mesmo assim, é só uma projeção de uma mesma pessoa em vários lugares. Uma projeção que fará a mesma coisa em todos os lugares. Ainda não existe a holografia que permite que eu dê aula na universidade, assista a uma palestra na Bienal, converse com os amigos num bar, passe tempo brincando com meus filhos em casa e ainda esteja dormindo pra descansar dessa maratona enquanto preparo a próxima... Não dá!

Só que me dilacero em mil pedaços pra tentar fazer tudo isso e fico orgulhosa de mim mesma porque consigo, literalmente, em partes. Mas aí encontro pessoas e vejo que elas fizeram outras coisas tão ou mais interessantes ou obrigatórias, coisas essas que eu mesma não consegui. E fico achando que sou incompetente, que não dou conta, que sou preguiçosa, que fico me enrolando em casa respondendo emails enquanto escuto música francesa pra ver se tem alguma novidade que possa ser utilizada em aula e, de quebra, me divirto um pouquinho já que gosto mesmo de música francesa e não dá muito tempo pra diversão. Mas, puxa vida, isso me fez deixar de ver o vídeo da Vanusa assassinando o Hino Nacional, além de não ler a notinha dizendo que o Collor é o mais novo "imortal" da Academia Alagoana de Letras e me impossibilitou completamente de participar do jogo Mafia Wars no Facebook, substituto do Orkut que, diga-se de passagem, está às moscas cibernéticas com centenas de recados sem responder além de fóruns de comunidades abandonados. E também não dá pra esquecer que não consegui fazer exercícios físicos, na verdade, bicicleta ergométrica sobre a qual pedalo enquanto devoro os romances que morro de vontade de ler mas que, como não são úteis para o trabalho ou para a prova de seleção para o doutorado que farei no fim do ano e nunca conseguem alcançar o primeiro lugar da fila para que eu possa saboreá-los, ficam juntando poeira na minha estante. Estante essa que está desorganizada, acumulando, além de poeira, os outros livros sobre os assuntos que me interessam ardentemente, os quais compro na esperança de um dia, quem sabe, poder pelo menos folhea-los. Compro os livros e, porque sempre estou atrasada para alguma coisa, os jogo de maneira apressada sobre essa estante que está esperando o dia em que conseguirei colocá-la em ordem. Nesse dia me lembrarei, mais uma vez, das tantas coisas que eu gostaria de aprender, estudar, construir, fazer, sem ter a mínima chance de sequer começar. E como é possível que tenha pessoas ao meu lado que conseguem ser melhores do que eu?!!!

É simples: não conseguem! O que acontece é que vejo o que elas executam, mas não tenho ideia do que elas gostariam de fazer, entretanto, não fazem. Só vejo as realizações e elas são muitas. Mas estou certa de que eu e todas essas pessoas mergulhamos constantemente a cabeça nas águas profundas da tristeza e da melancolia para observarmos de longe a imensidão do iceberg de desejos submerso sob um mar de falta de tempo. Com isso, não nos damos conta da pontinha desse iceberg de realizações que fica à luz do dia, para deleite, não nosso, mas dos demais, tão ocupados estamos em nos culpar e nos martirizar pelo que NÃO fizemos, pelo que NÃO conseguimos atingir ou realizar...

Escuto constantemente a seguinte frase: eu não sei onde você acha tempo pra fazer tudo o que faz! Sempre que escuto isso eu penso: Tudo o que? Eu não faço nem um terço do que deveria, isso sem contar que não faço nem um décimo do que gostaria! Estou constantemente em atraso e em dívida com os outros, comigo mesma, com minhas obrigações e, principalmente, com minhas vontades. E ainda tenho de conviver com pessoas que conseguem fazer as tais coisas que eu gostaria ou deveria! Que afronta!

Será que sou só eu que tenho vontade de urrar histericamente: PAREM ESSE MUNDO QUE EU QUERO DESCER!!!!!!?

O que eu acho é que a gente tinha de mudar o ponto de vista. Não somos nós que não estamos fazendo todas as coisas que deveríamos ou gostaríamos. São as coisas que, por conta dos respingos líquidos de nossas lágrimas, estão se multiplicando como Gremlins que ficam ali no calabouço escuro da nossa culpa, pulando diante de nós e dizendo: Eu primeiro! Eu primeiro! Eu primeiro! E a gente olha abobado de um Gremlin pra outro sem saber por onde começar, dando conta de um, mas percebendo que surgiram três outros logo ao lado... Esses são os do mal. Os bichinhos do bem, os fofinhos e bonitinhos que não comeram depois da meia-noite, portanto, não arruinaram a dieta, aqueles que representam nossas vontades, nossa diversão e nosso prazer, esses ficam se multiplicando loucamente à distância, cada vez mais à distância, sem que a gente tenha a menor chance de chegar até eles porque temos um mar de Gremlins carrancudos, com os dentes à mostra e com etiquetas nas testas que dizem: Trabalho, Saúde, Manter-se informado, Estar em dia com as notícias econômicas, políticas, culturais e sociais, Atualizar o currículo, Fazer uma pós, Fazer uma certificação profissional, Aprender o quarto idioma, Limpar a caixa postal de emails, Fazer caridade, Cuidar dos filhos, Cuidar do corpo, Estar na moda, Ler Crepúsculo, Seguir o Twitter, Entrar no Facebook...

Vivemos uma época cruel em que a diversão, os prazeres e a liberdade estão todos expostos sobre uma linda mesa, decorados e apetitosos, iluminados por raios laser, cercados de sereias que cantam: Venha, tudo é possível, tudo está à sua disposição! Você pode tudo! O mundo é seu! As oportunidades estão aqui, sobre essa mesa, tudo é tão fácil. Você só não aproveita se não quiser... Só que estamos a centímetros de alcançar a tal mesa, as mãos e a cabeça livres, mas os pés presos às imensas bolas de ferro das nossas obrigações. As reais e aquelas que nos impomos por pressão nossa e do resto do mundo. Se todo mundo faz, então nós também temos de fazer, saber, ler, compreender, participar... Trabalhamos e corremos feito loucos uma vida inteira para nos livrarmos dessas bolas, pensando que quando chegarmos à aposentadoria poderemos, enfim, atingir a tal mesa para nos fartar e fazer o que quisermos do nosso tempo. Mas estou perdendo as esperanças... Quando observo meus pais, meus tios e outras pessoas aposentadas ao meu redor e vejo o quanto elas correm de um lado para o outro, sem chance de dar atenção a todas as suas obrigações nem de atender a pelo menos parte dos seus desejos...

E assim seguimos todos jogados de um lado para o outro, arrastados pelos pés, chicoteados no meio do turbilhão...

Se eu sei o que fazer pra sair dessa? É evidente que não tenho a menor ideia! Se soubesse o que fazer escreveria um livro pra dar essa receita ao resto do mundo. Provavelmente, passaria o resto dos meus dias dando palestras por aí, entrando e saindo de aviões, acordando cada dia numa cama de hotel diferente, sem o menor tempo de simplesmente... viver!

Olha, mesmo se eu descobrir como fazer pra fugir dessa armadilha, não volto aqui pra contar. Embora eu suspeite que escapar é impossível! O Belchior tentou e não é que foram encontrar o coitado escondido numa aldeia de dois mil e poucos habitantes? Não tem saída! Até mesmo eu, uma eterna, renitente e inconformada otimista, estou tendo de admitir que não há nada mais sábio do que outro ditado popular repetido pela antiga ministra: esse estupro é mesmo inevitável, o negócio é relaxar e gozar. Completando a série de lugares-comuns, vou mandar tudo o mais para o inferno (como cantou, mas agora renega, Roberto Carlos), dizimar meus Gremlins expondo-os à luz do sol e me abraçar a meus queridos filósofos hedonistas que diziam que a vida é pra ser vivida com prazer! Todo o resto é que não tem importância.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Dom Casmurro em três microversões

Tiago F. Moralles, do blog Penates, lançou essa semana uma iniciativa genial: como seriam contados os clássicos da literatura em microversões? Intrigada por essa estimulante possibilidade, aticei meus neurônios para recontar algum clássico cujo enredo e estilo eu já conhecesse, uma vez que não teria tempo de reler nenhum nesta semana.

Imaginei três microversões para o romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, meu ídolo desde a juventude. Como eu disse, procurei um livro cujo enredo eu conhecesse o suficiente para poder ser recontado de memória. Penso mesmo que recontar uma história qualquer depois de ter lido há um certo tempo é até melhor. Concentra somente no essencial.

Já expliquei por aqui que concisão não é o meu forte. Disse também que indecisão é quase meu sobrenome e ter de escolher um enfoque para deixar outro de lado é praticamente uma tortura. Então escrevi três versões, cada uma colocando em relevo um aspecto do romance que foi marcante para mim nas várias leituras que fiz no todo ou em parte, e também na recente adaptação para televisão à qual assisti.

A primeira é aquela que evidencia a dúvida e que relembra uma das características marcantes de Capitu:
Pasme, leitor: cismou que a ressaca daquele olhar teria arrastado também o amigo. Acabou por naufragar solitário. Roído por ciúme e dúvida.
A segunda, sugere que Bentinho e Capitu tinham tudo para serem felizes, mas a dúvida que ele não quis esclarecer foi o que, na realidade, causou o drama.
Seria feliz junto ao amor de infância, mas acreditou ver o amigo mover-se no corpo do filho. Acabou por morrer só. Consumido pela dúvida.
A terceira é mais uma pergunta retórica do que especialmente a história recontada. Uma invencionisse da minha parte. É que tenho minhas dúvidas se Bentinho sofria pela traição presumida de Capitu ou porque isso teria acontecido com seu melhor amigo. Tenho cá com meus botões que se ele suspeitasse de um outro homem qualquer, talvez o drama não tivesse ocorrido.
Pondere comigo, dileto leitor: teria ele igualmente sofrido e feito sofrer se a suspeita não recaísse sobre o amigo de infância? Mistério...
Em outras (e vulgares) palavras: será que a dor de corno é maior dependendo da identidade do safado que meteu um chapéu de vaca na cabeça do vivente? Só Machado mesmo pra explicar essa...

sábado, 15 de agosto de 2009

Realmente, incomodada ficava minha avó!

Meninos, fora! Vão pra lá brincar com seus carrinhos porque o que vai rolar por aqui hoje é um papo mulherzinha. Portanto, rua! Xô, xô, todo mundo!

Já foram? Então tá... O negócio agora é entre nós, mulherada. Peguem seus banquinhos, puxem o fio do tricô e vamos trocar umas ideias...

Quando eu passei a ter intimidade com eles, não sabia que eram ainda tão recentes no convívio feminino. Confesso que cheguei a experimentar aqueles que a gente não conseguia manter presos. Eles tinham umas pontas soltas, estranhas, que avançavam na frente e atrás e não eram nadinha discretos! Todas conviveríamos alguns dias com eles de tempos em tempos, quando desenvolveríamos estratégias mirabolantes pra disfarçá-los. Só que, fatalmente, um dia passaríamos pelo aperto de ser pegas de surpresa, ou ficar longe de casa mais do que prevíamos, ou perceber que eles tinham mudado de lugar. Aí aconteceria o inevitável e constrangedor acidente. Novas estratégias, mais mirabolantes ainda pra voltar o mais rápido possível pra casa se esgueirando pelos cantos e becos escuros, rezando e revendo mentalmente o filme das últimas horas vividas, na tentativa desesperada de lembrar com quem nos encontramos, pra saber de quem nos despedimos, para quem viramos as costas ou sobre o que estivemos sentadas ou apoiadas e avaliar, dessa forma, a extensão do estrago.

Mas... o que é isso? Saí pra lá, moleque! Quanta curiosidade! Isso aqui é conversa de mulher, já disse!

Esses homens... Dariam tudo pra entender nossa relação tão íntima, misteriosa e absolutamente impossível de ser reproduzida no mundo masculino com eles: os absorventes!

Como disse, nasci num mundo em que esse grande invento da humanidade não só existia como era corriqueiro. Ouvi histórias sussurradas e entrecortadas aqui e ali sobre um tempo incivilizado no qual eles não tinham sido inventados. Histórias de terror absoluto que falavam em toalhinhas higiênicas. Simplesmente não consigo imaginar esse tormento...

Parênteses: preciso rever imediatamente os filmes de náufragos em ilhas desertas! Nunca assisti Lost, mas duvido que eles digam como aquelas mulheres fazem quando estão naqueles dias. Fim do parênteses.

Só que, lentamente, meu universo foi se modificando e hoje me encontro absolutamente perdida diante de uma prateleira de absorventes. Sou uma libriana típica e convicta, gente, isso não se faz! Colocar cinquenta e duas opções diferentes diante de um libriano e dizer Agora decide! é quase uma sentença de paralisia!

Se eu voltar no tempo revejo comerciais de TV que desfilam diante dos meus olhos. O primeiro deles é do Modess, palavra que serviu por um tempo como exemplo da marca que vira substantivo, do mesmo jeito que aconteceu com xerox, gilete, chicletes e tantas outras. Mas nesse caso o tempo fez evoluir o vocábulo e hoje nem sei se o saudoso Modess ainda existe.

Saudoso, sim! Pelo menos eu não tinha que pensar. Era ele e pronto, sem muitas reflexões. O máximo era decidir entre o modelo inicial e sua evolução. O primeiro era aquele com as tais pontas soltas na frente e atrás, que eu nunca entendi bem pra que funcionavam até ouvir a propaganda do novo Modess com tiras adesivas que, segundo o reclame, dispensava o uso de cintas ou presilhas. Cintas? Era pra usar uma cinta elástica com aquilo? Até é uma boa idéia considerando que, em tempo de regras, a regra é ficar com um barrigão inchado de dar raiva! Se não fosse cinta, então era presilha? Presilha de cabelo, tipo tic-tac? Como é que se prendia isso? E se o tic-tac pegasse onde não devia, tipo a pele ou um pelinho? Ui!!! Talvez presilha fosse um eufemismo para alfinete. Ai!!! Espetada de alfinete dói em qualquer parte, imaginem... ! Que horror! Felizmente vivi pouquíssimo tempo essa coisa das pontas soltas...

Quando surgiu o Modess com tiras adesivas seguido de outras marcas igualmente pegajosas (no bom sentido), uma das propagandas mostrava uma mocinha com um short branco e mínimo (para os padrões da época, é claro) e vinha a frase: incomodada ficava sua avó!

Propaganda enganosa, é óvbio. Sorte deles que na época não existia Procon. Tudo bem que o negócio não se mexia mais, mas tinha o tamanho de um talão de cheques e a espessura de uma Bíblia. Nem pensar em usar um shortinho minúsculo e, ainda por cima, branco! Vazamentos laterais, frontais ou traseiros eram líquidos, literalmente, e certos e a gente continuava apelando para as calças e saias pretas nesses dias.

Nova passagem do tempo. Vislumbro outro comercial, aquele que deu origem à quantidade absurda de opções que temos hoje e que deixa essa pobre libriana que vos escreve aturdida, abobalhada, incapaz de decidir.

Foi a vez do Sempre Livre Mini e a propaganda mostrava dois daqueles tijolões bem no centro de uma mesa. Em seguida, uma mulher colocava dois Sempre Livre Mini antes e três depois deles dizendo: para quando seus dias estão chegando, ou indo embora.

A ideia foi boa, não estou reclamando. Realmente, no começo, mas principalmente no finzinho, eu achava um verdadeiro desperdício jogar aquele tijolão fora com uma sujeirinha de nada no meio. Então os mini foram muito bem vindos.

Depois deles houve só mais uma inovação, essa sim pra lá de super-mega-maravilhosa. Estou falando das abas! Como somos mocinhas comportadas e cruzamos as pernas ao sentar, fatalmente espremíamos o absorvente que ia, mas não vinha, e lá estava criado o ambiente perfeito para os vazamentos laterais. As geniais abas acabaram com isso!

Ah! As abas! Maravilhosas abas que protegem como asas angelicais o elástico das nossas calcinhas. Depois das abas eu nunca mais tive de ordenhar os tais elásticos! O elástico, vocês sabem, é espesso e não poderia ser diferente. Vocês também não sofriam esfregando, enxaguando, olhando e achando que estava ótimo, para então dar uma última espremida no elástico e descobrir, desanimada, que tinha sobrado alguma coisa? Não era uma verdadeira ordenha? Minha vida é outra depois das abas... Mas podia ter parado aí!

Quer dizer, vou dar uma chance pros noturnos... Tenho de admitir que o noturno é tudo de bom. Quem de vocês nunca passou pela saia justa de ir dormir na casa de uma amiga, tia, avó, sei lá, e, ao acordar, ver terrificada aquela roda de sangue no lençol, colchão e tudo o mais? Eu passei por essa e minha amiga Alessandra vai se lembrar. Eu, pelo menos, não me esqueço. Que situação! Eu mal tinha saído da infância e abandonado os colchões plastificados por causa do xixi, não queria ter de pedir de novo um colchão barulhento por causa de um sangue impertinente. Desenvolvi minhas próprias táticas de guerra, todas abandonadas com o advento dos absorventes noturnos.

O mundo, por mim, podia ter parado ficado assim: mini, normal, noturno, todos com abas. Mais a versão sem abas dos dois primeiros, para aqueles dias em que a gente vai fazer massagem ou depilação... É meio chato absorvente com abas quando estaremos seminuas em semipúblico, não?

Bem, para ser absolutamente honesta, tem ainda o protetor diário, outra ideia interessante, embora eu continue a não entender uma das primeiras propagandas do Carefree e que circula, com algumas modificações, até hoje. A moça dizia: com ele eu tenho a sensação de estar sempre usando uma calcinha que acabei de tirar da gaveta.

Alguém pode me explicar? Se a gente usa o absorvente junto com a calcinha, no final do período ele estará tão imprestável quanto ela. Se fica trocando de hora em hora vai à falência e ainda leva o lixo urbano ao caos. Apesar desse senão da propaganda, eles são úteis, não há como negar.

Por fim, vem aquele que causa inveja, ciúme e, provavelmente, um certo frisson na macharada: o absorvente interno.

O pobre Príncipe Charles foi pego com a mão na cumbuca quando veio a público a comunicação proibida com a sua, na época, amante, Camila Parker Bowles, em que ele afirmava: queria ser o seu Tampax. Credo! E ela ainda está com ele? Fetiche puro! Será que algum dos rapazes que mandamos passear já se esquivou sorrateiramente para um banheiro, a fim de analisar escondido o conteúdo assustador e excitante de uma caixinha de O.B.? Aliás, que nome é esse? Tampax até dá pra fazer alguma associação, mas O.B.? OBstrução? Ofirício Bloqueado? O Buraco tá fechado? Esquisito, não?

Esse moçoilo deve ter ficado com uma certa inveja se, desavisadamente, fez pesquisas exploratórias com um Tampax super com aplicador. Aquele aplicador é realmente qualquer coisa de... fálico! Mas como é prático e higiênico...

Que os meninos fiquem lá com suas fantasias e que não nos escutem, mas não existe nada de menos excitante ou estimulante do que um absorvente interno. Pensamos em tudo na hora de colocar um deles, menos naquilo. A gente está inchada, irritada, com cólica, dor no seio, dor nas costas, dor de cabeça, vontade de chorar, de comer chocolate, numa posição estranha, num banheiro gelado... Definitivamente, nada pode combinar menos com clima de sedução do que absorvente interno. Nada! Talvez somente se compare em desconforto e constrangimento o exame ginecológico, a ecografia transvaginal e o exame de toque na gravidez. Vamos combinar que o Criador não foi muito camarada com a gente, né?

Resumindo: mini e normal, com e sem abas. Noturno, protetor diário, interno (com suas variações mini, médio e super). Estava bom, não estava? Mas não! Esse mercado consumista queria mais! E agora a gente chega na farmácia e tem de levar um banquinho e uma mesinha para consultar brochuras e poder decidir entre as opções anteriores e ainda: cobertura seca ou suave? Qual é a diferença, céus! Se a cobertura é suave então você não fica seca? E se é seca, então não é suave? O que significa não ser suave? É porque arranha? Sai pra lá!

E isso não é tudo! Tem gotinhas no pacote e o número de gotinhas vai de duas a quatro. Isso quer dizer que eu tenho de comprar um pacotinho de cada e, depois, fazer uma planilha de cálculos de fluxo e de horários pra saber quando passo de um pro outro? E que absurdo é esse de absorvente pra usar com calcinha fio dental? Com e sem abas, diga-se de passagem! Acho particularmente inútil usar absorvente com calcinha fio dental. Pra mim são incompatíveis, e deve ser por isso que nesse tipo de embalagem está escrito Teen. Quer dizer, ainda por cima, estão me chamando de velha!!! O que penso é que com esse tipo de calcinha usa-se logo um absorvente interno, não é? Já que é pra entrar mesmo, então que entre tudo de uma vez, em todos os lugares!

E até na tranquilidade e simplicidade dos absorventes internos acharam um jeito de complicar a coisa. Tinha com e sem aplicador. Agora tem o aplicador extensível. Passei pelo desespero de inutilizar dois absorventes internos antes de conseguir entender o funcionamento deles. E isso só aconteceu depois de ler o manual de instruções que veio na caixinha. Agora imaginem o ridículo da situação: eu estava num banheiro de livraria, tentando usar um absorvente interno para dar conta de uma intrusa que veio antes da hora, de mau humor, numa outra cidade para a qual eu tinha ido numa viagem do tipo bate e volta. Isso quer dizer que tinha rodado a noite inteira, passaria o dia andando na cidade e viajaria novamente a noite toda, ou seja, a perspectiva ou possibilidade de um banho era longínqua. Além disso, tinha todas as sensações ruins de início de menstruação e era obrigada a ler manual de instruções! Tudo bem que eu estava numa livraria mas, ora, faça-me o favor!

Esses dias não achei minha marca preferida com aquele aplicador simples e óbvio. Tive de comprar outra marca. Ao abrir a caixinha, descobri que todos são embaladinhos individualmente com plásticos em alegres e exuberantes cores bem vivas. Pra que isso? Pra disfarçar e parecer balinha dentro da bolsa? Pra combinar com a roupa? Ela será fatalmente preta! Ou será que sou só eu que não confio nem mesmo na eficiência das abas e não arrisco jamais uma roupa clara nesses dias?

Ah não! Nem imagino a possibilidade de retornar às impossíveis toalhinhas higiênicas, mas evolução tem limite. Quero de volta a simplicidade dos tempos intermediários. Já estou a ponto de me sentir minha própria avó e ficar como ela: incomodada. E, ainda por cima, completamente perdida!

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Criança é feita de poesia

Em tempos de vírus à solta, ficamos nós, humanos, presos em casa. Mas num sábado de sol e temperatura amena, arriscamos uma saidinha meteórica até a loja de materiais de construção. Passeio em família, quem diria!

Lojas grandes ficam na periferia das cidades. E Curitiba já é uma metrópole, vejam vocês. Mesmo distante, encontramos a loja com razoável facilidade. É preciso lembrar que no caminho passamos por dentro de uma favela sem querer, o que gerou momentos de certa angústia e tensão, somente quebradas pelo nosso pasmo ao ouvir a pergunta das crianças:

- Nós saímos de Curitiba?

Meus filhos conhecem pouquíssimo da cidade onde moram e nunca haviam visitado nem de longe, muito menos de perto, uma favela.

Não tive muito tempo para filosofar a respeito da diferença de cidade que existe dentro da minha cabeça e dentro da cabeça deles porque, enfim, encontramos a loja. Só que estávamos do lado errado da enorme e larga avenida em que ela fica. E, só pra conseguir mudar de pista, andamos uns 15Km pela rodovia em direção a São Paulo! Eu já estava pensando que ia encontrar mais fácil a filial da marginal Pinheiros do que conseguir passar para o outro lado da BR em reforma, mas não, depois de idas, vindas, retornos, contornos, assopros, bufadas, xingamentos e altercações, conseguimos voltar os vários kilômetros percorridos além da conta.

Enquanto isso, as crianças no banco de trás, completamente alheias aos pais à beira do mau humor nos bancos da frente, iam observando o que para eles era total novidade: a cidade em que moram e as grandes empresas que se instalam ao longo de uma BR. Tudo era motivo de exclamação.

Foi nesse momento que a Ana Luíza viu uma indústria que soltava uma grande quantidade de fumaça branca pela chaminé e gritou, maravilhada:

- Olha!!! Uma fábrica de nuvem!

Como é bom ter cinco anos...

sábado, 1 de agosto de 2009

O primeiro a gente não tem como esquecer!

As insônias servem pra alguma coisa...
Como anunciado, aí está minha primeira saga em 140 caracteres, meu primeiro microconto!

Conheceram-se no Orkut. Namoraram no MSN. Gritaram ao mundo seu amor no Youtube. Na hora do sexo, desistiram. Faltavam o teclado e o mouse.

Apesar da chuva lá fora, estou feliz! Superar desafios faz qualquer dia ficar lindo...

Chamem o carteiro!

Mais um selinho que recebi há um tempão e que ainda não tinha agradecido!
Foi dado pela Elisandra, obrigada!!!

Mantendo minha atitude estraga prazeres, não vou dar continuidade indicando blogs, postando as regras... Sou uma nulidade pra isso como já tive a oportunidade de dizer.

Mas fico contente demais com as demonstrações!

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Deu a louca no zoológico!

Estou tentando com todas as minhas forças! Meditação, mantras, respiração profunda... Mas está cada vez mais difícil não entrar na histeria neurótica e coletiva dessa nova-velha gripe.

Já pensei de tudo!

Comecei por observar que há um único medicamento, criado por um único laboratório, cujos donos devem estar rindo à toa sobre as lágrimas dos que perderam alguém da família. Os fabricantes de máscaras e álcool também devem andar contentinhos. Logo, logo aqueles que vencerem a corrida frenética pela fabricação da vacina estarão vivendo de rir também. Morrendo, por enquanto, só a população mesmo.

Estranho é que há doenças bem mais antigas no mundo que dizimam uma quantidade de pessoas bem maior, porém, para elas não existem contadores de vítimas em tempo real nos jornais e sites afora. Mesmo porque tais contadores girariam numa velocidade incrível! O fato de essas doenças matarem um monte de pessoas nos países que não tem dinheiro para comprar remédio para todos ou fazer vacinação em massa deve ser só uma coincidência. Ou não?

Ontem, conversando com minha diarista, ouvi uma sábia observação da parte dela: primeiro foi a vaca louca, depois a gripe aviária e agora a gripe suína! Eu me pergunto: o que virá em seguida? A diarréia do peixe? Confesso que também me passou pela cabeça a idéia de que são os vegetarianos que estão por trás de tudo isso! Covardia!

O fato é que ninguém, muito menos eu, quer pagar pra ver se é ou não exagero dos arautos do apocalipse. Esse povinho nunca perde a oportunidade de gritar em alto e bom som todas as desgraças possíveis, imagináveis e também inimagináveis. Tem gente que sente prazer em anunciar, prever e, depois, ver confirmadas suas suposições de fim de mundo. Esses estão com os olhos arregalados por fora, mas certamente gargalhando por dentro nesse momento. Tem (mau) gosto pra tudo...

Como eu disse no início, estou tentando me manter imune aos exageros. Aliás, imune é exatamente a palavra a ser empregada. Não dá pra se instalar confortavelmente dentro de uma bolha asseptizada até essa loucura passar. Então, estou investindo aqui em casa no que há de mais eficaz contra um vírus: a imunidade de cada um. Uma pesquisinha rápida no Google me contou que os alimentos que ajudam a aumentar a imunidade são: iogurte, shitake, alho, cenoura e tudo o que contém zinco (carnes vermelhas, peixes, sementes, grãos, castanhas...). Corpos saudáveis tem as defesas necessárias e mais do que suficientes para enfrentar invasores.

A saúde entra pela boca. A doença procura outros buracos, tipo os ouvidos que escutam aqueles que se comprazem em aterrorizar, ou os olhos que leem aqueles que querem aumentar os lucros astronomicamente e de qualquer jeito. Esses buracos eu tenho mantido protegidos. Para os vírus estou preparando minhas armas no fogão.

E vamos ver quem vencerá essa parada!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Quando poucas palavras valem por milhões de idéias

Eu escrevo demais. Também falo demais. São fatos inegáveis. Escrevo demais nos posts deste blog, assim como meus e-mails são kilométricos, meus SMS são quase literários e, às vezes, comentários em outros blogs podem ser lidos em capítulos. Até secretária eletrônica já desligou na minha cara deixado bem claro que eu falo demais. Sou assim, o que fazer?

Mas sou também uma criatura que tenta evoluir e descobri, há algum tempo, que tem gente que consegue escrever minicontos. Histórias que não passam de 600 caracteres. Desde que soube disso, passei a colocar como objetivo de vida a ideia de escrever histórias inteiras em não mais do que 600 caracteres. Parecia impossível! Até que um dia experimentei e... consegui! De vez em quando lançarei por aqui esses minicontos, verdadeiros exercícios dolorosos de concisão!

Não vou abandonar meu exagero de letrinhas jamais! Deixaria de ser eu mesma. Mas é bom poder transitar por vários estilos...

Estava absolutamente feliz com minha vitória particular, quando descobri recentemente que há autores de microcontos! Isso quer dizer histórias inteiras contadas em apenas 140 caracteres!!!

Eu que achava que tinha atingido o máximo da economia me descobri ainda há centenas de caracteres de distância do meu Nirvana pessoal. Sofro de excesso de caracteres da mesma forma que, nesse exato momento, sofro de excesso de peso por conta do excesso de calorias que andei ingerindo! Céus!

Pelo menos meus minicontos chegaram, não sei ainda se para ficar, mas chegaram.

Aí vai o primeiro deles:
O elevador abriu suas portas. Eles se encararam e entraram. Ela recordou os momentos da noite anterior e sorriu levemente. A luz vermelha do painel luminoso mostrou... 1. Ele imaginou o jantar de logo mais e sentiu um frio na barriga... 2... Os olhos dela eram profundamente azuis... 3... Os dele, desconcertantemente negros... 4... Ele suspirou profundamente... 5... A porta do elevador se abriu e mostrou o felpudo tapete vermelho do corredor do hotel. Ele saiu sem olhar para trás. Dentro do elevador, ela ainda sorria levemente...

domingo, 19 de julho de 2009

O curioso caso de Michael Button

Sei que já falei sobre isso. Mas, eu que achei que os comentários sobre o Michael Jackson logo seriam substituídos por outro assunto do momento, me enganei! O mundo anda desprovido de novidades...

O que estou vendo é que, definitivamente, decidiram transformar em lenda vida e morte do astro do pop e estão conseguindo. A família e, principalmente, os credores devem ter uma acessoria de marketing especializada, cujo único objetivo é o de imaginar golpes de mídia capazes de aumentar ainda mais astronomicamente as vendas de tudo o que se refere a ele. Fazem isso pra saldar as dívidas que ficaram ou para enriquecer ainda mais? Nem o futuro dirá. Transformarão isso também em lenda. Então vale tudo: desde vídeos e músicas inéditas até cérebros retirados, corpos desaparecidos e não enterrados, caixões de bronze... Lamentável esse circo todo. Circo promovido pelos que continuam vivos, claro. Bem vivos, diga-se de passagem.

Quanto ao Michael Jackson, onde quer que esteja, que não consiga tomar conhecimento do que se passa por aqui. Que possa descansar pelo menos na morte, já que em vida...

Como o assunto não sai das manchetes, não pude deixar de continuar a pensar nisso. E quando eu penso idéias estranhas podem me ocorrer. A última delas é que o Michael Jackson talvez tenha sido a encarnação real do personagem imaginado por F. Scott Fitzgerald que inspirou o conto, recentemente transformado em filme, chamado O curioso caso de Benjamin Button. Nessa intrigante história o protagonista, na versão cinematográfica interpretado pelo Brad Pitt, nasce velho e morre bebê. Não foi o que aconteceu com Michael Jackson? Parecia um adulto responsável aos oito anos de idade. Ali pelo meio da sua curta existência atingiu a maturidade com a gravação de Thriller. A partir de então foi se infantilizando lenta e progressivamente até chegar ao fim da vida brincando de escorregador e pistola d'água num imenso parque de diversões. Seu maior sucesso, Thriller, coincide com seu auge físico, moral, artístico e, ironicamente, parece prenunciar o horror em que sua vida se transformaria dali por diante com todas as doenças, acusações, processos, dívidas e por aí vai. A diferença entre o Button personagem de ficção e o Button da vida real é que o primeiro viveu mais tempo e foi mais feliz, apesar de tudo.

Como mostram esses casos imaginário e real, engana-se redondamente quem pensa que seria muito melhor ir rejuvenescendo à medida em que o tempo passa. O Criador sabe das coisas! Nascer novinho e morrer velhinho, eis a sabedoria da vida. Minhas reflexões poderiam provocar a ira de cirurgiões plásticos e centros de estética, mas felizmente esse humilde blog não tem alcance pra tanto, então tenho a certeza de que envelhecerei tranquilamente no meu cantinho, feliz da vida. E da morte.

Eu disse que quando penso demais, coisa boa não sai, não disse? Acho que estou precisando de férias...

Na verdade, boa notícia: ESTOU de férias! Neste exato momento estou longe de casa, dos filhos, das bagunças. Friozinho do lado de fora e aquecimento do lado de dentro (gripe suína rondando, mas tudo bem). Relógio sem pilha e nenhum compromisso à vista. Perto da internet e morrendo de vontade de atualizar freneticamente esse blog! Será que conseguirei? Aguardem os próximos dias. Não postarei mais sandices como a de hoje, prometo!

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Os louros que chegam de repente

Esse mundo dos blogs é genial! Tenho aumentado consideravelmente minha lista de amigos e contatos, o que significa que estou também aumentando a minha lista de credores! Eu sempre estou devendo alguma coisa para alguém: de dinheiro a telefonema, de email a resposta de comentário! Não sei mesmo se um dia conseguirei pagar tudo (aqueles aos quais devo dinheiro devem ter sofrido agora mesmo uma crise cardíaca, mas esses podem ficar sossegados! Só que não adianta me mandar a conta do cardiologista por causa do ataque porque aí não vai dar).

Faz parte da amizade entre blogueiros a atribuição de selos ou prêmios. Alguém recebe um selo e deve indicar outros blogs aos quais atribui o selo e assim por diante. Eu já ganhei selos!!! Mas sou uma perdida, cheia de coisas, sempre atrasada e acabei deixando de mencionar aqui essas importantes demonstrações de reconhecimento! Sou atrapalhadinha, gente. Lerdinha, demorada. Só que devagar, mas beeeem devagar mesmo, vou retribuindo!

Então aqui vão os importantíssimos selos que ganhei!

Primeiro vieram aqueles da minha amiga Mariane :


Há algumas semanas foi a vez da Cristine me supreender com a atribuição deste selo:


A brincadeira completa inclui eu explicar os selos, dizer algumas coisas sobre mim e indicar outros blogs. Só que manterei minha conduta antiesportiva e não vou fazer isso...

Sobre mim eu falo aqui sempre :-)

E quanto aos indicados, como boa libriana simplesmente não conseguiria indicar apenas seis blogs! Aliás, é exatamente por ser incapaz de indicar um blog e deixar outro de fora que estou há meses pra retribuir essa supresa tão agradável! Então vai de um jeito simplinho e meio incompleto, mas muito feliz: obrigada pelo reconhecimento! Vocês sabem como fazer pra deixar o meu dia melhor!

sábado, 27 de junho de 2009

Nem black, nem white. O mundo hoje é grey.

Em milhões de blogs e sites no mundo apareceram textos falando da morte do Michael Jackson. Não quero copiar os outros, nem tenho nada de novo a acrescentar, nem vou fazer considerações originais. Apenas vivo uma época em que posso compartilhar com o mundo, instantaneamente, um sentimento que é geral e assim me consolar um pouco. O mundo todo hoje é uma cidade do interior. A diferença é que as comadres que conversavam de uma janela a outra foram substituídas pelos blogueiros que espalham as notícias de um post a outro.

Como o resto do planeta, estou triste. Tenho uma sensação esquisita dentro do peito que combinou perfeitamente com o dia chuvoso, frio e cinzento que tivemos em Curitiba. Estou triste porque morreu uma porção de coisas ao mesmo tempo...

Em primeiro lugar, morreu uma pessoa, o que em si não tem nada de antinatural. A morte nem foi trágica, não foi assassinato, nem acidente espetacular, nem em circunstâncias escandalosas. Pode ser que descubram que o médico tenha exagerado na dose do analgésico, mas há anos sabia-se que ele tomava analgésicos em excesso e nem eram remédios proibidos. Portanto, foi uma morte de um organismo que chegou ao seu fim, quase que naturalmente. Temos hoje tantos recursos pra prolongar a vida que nos esquecemos de que ela vai ter de acabar um dia. De qualquer forma, morreu uma pessoa, um pai, que deixou filhos, que deixou família, que deixou amigos e essas pessoas devem estar muito abaladas por essa perda tão súbita.

Mas, se no início fiquei triste pelo ser humano, com o passar das horas e com a overdose de reportagens na TV, fui vendo nele uma série de coisas que nunca tinha visto e que foram, pouco a pouco, estendendo minha tristeza a outras áreas. É como se o mundo ao meu redor fosse se vestindo de cinza, perdendo a cor e o contraste.

Que dor imensa era essa que ele carregava, que não tinha analgésico capaz de aliviar? E que capacidade de transformação gigantesca! Onde ele encontrava força e energia para deixar de ser aquele homem magro que falava num fio de voz infantil para explodir em vitalidade quando cantava e dançava? A pessoa que andava não era a mesma que subia aos palcos. Não consigo nem imaginar o quanto devia ser dolorosa essa transformação e o quanto deveria ser dispendiosa em energia essa busca de vida onde a vida parecia não ter lugar.

Tanto se disse sobre o fato de ele ter embranquecido com o tempo. Agora penso se não estava simplesmente se desmaterializando devagar, ficando transparente, até terminar por desaparecer por completo anteontem.

Também muito se comentou a transformação de sua aparência ao longo da sua curta vida. E só agora percebi que além da cor da pele e do cabelo, uma coisa que mudou de maneira radical foi seu nariz. Era um nariz largo e redondinho na infância, mas foi sendo diminuído em cirurgias sucessivas até praticamente deixar de existir. As narinas estavam quase fechadas, não passavam de duas fendas muito estreitas. O nariz é a nossa invasão no mundo. É o que sai do plano do rosto, é o que chega primeiro. Diminuí-lo daquela maneira parecia ser uma vontade de não chegar, não invadir ou, quem sabe, uma forma de frear a velocidade daquela existência de extremos. Mas, principalmente, é pelo nariz que entra o ar, que entra a vida, o sopro da vida! Fechar as narinas é quase impedir que essa vida penetre no corpo. Acredito que ele começou a morrer na primeira cirurgia plástica a que se submeteu para tentar fazer desaparecer seu próprio nariz.

Perceber tudo isso em Michael Jackson me deixou duplamente triste. Triste pela sua morte, mas triste também pela sua vida. Ele teve tudo e, ao mesmo tempo, nada. Teve o dinheiro, a fama, o reconhecimento, o amor de milhares de pessoas pelo mundo. Mas fora daquele palco onde mostrava plenamente sua vida, ele parecia ser apenas uma sombra de si mesmo. E é desalentador pensar que toda a admiração de milhões e milhões de fãs por todo canto não conseguiu aplacar aquelas dores. Não pudemos retribuir a quem nos deu tanta coisa de si.

E, apesar das incoerências, excentricidades, fobias e excessos, ainda assim ele conseguiu deixar sua marca num planeta inteiro. Inclusive em mim. Hoje, no meio dessa melancolia que me acompanhou, foi impossível não pensar em mim mesma, na parte de mim que morreu com ele...

Na mesma data, morreu também a atriz Farrah Fawcet, que fez o seriado dos anos 70, As Panteras. Por causa da morte de Michael Jackson, pouco se falou dela. Mas sua imagem e, principalmente, seu corte de cabelo, estão marcados nas minhas lembranças, tanto quanto aquela gargalhada do final do clip de Thriller e outras músicas de Michael Jackson.

Portanto, além de duas pessoas pessoas, morreram também uma parte da minha infância e uma grande parte da minha adolescência. Um longo trecho da minha trilha sonora particular, hoje, ficou muda de pesar. E é sempre triste ver morrer uma parte de nós.

Que a morte tenha sido um analgésico eficaz para aplacar as dores dessas duas pessoas que estiveram tão presentes na minha vida que é como se fossem um pouco da minha própria família. Viverei meu luto cinza ainda por algum tempo. Mas esses dois voltarão a colorir minhas lembranças e marcarão eternamente meus momentos de nostalgia.

Que eles estejam em paz.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Sem teste de bafômetro e sem exame médico!

Ouvi dizer que a Igreja Católica vem perdendo fiéis nos últimos anos. Na verdade, acho que tudo é uma questão de marketing, ou melhor, de gestão. O grande problema é que a Igreja exige dos seres humanos uma perfeição e um comportamento muito difíceis de atingir, as penalidades são grandes e bem mais garantidas do que as recompensas. Em poucas palavras, a gente tem muito mais certeza de que vai encarar o chifrudo do que bater um papinho com São Pedro.

O rigor é grande demais! Para o Vaticano a gente só tem uma chance: é essa e acabou. Mesmo sem treinamento prévio, temos de fazer tudo direitinho e de primeira para ter sucesso. Difícil não desanimar, não é mesmo?

Vejamos como se passam as coisas...

Para começar, tem os sete pecados mortais, quer dizer, aqueles que, se cometidos, garantem o bilhete de primeira classe e sem escalas para o mundo das trevas. São eles: a gula... PÉÉÉÉÉÉINNNNNN!!!!! Quem nunca sucumbiu diante de uma torta de chocolate? Quantas dores de cotovelo não foram consoladas em imensos potes de sorvete? Quantas finais de campeonato não geraram vibrações ou mágoas, as primeiras, comemoradas, e as últimas, afogadas em litros de cerveja acompanhados de linguiça na brasa? Sobrou alguém na humanidade para povoar o céu? Duvido! E ainda tem a vaidade, a ira, a inveja, a preguiça, a soberba... E a luxúria, então?

Mesmo com o paliativo da confissão que nos livra do pecado e nos torna novamente puros para tocar harpas com os Serafins, desconfio que não sobra muita gente. Não sobra porque a confissão pressupõe o arrependimento como condição para absolvição, e tem situações em que é difícil acreditar em arrependimento sincero...

- Padre, perdoe porque pequei.

- Quais são as suas dívidas, minha filha.

- É aquele venho problema, Padre.

- Não vai me dizer que...

- É... isso aí...

- Quantos dessa vez?

- Vnttchh...

- Quantos?

- Vinte.

- Vinte?!

- Ai, Padre, eu sei! Sei que eu não devia. Me arrependi mesmo, de verdade. Mas é que eles eram tão... tão... lindos! E o perfume! Aquele cheiro foi invadindo minhas narinas, tomando conta do meu corpo, eu não respondia mais por mim e ...

- Tudo bem! Tudo bem! Não precisa entrar em detalhes. Mas, vinte, Maria? Em quantos dias?

- Bem, já que eu to aqui é melhor dizer tudo de uma vez, né? Foi numa tarde.

- Minha filha, assim não é possível!

- Mas Padre, eles estavam ali, olhando pra mim, me chamando. Eu não consegui resistir, ai de mim! Eu tentei me controlar. Procurei aproveitar cada segundo, fazer tudo bem devagar para ver se o primeiro já me deixava satisfeita, mas não! Foi o primeiro, o segundo, o terceiro! Achei que estava enlouquecendo, mas o prazer só aumentava até que cheguei ao vigésimo.

- E parou por quê?

- Porque só tinha vinte.

- Só?!

- Não! É bastante, eu sei. , é modo de dizer.

- E você quer me convencer de que está arrependida.

- Estou Padre, eu juro!

- Assim como estava na semana passada.

- Isso!

- E na anterior.

- É...

- E na anterior da anterior.

- ... bem ... é...

- Sinto muito, mas é difícil de acreditar!

- Prometo, Padre, prometo: nunca mais! Nunca mais vou fraquejar assim. Pode aparecer na minha frente de qualquer jeito: branco, preto, pequeno, grande, imenso... Ai... Tá, vamos deixar o imenso fora dessa promessa... Mas só se for imenso mesmo, daqueles que não cabem inteiros na...

- TUDO BEM! Já disse que não precisa entrar em detalhes!

- Desculpe.

- ...

- E então? Qual vai ser minha penitência?

- Olha, está cada vez mais difícil de acreditar na sinceridade do seu arrependimento!

- Eu sei... Foi mal...

- Eles eram do quê dessa vez?

- Cereja.

- Cereja... sei...

- Fresca.

- Fresca? Existe isso por aqui?

- Então, Padre, bombom de cereja fresca! Não dá pra resistir, dá?

- Bem, já que eram cerejas frescas vou considerar como uma espécie de... atenuante. Vão ser só cem Ave Marias.

- Valeu, Padre!

Diante desse fato, mais do que evidente, pensei o seguinte: e se a Igreja se modernizasse um pouco e estabelecesse um esquema de pontos, como aquele do Detran? Poderia ser interessante, não? Continuaria tudo como está, ou seja, uma só chance aqui na Terra, depois seria Belzebu ou Querubins, mas pelo menos teríamos uma esperança, ainda que ínfima, de chegar ao paraíso.

Nesse esquema, cada tipo de pecado geraria uma quantidade de pontos a mais na carteira, pontos esses que teriam prazo de validade...

- Padre, perdoe porque pequei.

- Quais são as suas dívidas, meu filho.

- É aquela vizinha, Padre! Ela insiste em trocar de roupa com a janela aberta! Não dá pra não pensar... naquilo!

- Ela ainda é namorada do seu amigo?

- Não! Terminaram... Parece que alguém andou mandando emails anônimos pra ela, contando uns podres dele, coitado...

- É mesmo? Não me diga!

- Ei! Eu não tenho nada a ver com isso! Só comentei com o senhor e com ele mesmo. Foi um azar eu ter feito isso na frente da Marcinha, aquela fofoqueira! Mas nem dá pra dizer que foi ela.

- Sei!

- Juro!

- Bem, sem o agravante do nono mandamento, você sabe, passam a ser só mais três pontos na sua carteirinha. Está aqui.

- Valeu!

- Espere aí! Foi só pensamento ou teve algum... hummm... ato que o acompanhou?

- Bem... Pra falar a verdade, comprei um creme depilatório, assim, só pra garantir...

- Então, meu caro João, são seis pontos!

- Mas, Padre! A carne é fraca! Assim o senhor vai me deixar no limite dos pontos!

- Compre uma cortina nova!

- Não tem uns pontinhos pra expirar aí? Dá uma olhada.

- Tem.

- Quanto tempo?

- Dois meses.

- Dois meses?!! Padre, o senhor não está me deixando nem na mão, está me deixando só no pensamento! O senhor não viu a minha vizinha, não vai dar...

- Blackout! Blackout, João!! Compre um blackout!

Ao atingir o limite, o fiel teria de passar por um cursinho, tipo catequese, para zerar a pontuação. Sem isso, nada de nuvenzinhas brancas depois. Claro que teriam os crimes sem apelação, com recolhimento imediato da carteira, anteriormente conhecidos como excomunhão. É preciso repaginar o vocabulário a fim de conquistar o público de diversas camadas.

Obviamente, é só um esboço de idéia, ainda precisariam ser trabalhados alguns detalhes, estabelecidas metas de campanha, boladas umas peças publicitárias, enfim, deixo essa parte para o setor de marketing do Vaticano. O que tenho certeza é de que isso atrairia de volta as ovelhas desgarradas, todos os fiéis perdidos para a concorrência. Bem, nem todos, para falar a verdade...

- João! Maria! Que alegria encontrar vocês!

- Padre?!!! Mas o que é que o senhor está fazendo aqui? Sai pra lá Cérbero, vai ver se eu tô na barca do Caronte, vai!

- Pois é...

- O que é o que o senhor está comendo?

- Bombom de cereja. Quer? São frescas!

- Ei! Eu tô reconhecendo essa moça aí do seu lado: é a minha vizinha!

- Pois é...

- Não vai me dizer que aquelas mensagens anônimas...

- Não! Imagine!

- E como é que logo o senhor veio parar aqui?

- Eu estava com a carteira vencida, sabem? Aqueles almoços de fim de semana... uma loucura! Me enrolei um pouco pra fazer o cursinho de reabilitação, daí a Grande Ceifadora veio de uma hora pra outra e, já viu! Vim parar aqui.

- E os bonbons, a vizinha...

- Como eu não tinha mais nada a perder mesmo, decidi me deixar levar de uma vez pelos pecados mortais. Dá uma licencinha que tá rolando um churras ali naquele caldeirão e eu tô indo pra lá. Querem vir também? O pessoal é super animado.

- Não, não, obrigado.

- Então, tá! Tô vazando! Fui!

É preciso reconhecer que, mesmo com as mudanças, o inferno não deixaria de ser um lugar cheio de gente interessante...

sábado, 20 de junho de 2009

Boa notícia!

As idéias voltaram!!!!

Mas o tempo.... Buáááááááá!

Só mais uma semana e chegam as férias... Por enquanto, só mensagens enigmáticas no Twitter.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Será que ainda existo?

O que está acontecendo comigo? Não consigo mais escrever...

Deserto das letras, talvez?

Já tentei encontrar mil razões e até mesmo essa constante busca das razões e de tentar compreender tudo e todos que me cercam está me cansando!

Sei lá...

Comecei a usar o Twitter.

Mais uma coisinha pra ocupar o que não tenho: tempo!
Um item a mais a ser abandonado no meio do caminho.
Outra ponta solta de mim por aí...

Definitivamente, acordei de mau humor hoje!

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Fale pelo seu travesseiro!

Imagine a seguinte situação: um grupo de moradores de um edifício contrata uma pessoa para representá-los nas reuniões de condomínio. Um emprego temporário, de tempos em tempos esses moradores decidem se o representante continua ou é substituído por outro. O salário dessa pessoa é pago, evidentemente, pelo grupo de moradores que o escolheu. 

O representante cumpre seu papel, isto é, comparece a quase todas as reuniões de condomínio. Mas, fora delas, age como se tivesse poderes especiais. Um dia, sai para jantar com amigos, bebe além da conta e volta para casa dirigindo a uma velocidade absurda. Acaba por causar um acidente em que duas pessoas morrem. Aparentemente, para todos os que quiseram chamá-lo à razão, tentando impedi-lo de dirigir sem ter condições para isso, ou então no hospital em que foi atendido depois do acidente, ele fez questão de lembrar que: Eu sou um representante, você está me entendendo? Um representante nas reuniões de condomínio! Como se isso fosse algo de muito especial ou condição suficiente para que ele estivesse acima de qualquer lei, de qualquer limite. 

O grupo de moradores que o escolheu está, obviamente, chocado. Mas está ainda mais chocado por descobrir que realmente esse simples representante tem prerrogativas que eles, os que os escolheram, não tem! Ele tem direito a tratamentos especiais e aqueles moradores do condomínio que o escolheram vão ter de lutar muito, e quando eu digo muito, quero dizer muito mesmo, para que esse cidadão seja julgado a fim de que a lei decida se a sua conduta merece punição e que tipo de punição será essa.

Parece um cenário surreal? Eu também acho! Mas é exatamente isso que está acontecendo nesse momento na cidade de Curitiba. Um deputado estadual causou um acidente no qual morreram dois rapazes. Não serei eu a pessoa que o julgará por esse ato, isso cabe à justiça. Mas a sociedade curitibana, em especial as famílias desses dois jovens, terá de lutar muito, com todas as suas forças, a fim de conseguir que essa pessoa, cuja função social é somente a de representar temporariamente os moradores do estado do Paraná na Assembléia Legislativa, seja levado a julgamento. Um julgamento verdadeiro e não um simulacro.

Eu não quero comentar tudo o que se disse até o momento sobre o caso. Verificar a veracidade ou não desses depoimentos que afirmam que ele estava bêbado, que destratou e agrediu enfermeiras, que não se deixou convencer pelas pessoas que o viram sair do restaurante de que ele não tinha condições para dirigir, que os ferimentos que ele teve foram superficiais então seu estado de coma foi induzido para que ele não tivesse de dar declarações, que testemunhas foram ameaçadas, que provas sumiram para reaparecer quando o caso tomou proporções maiores e tantos outros detalhes escabrosos. Isso cabe ao poder judiciário. 

Quero comentar somente o fato: um carro foi cortado ao meio quando foi atingido por outro que vinha no mesmo sentido e isso causou a morte de dois rapazes.

Vale lembrar a lei da Física que diz que objetos que colidem em sentidos opostos tem suas velocidades somadas, mas quando colidem no mesmo sentido, tem suas velocidades diminuídas uma da outra. Acho que um exemplo concreto vai deixar bem claro aonde estou querendo chegar.

Se dois carros batem de frente, um deles a uma velocidade de 50Km por hora e o outro a uma velocidade de 70Km por hora, isso causará um dano equivalente àquele que aconteceria se um dos carros estivesse parado e o outro o atingisse a uma velocidade de 120Km por hora, ou seja, a soma das duas velocidades. 

Porém, se os mesmos carros colidem, exatamente com as mesmas velocidades, mas estando os dois no mesmo sentido, os danos seriam os mesmos que aconteceriam se um dos carros estivesse parado e o outro o atingisse a uma velocidade de 20Km por hora, ou seja, a diferença entre as duas velocidades.

Quem afirma isso é a Física, não é nenhuma lei jurídica.

No caso desse acidente, os dois carros estavam no mesmo sentido. O carro do deputado vinha atrás daquele dos rapazes. Era uma via rápida, domingo à noite, mas vamos imaginar que os rapazes estavam andando dentro da velocidade máxima permitida por lei nas cidades, ou seja, 60Km por hora. Qual deveria ser a velocidade do carro do deputado para que, atingindo o veículo dos rapazes por trás, e descontando a velocidade deste, aqui imaginada a 60Km por hora, ele ainda fosse capaz de cortar esse carro ao meio?! 

Isso é um FATO comprovado pelas imagens do que restou do carro dos rapazes. Eu não estou fazendo suposições, nem acusações, nem qualquer tipo de comentário apaixonado ou parcial. Estou simplesmente aplicando uma lei da Física para formular a seguinte pergunta: qual velocidade seria capaz de cortar um carro ao meio? 

Em seguida, quero saber: o que deve acontecer a uma pessoa que dirige nessa velocidade e causa a morte de duas outras pessoas?

Portanto, um cidadão, uma pessoa como qualquer outra que existe sobre a face da terra, entrou no seu carro num domingo à noite e dirigiu a uma velocidade capaz de cortar ao meio um carro, independente deste carro estar em movimento ou parado diante dele. O que eu penso é que essa pessoa tem OBRIGATORIAMENTE de responder pela sua conduta!

Mas acontece que essa pessoa trabalha e trabalhos tem títulos, descrições, uma simples palavra que os identifica: advogado, empregada doméstica, pintor, lavadeira, encanador, professor, médico, pedreiro, deputado... Qualquer palavra dessas que sirva para descrever uma simples ocupação profissional não é motivo suficiente para livrar uma pessoa da responsabilidade de justificar suas ações, menos, a palavra deputado. Junte-se a essas algumas outras, também meros descritores de ocupações funcionais: vereador, prefeito, governador, presidente, senador, desembargador... Ao que parece, trabalhar sob essas descrições torna essas pessoas seres humanos diferentes. Com super poderes. Pena que esses super poderes não servem para proteger a humanidade, mas somente a si mesmos e aos seus escolhidos.

Vamos tirar o véu de glamour, celebridade ou importância dessas pessoas. Vereadores, deputados, senadores não são mais do que representantes, simples prepostos em reuniões de condomínio, ou seja, do lugar em que vivemos. Pode ser o condomínio-cidade, o condomínio-estado ou o condomínio-país. Eles não são mais do que meros representantes temporários. Prefeitos, governadores e presidentes não são mais do que síndicos. Eles não são especiais, também não tem super poderes, nem podem mais do que os outros. A síndica do edifício em que eu moro não tem o direito de fazer aquilo que os outros moradores também não tem, só porque é síndica. E ela não faz! Não faz porque é séria e responsável, mas poderia não fazer só porque é consciente da sua função, da sua transietoriedade e do fato de que será destituída desse cargo se o fizer. É um cargo! Uma ocupação profissional. 

Ser vereador, deputado, prefeito e por aí vai, até chegar a presidente da república é ser apenas trabalhador público por tempo limitado. E não estou dizendo funcionário público que teve de passar por concurso. Estou falando de ser operário cuja função é representar a sociedade nas decisões que são tomadas a fim de organizar a vida nos espaços que ocupamos. Ser operário que organiza a vida pública não significa possuir um símbolo divino, uma capacidade espetacular, única ou exclusiva que o torne um ser especial.

A família de um dos jovens que morreu nesse acidente está promovendo uma série de eventos para conseguir que esse deputado vá a julgamento. Essa família está levando adiante uma guerra para conseguir somente que o deputado seja considerado o que ele já é: uma simples pessoa, como qualquer outra pessoa sobre a face da terra. 

Assisti a uma entrevista da mãe desse jovem em que ela disse uma frase que me atingiu diretamente: o seu travesseiro não falará por você. De nada adianta ficar indignado, comentar o assunto no trabalho, no ônibus, na rua, na padaria. De nada adianta ler os jornais, ficar informado sobre tudo. O que adianta, o que resolve, o que faz o mundo girar é a atitude. É se manifestar, é falar, é participar das passeatas, dos movimentos. É passar a mensagem adiante, é reunir-se em associações.

Essa família está promovendo uma manifestação que acontecerá neste sábado, 30 de maio, às 10h30, no calçadão da rua XV de Novembro (Av. Luiz Xavier) esquina com a praça Osório. No local onde fica a nossa famosa Boca Maldita. Pois que essa boca seja bendita no próximo sábado! Que ela esteja repleta de dentes e línguas, e que esse dentes e línguas gritem toda a indignação que sentem. Que essas bocas saiam de suas casas e que compareçam. Todas as que puderem e que tiverem condições de ir. As que não puderem, que instiguem outras bocas a comparecer e a gritar juntas que nós não somos o brasileiro típico, que não age, que não fala, que não se posiciona, que não faz nada. Não somos o povo que não se revolta, que não exige seus direitos, que não faz mudar sua própria sociedade.

Assisti a um filme esta semana (O Leitor) em que um dos personagens diz: nossa justiça não se rege pelo que é certo ou errado, ela se rege pela lei.

Se nossas leis beneficiarem àqueles que são culpados, então lutaremos para mudar as leis! Mas, para isso, é preciso ficar evidente que a lei foi aplicada e que não foi capaz de fazer justiça. E isso não se faz por mágica, nem independentemente da ação dos cidadãos. Tudo por conta de mais uma lei da Física, dessa vez, a da inércia: um corpo manterá seu estado a não ser que uma força lhe seja aplicada

Se ele estiver parado, parado ficará até que algo ou alguém lhe dê o impulso para que entre em movimento. 

Se estiver em movimento, em movimento permanecerá até que algo ou alguém lhe imponha o obstáculo que o fará parar.

Não quero que a inércia nos deixe parados nesse caso. Não me canso de pensar e de fazer uma suposição: e se no lugar de jovens cujas famílias têm essa coragem, essa capacidade de mobilização e de luta, o deputado tivesse atingido um carro com pessoas cuja família não tivesse esses recursos? O que aconteceria? Será que tomaríamos conhecimento desse fato, simplesmente absurdo, que ocorreu? 

Precisamos aproveitar que o destino impingiu essa dor dilacerante a uma família que tem a força e a coragem que eu mesma talvez não tivesse. Eles lideram, eles se movimentaram, eles saíram da inércia. Mas sozinhos eles podem muito pouco. Como disse a mãe do Rafael, nossos travesseiros não farão nada por nós tudo por conta de outras leis, dessa vez, da ordem da Biologia: eles não tem vida. Eu tenho. Você tem. Rafael e Carlos, infelizmente, não tem mais.  

Peço a todos que puderem estar presentes a esta manifestação, que estejam. É pouco, mas é um começo de alguma coisa. E sentiremos que estamos fazendo a diferença nesse mundo.


quinta-feira, 14 de maio de 2009

Reforma... sabe como é...

Não! Eu não sumi, não desapareci, não me desintegrei! Quer dizer, até sumi, mas só do mundo virtual, garanto!

O que acontece é que estou CANSADA, CHAPADA, SATURADA de computadores! Jamais imaginei que chegaria a esse ponto, mas cheguei.

Como meu trabalho atual exige que eu fique horas e mais horas na frente dessa máquina, tudo o que eu quero quando não estou trabalhando é DISTÂNCIA dela. E aí, meu pobre blog fica abandonado às traças digitais...

Mais de um mês de ausência, que horror! E vou continuar ausente...

A reforma do visual continua como vocês podem ver, agora está essa bagunça aí, sem os links das laterais (eles ainda existem, mas estão lá pra baixo), alguns posts estão invisíveis, uma verdadeira confusão. Só consegui deixar, por enquanto, de uma forma que o post mais recente pudesse ser lido. E pra isso, estou tendo de remover com britadeira as camadas fossilizadas de poeira dos meus conhecimentos em programação HTML, os quais sempre beiraram o ridículo. Pelo menos descobri que ainda existem!

Nesse tempo todo de ausência, estive fazendo muitos trabalhos manuais. Um dia, quem sabe, eu consiga ânimo e disposição para postar as fotos desses trabalhos!

Por enquanto é só...
Não estou abandonando de vez, mas não farei promessas que não sei quando vou poder cumprir!

Que meus bleitores não me abandonem todos...

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Paf! Paf! Paf! Toc! Toc! Prrrrrrrrrrrfshhhhhh... Zuuuummmmmmm!!!!!!

Este blog está passando por reformas de visual. Ele estava precisando de uma repaginada, um novo look, novos ares, ou seja, só frescura!

Por isso, coisas estranhas podem acontecer nos próximos dias... Links desaparecerem, imagens aparecerem, cores aqui e ali, em resumo, uma bagunça! Não estranhem...

Um dia volta tudo ao normal e em grande estilo! Espero!

Os posts continuam, é claro!

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Alguém sabe o endereço da TFP?*

Vários motivos me fizeram mudar da área de Exatas para a área de Humanas. Um deles foi, depois de anos trabalhando com Informática e com a idade chegando, estar cansada de substituir conhecimentos. Queria poder acumular sabedoria.

Por exemplo, quando apresentei meu projeto de dissertação de mestrado estava com um barrigão de nove meses de gravidez. O Felipe nasceu quinze dias depois que eu, com aquela pança imensa, assumi o compromisso de fazer um trabalho que gerasse bases de dados estruturadas a partir de documentos semiestruturados escritos em linguagem HTML. Não entenderam nada? Nem gastem seus neurônios tentando entender! Isso já não tem mais validade quase nenhuma uma vez que apresentei o projeto, o Felipe nasceu, fiquei em licença maternidade pela eternidade de quatro meses e, quando voltei a trabalhar, meu tema de pesquisa já estava desatualizado. O hit do momento era linguagem XML e não aquela coisa obsoleta de linguagem HTML. Obviamente eu não dei a menor bola pra isso, empunhei meu chicote de Indiana Jones e, assumindo um ar de arqueóloga de bits e bytes, continuei o trabalho tal como havia previsto no início. Mas confesso que desanimei...

Meus alunos ficavam mais jovens, eu, mais velha, e minha sensação era a de que meus conhecimentos regrediam. A cada vestibular, meus novos pupilos pareciam íntimos de um mundo de temas da Informática que eu ignorava completamente. Era desesperador!

Portanto, ninguém vai estranhar minha alegria quando fiz o primeiro trabalho do curso de Letras. Era uma pesquisa sobre Homero, aquele que escreveu a Ilíada e a Odisséia. Quando terminei o texto e listei as referências bibliográficas que tinha utilizado, fiquei extasiada! Disse ao Vidal:

- Olha só esta lista de referências: tem livros da década de 60! Acredita? Livros mais velhos do que eu! Meus trabalhos no mestrado só referenciavam artigos de, no máximo, três anos de idade. E agora...

Meu surto eufórico foi às alturas:

- ... vai demorar uns trezentos anos pra mudar um acento em uma palavra sequer! O Machado de Assis nunca mais vai escrever nada de novo!! Eu posso ler todos os livros dele. Todos! Todinhos! Vou acrescentar novos conhecimentos aos que já possuía, não vou ter de substituir a cada mês o que eu sabia por coisas que tenho de aprender do zero. Com a passagem do tempo saberei cada vez mais. Dificilmente vou viver de novo o constrangimento de pensar que deveria trocar de lugar com meus alunos e virar aluna deles! Isso não é maravilhoso?

Oito anos depois, só oito anos, não foram oitocentos, muito menos oitenta, de jeito nenhum, oito míseros aninhos depois, vi o português passar por uma reforma ortográfica...

Eu nunca tinha sido capaz de gravar aquelas regras dos hífens... Mas descobri que o que era ruim podia ficar ainda pior, uma vez que, se antes eu sabia pouco, hoje simplesmente não sei nada! Tinha orgulho de conhecer de cor todas as regras de acentuação. Todas! Decorei essas regras ainda na a oitava série, quando comprávamos a um custo de cinquenta centavos as fichas com as famigeradas normas elaboradas pelo Professor Angelino, fichas essas que duravam anos e anos e anos... Hoje... Passo por momentos de dolorida hesitação a cada acento que escrevo...

Porém, apesar do novo acordo ortográfico, senti que nem tudo estava perdido! Fiz uma habilitação em Letras Francês e não Português. Isso quer dizer que jamais serei professora de Português. E, o principal, estou para ver instituição mais conservadora do que a Academia Francesa! Ufa! Desde a época da Maria Antonieta, no mínimo, a grafia do francês é praticamente a mesma! Eles resistem bravamente aos neologismos, aos estrangeirismos, aos modismos e a outros ismos que existem por aí. Nada dessa coisa de ficar mexendo em time que está ganhando! As pessoas mudam o jeito de falar, mas a Academia os ignora solenemente. O resultado é que existem palavras em francês nas quais cinco letras juntas representam um único som, mas tudo bem. É um pesadelo para quem está aprendendo, mas, vejam só, eu já sei! Portanto, além de garantir meu emprego por anos e anos, não tenho de gastar sinapses decorando novas regras. Se Maria Antonieta reencarnasse por aqui, provavelmente não conseguiríamos conversar por causa da diferença de pronúncia, mas eu seria capaz de ler o blog dela sem o menor problema! Que coisa mais civilizada um povo cioso de suas tradições e costumes. Quanta tranquilidade para nós, pobres professores, cujos neurônios estão cansados de serem açoitados sem cessar! Mas...

Há algumas semanas, surfando freneticamente por sites franceses na busca de materiais para minhas aulas, vi uma manchete que despencou como uma guilhotina na minha cabeça: Confira aqui as novas regras de ortografia da língua francesa!

DÁ PRA ACREDITAR?!!!!! Que tipo de perseguição é essa?! Quem é que consegue manter o bom humor numa situação assim?

Eu só não me joguei no chão, arrancando os cabelos, arranhando a face e rasgando as vestes porque, abençoados sejam esses franceses, a tal reforma é só uma recomendação, e apenas para duas mil palavras. Isso quer dizer que eles sugerem uma nova grafia, mas quem quiser continuar usando a antiga, tudo bem! Não podia ser diferente para um povo que, dez anos depois de ter adotado o Euro como nova moeda, ainda continua falando valores das coisas em Francos, recebendo extratos bancários em Francos e indicando os preços dos produtos nas lojas em Francos. Tem gente que ainda fala valores em Francos antigos, os quais deixaram de existir em 1960! Uma moeda anterior àquela que também já não existe mais! Isso até pode ser assunto pra um outro post, mas admito que cheguei a criticar levemente esse apego exagerado dos franceses ao que é tradicional e antigo. Grito a plenos pulmões agora que que retiro o que disse imediatamente! Bendito e santo povo que resiste às inovações!!!

Já que em relação às regras ortográficas tive de abandonar completamente minha euforia inicial nesse novo métier, quanto a Machado de Assis e outros escritores passados desta para melhor... bem... por via das dúvidas, estou evitando centros espíritas. Vai que o Bruxo do Cosme Velho resolve fazer jus ao epíteto e está sussurrando novas aventuras de Capitu em ouvidos mediúnicos por aí. Eu não resistiria a mais esse golpe do destino!

*TFP = Tradição Família e Propriedade. Que pelo menos esses não me decepcionem!

domingo, 29 de março de 2009

Pra que tudo não vire só uma vaga lembrança

Não há dúvida de que a gente muda mesmo com a passagem do tempo. Aquelas coisas que conseguíamos fazer facilmente na adolescência nos parecem impossíveis quando chegamos à maturidade.

Escrever poemas, por exemplo!

(Mas o que é que andou passando por essas cabeças maliciosas?)

Entre os quatorze e os dezessete anos escrevi mais de cem poemas. Mais de cem! E pensar que hoje sou incapaz de escrever um verso sequer...

Tinha todos os meus poemas anotados em dois cadernos. O primeiro com quarenta e oito folhas e, quando este terminou, empolgada pela minha produção poética, comprei outro, dessa vez com noventa e seis páginas. Lembro de um dia específico, ali pelos dezesseis anos, em que escrevi quase vinte poemas numa única tarde! A inspiração vinha aos borbotões (sempre quis usar essa palavra!) e foi saindo, saindo... A qualidade devia ser pra lá de duvidosa, é óbvio.

O primeiro texto do primeiro caderno era um acróstico que escrevi para um amigo quando o pai dele morreu. O último poema desse mesmo caderno era em inglês, assinado by Jilly (meu pseudônimo americanizado). Alguns desses poemas eu ainda hoje lembro em partes e considero realmente bons. Tinha um que descrevia um suicídio (aliás, esse era o título) e que volta à minha cabeça aos pedaços de tempos em tempos. E o suicídio nem era autoesquartejamento!

Dois deles eu sei de cor até hoje: o primeiro porque aconteceu num momento de iluminação profunda e eu o escrevi na areia da praia. Aí decorei pra chegar em casa e passar para o papel porque desconfiava, sabiamente, que ele não duraria a eternidade naquela suporte. Do segundo eu me lembro porque é o único exemplar de poesia concreta da minha meteórica carreira lírica.

Por que falo dos meus poemas no passado?

Quando voltei da França, há dois anos, procurei meus cadernos no meio de nossas caixas e não encontrei! Há dois anos tento em vão lembrar onde foi que os deixei, ou para quem os emprestei. Não sei nem mesmo quando foi a última vez que estive com eles nas mãos. Cheguei a pensar que tinha deixado com uma terapeuta com quem fiz análise há mais de quinze anos, mas depois de uma busca frenética pelo seu contato, descobri que ela não está com meus preciosos cadernos.

Absolutamente entristecida, dei minha busca por encerrada. Considerei meus cadernos perdidos pra sempre! Mas tenho de confessar que, bem lá no fundinho, minha intuição me diz que eles reaparecerão um dia. Tenho uma curiosidade imensa pela pessoa que vou encontrar ali. Um encontro comigo mesma aos dezesseis anos.

Quem sabe se a alma caridosa que guarda meus cadernos há tanto tempo não é também leitora desse blog? Um fã antigo, alguém que sempre acreditou no meu pendor literário e que mantém reféns meus caderninhos talvez já amarelados pelo tempo...

Amarelados, não! Nem é tanto tempo assim!

Enfim, diante da possibilidade real de simplesmente perder tudo o que fiz até hoje, decidi começar a soltar por aqui algumas dessas obras de juventude. Assim não corro o risco de viver uma absoluta amnésia literária!

O texto que segue foi escrito em 1992, quando eu era estagiária de Informática numa indústria cerâmica. Eu devia ter notado, já naquela época, que meu negócio não eram os números, mas as letras. Lembro que no dia em que escrevi isso que vem a seguir, deveria estudar para provas de sistemas operacionais e de bancos de dados. Mas as palavras dos livros técnicos que lia me deram outro tipo de inspiração.

Acho que fui bem nas provas, apesar de tudo.

Quanto aos meus cadernos... Prometo uma sessão especial de autógrafos, além da minha gratidão eterna, se eles aparecerem como que por encanto na minha caixa de correio. Meu endereço de hoje, é o mesmo dos meus dezesseis anos...

Para o que vem a seguir, preparem o anti-histamínico! Tem mais de dezessete anos esse texto, mas, espantosamente, os termos de informática não estão tão desatualizados assim!

(Texto extraído da correspondência entre um casal de profissionais da Informática)

Meu amor...

Acho que esta é a hora de resolvermos alguns bugs do nosso relacionamento. Há certas coisas que eu não consigo compilar e isso está travando nosso sistema!

Não posso entender que você queira fazer do nosso relacionamento um ambiente multiusuário. Sinceramente, eu não conseguiria viver em time-sharing, e compartilhar recursos está fora da minha capacidade de processamento!

Nas nossas discussões não temos usado uma linguagem de alto nível e nossos aplicativos não têm rodado a contento. Eu sei que houve uma redução de performance e que estamos passando por problemas de I/O. Mas será que não poderíamos restaurar os backups dos momentos felizes?

Ultimamente tenho me sentido uma máquina virtual, já não sei mais se minha configuração atende aos seus requisitos e tenho a impressão de que sua idéia é terceirizar! Meus buffers estão cheios e estou vendo próximo um erro de overflow!!!

Se a nossa entrada de dados não ocorre mais em paralelo e se nossos utilitários não obedecem mais às nossas instruções, já está mais do que na hora de disponibilizarmos recursos para o desenvolvimento de novos sistemas, você não acha?

É preciso alocar memória para novas rotinas a fim de melhorar a interface de nossas vidas!

Nossa relação está abendando, mas tenho certeza de que nada melhor do que um reset para retornarmos a um ambiente interativo. Para mim nosso relacionamento é um processo da mais alta prioridade e uma interrupção agora invalidaria toda a nossa consistência de dados.

Vamos implementar um modelo de dados relacional um-para-um, com momentos de felicidade recursivos...

Aos poucos nossas transações voltarão a ser online e nossos clocks estarão sincronizados. Tenha certeza disso.

Em loop infinito, seu

Servidor Dedicado

Curitiba, 1992.

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