quinta-feira, 28 de maio de 2009

Fale pelo seu travesseiro!

Imagine a seguinte situação: um grupo de moradores de um edifício contrata uma pessoa para representá-los nas reuniões de condomínio. Um emprego temporário, de tempos em tempos esses moradores decidem se o representante continua ou é substituído por outro. O salário dessa pessoa é pago, evidentemente, pelo grupo de moradores que o escolheu. 

O representante cumpre seu papel, isto é, comparece a quase todas as reuniões de condomínio. Mas, fora delas, age como se tivesse poderes especiais. Um dia, sai para jantar com amigos, bebe além da conta e volta para casa dirigindo a uma velocidade absurda. Acaba por causar um acidente em que duas pessoas morrem. Aparentemente, para todos os que quiseram chamá-lo à razão, tentando impedi-lo de dirigir sem ter condições para isso, ou então no hospital em que foi atendido depois do acidente, ele fez questão de lembrar que: Eu sou um representante, você está me entendendo? Um representante nas reuniões de condomínio! Como se isso fosse algo de muito especial ou condição suficiente para que ele estivesse acima de qualquer lei, de qualquer limite. 

O grupo de moradores que o escolheu está, obviamente, chocado. Mas está ainda mais chocado por descobrir que realmente esse simples representante tem prerrogativas que eles, os que os escolheram, não tem! Ele tem direito a tratamentos especiais e aqueles moradores do condomínio que o escolheram vão ter de lutar muito, e quando eu digo muito, quero dizer muito mesmo, para que esse cidadão seja julgado a fim de que a lei decida se a sua conduta merece punição e que tipo de punição será essa.

Parece um cenário surreal? Eu também acho! Mas é exatamente isso que está acontecendo nesse momento na cidade de Curitiba. Um deputado estadual causou um acidente no qual morreram dois rapazes. Não serei eu a pessoa que o julgará por esse ato, isso cabe à justiça. Mas a sociedade curitibana, em especial as famílias desses dois jovens, terá de lutar muito, com todas as suas forças, a fim de conseguir que essa pessoa, cuja função social é somente a de representar temporariamente os moradores do estado do Paraná na Assembléia Legislativa, seja levado a julgamento. Um julgamento verdadeiro e não um simulacro.

Eu não quero comentar tudo o que se disse até o momento sobre o caso. Verificar a veracidade ou não desses depoimentos que afirmam que ele estava bêbado, que destratou e agrediu enfermeiras, que não se deixou convencer pelas pessoas que o viram sair do restaurante de que ele não tinha condições para dirigir, que os ferimentos que ele teve foram superficiais então seu estado de coma foi induzido para que ele não tivesse de dar declarações, que testemunhas foram ameaçadas, que provas sumiram para reaparecer quando o caso tomou proporções maiores e tantos outros detalhes escabrosos. Isso cabe ao poder judiciário. 

Quero comentar somente o fato: um carro foi cortado ao meio quando foi atingido por outro que vinha no mesmo sentido e isso causou a morte de dois rapazes.

Vale lembrar a lei da Física que diz que objetos que colidem em sentidos opostos tem suas velocidades somadas, mas quando colidem no mesmo sentido, tem suas velocidades diminuídas uma da outra. Acho que um exemplo concreto vai deixar bem claro aonde estou querendo chegar.

Se dois carros batem de frente, um deles a uma velocidade de 50Km por hora e o outro a uma velocidade de 70Km por hora, isso causará um dano equivalente àquele que aconteceria se um dos carros estivesse parado e o outro o atingisse a uma velocidade de 120Km por hora, ou seja, a soma das duas velocidades. 

Porém, se os mesmos carros colidem, exatamente com as mesmas velocidades, mas estando os dois no mesmo sentido, os danos seriam os mesmos que aconteceriam se um dos carros estivesse parado e o outro o atingisse a uma velocidade de 20Km por hora, ou seja, a diferença entre as duas velocidades.

Quem afirma isso é a Física, não é nenhuma lei jurídica.

No caso desse acidente, os dois carros estavam no mesmo sentido. O carro do deputado vinha atrás daquele dos rapazes. Era uma via rápida, domingo à noite, mas vamos imaginar que os rapazes estavam andando dentro da velocidade máxima permitida por lei nas cidades, ou seja, 60Km por hora. Qual deveria ser a velocidade do carro do deputado para que, atingindo o veículo dos rapazes por trás, e descontando a velocidade deste, aqui imaginada a 60Km por hora, ele ainda fosse capaz de cortar esse carro ao meio?! 

Isso é um FATO comprovado pelas imagens do que restou do carro dos rapazes. Eu não estou fazendo suposições, nem acusações, nem qualquer tipo de comentário apaixonado ou parcial. Estou simplesmente aplicando uma lei da Física para formular a seguinte pergunta: qual velocidade seria capaz de cortar um carro ao meio? 

Em seguida, quero saber: o que deve acontecer a uma pessoa que dirige nessa velocidade e causa a morte de duas outras pessoas?

Portanto, um cidadão, uma pessoa como qualquer outra que existe sobre a face da terra, entrou no seu carro num domingo à noite e dirigiu a uma velocidade capaz de cortar ao meio um carro, independente deste carro estar em movimento ou parado diante dele. O que eu penso é que essa pessoa tem OBRIGATORIAMENTE de responder pela sua conduta!

Mas acontece que essa pessoa trabalha e trabalhos tem títulos, descrições, uma simples palavra que os identifica: advogado, empregada doméstica, pintor, lavadeira, encanador, professor, médico, pedreiro, deputado... Qualquer palavra dessas que sirva para descrever uma simples ocupação profissional não é motivo suficiente para livrar uma pessoa da responsabilidade de justificar suas ações, menos, a palavra deputado. Junte-se a essas algumas outras, também meros descritores de ocupações funcionais: vereador, prefeito, governador, presidente, senador, desembargador... Ao que parece, trabalhar sob essas descrições torna essas pessoas seres humanos diferentes. Com super poderes. Pena que esses super poderes não servem para proteger a humanidade, mas somente a si mesmos e aos seus escolhidos.

Vamos tirar o véu de glamour, celebridade ou importância dessas pessoas. Vereadores, deputados, senadores não são mais do que representantes, simples prepostos em reuniões de condomínio, ou seja, do lugar em que vivemos. Pode ser o condomínio-cidade, o condomínio-estado ou o condomínio-país. Eles não são mais do que meros representantes temporários. Prefeitos, governadores e presidentes não são mais do que síndicos. Eles não são especiais, também não tem super poderes, nem podem mais do que os outros. A síndica do edifício em que eu moro não tem o direito de fazer aquilo que os outros moradores também não tem, só porque é síndica. E ela não faz! Não faz porque é séria e responsável, mas poderia não fazer só porque é consciente da sua função, da sua transietoriedade e do fato de que será destituída desse cargo se o fizer. É um cargo! Uma ocupação profissional. 

Ser vereador, deputado, prefeito e por aí vai, até chegar a presidente da república é ser apenas trabalhador público por tempo limitado. E não estou dizendo funcionário público que teve de passar por concurso. Estou falando de ser operário cuja função é representar a sociedade nas decisões que são tomadas a fim de organizar a vida nos espaços que ocupamos. Ser operário que organiza a vida pública não significa possuir um símbolo divino, uma capacidade espetacular, única ou exclusiva que o torne um ser especial.

A família de um dos jovens que morreu nesse acidente está promovendo uma série de eventos para conseguir que esse deputado vá a julgamento. Essa família está levando adiante uma guerra para conseguir somente que o deputado seja considerado o que ele já é: uma simples pessoa, como qualquer outra pessoa sobre a face da terra. 

Assisti a uma entrevista da mãe desse jovem em que ela disse uma frase que me atingiu diretamente: o seu travesseiro não falará por você. De nada adianta ficar indignado, comentar o assunto no trabalho, no ônibus, na rua, na padaria. De nada adianta ler os jornais, ficar informado sobre tudo. O que adianta, o que resolve, o que faz o mundo girar é a atitude. É se manifestar, é falar, é participar das passeatas, dos movimentos. É passar a mensagem adiante, é reunir-se em associações.

Essa família está promovendo uma manifestação que acontecerá neste sábado, 30 de maio, às 10h30, no calçadão da rua XV de Novembro (Av. Luiz Xavier) esquina com a praça Osório. No local onde fica a nossa famosa Boca Maldita. Pois que essa boca seja bendita no próximo sábado! Que ela esteja repleta de dentes e línguas, e que esse dentes e línguas gritem toda a indignação que sentem. Que essas bocas saiam de suas casas e que compareçam. Todas as que puderem e que tiverem condições de ir. As que não puderem, que instiguem outras bocas a comparecer e a gritar juntas que nós não somos o brasileiro típico, que não age, que não fala, que não se posiciona, que não faz nada. Não somos o povo que não se revolta, que não exige seus direitos, que não faz mudar sua própria sociedade.

Assisti a um filme esta semana (O Leitor) em que um dos personagens diz: nossa justiça não se rege pelo que é certo ou errado, ela se rege pela lei.

Se nossas leis beneficiarem àqueles que são culpados, então lutaremos para mudar as leis! Mas, para isso, é preciso ficar evidente que a lei foi aplicada e que não foi capaz de fazer justiça. E isso não se faz por mágica, nem independentemente da ação dos cidadãos. Tudo por conta de mais uma lei da Física, dessa vez, a da inércia: um corpo manterá seu estado a não ser que uma força lhe seja aplicada

Se ele estiver parado, parado ficará até que algo ou alguém lhe dê o impulso para que entre em movimento. 

Se estiver em movimento, em movimento permanecerá até que algo ou alguém lhe imponha o obstáculo que o fará parar.

Não quero que a inércia nos deixe parados nesse caso. Não me canso de pensar e de fazer uma suposição: e se no lugar de jovens cujas famílias têm essa coragem, essa capacidade de mobilização e de luta, o deputado tivesse atingido um carro com pessoas cuja família não tivesse esses recursos? O que aconteceria? Será que tomaríamos conhecimento desse fato, simplesmente absurdo, que ocorreu? 

Precisamos aproveitar que o destino impingiu essa dor dilacerante a uma família que tem a força e a coragem que eu mesma talvez não tivesse. Eles lideram, eles se movimentaram, eles saíram da inércia. Mas sozinhos eles podem muito pouco. Como disse a mãe do Rafael, nossos travesseiros não farão nada por nós tudo por conta de outras leis, dessa vez, da ordem da Biologia: eles não tem vida. Eu tenho. Você tem. Rafael e Carlos, infelizmente, não tem mais.  

Peço a todos que puderem estar presentes a esta manifestação, que estejam. É pouco, mas é um começo de alguma coisa. E sentiremos que estamos fazendo a diferença nesse mundo.


2 comentários:

  1. Olá Juju, tenho acompanhado o caso aqui em São Paulo e mais uma vez nem precisa dizer o que penso sobre isto, vivo deizendo que ainda estamos no tempo da monarquia, só que agora, tem várias coroas imunes a qualquer coisa, sempre compro briga mas mesmo derrrotada ainda continuo comprando, pena que não estou em Curitiba pois estaria ao lado desta família comprando mais uma... beijos!

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  2. Andrea,

    Tenho certeza de que vc estaria nessa!

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