segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Morrer é fácil, difícil é ficar viva

— Olá! Seja bem vinda!

— Ahn? O quê? Ei, peralá, eu tô te reconhecendo! Essa barbinha, essa camisolinha, essa auréola... O que é isso? Eu morri?!

— Veja a coisa por outro ângulo. Pense que você nasceu para uma nova vida...

— Não é possível! Não pode ser verdade! Como assim?

— Calma, minha filha, calma. É normal essa confusão inicial e...

— Confusão fizeram vocês! Olhe aí nessa sua listinha, confira bem. Meu nome não pode estar aí!

— Procure se acalmar... Serafim, chegue aqui um minutinho, faça o favor.

— Foi algum acidente de avião? Não, sem chance. Eu não viajava de avião por causa do risco de trombose. Foi acidente de carro? Eu fui atropelada? Vítima de ataque terrorista?

— Nada disso! Não houve nenhuma tragédia na sua... hummm... passagem.

— Mas, então, por quê? Eu fiz tudo direitinho, tudo! Dormia oito horas por noite, acordava cedo, fazia meditação... Vocês tem alguma coisa contra a meditação, é isso? Eu paro!

— Claro que não, imagine!

— Escovava os dentes, passava fio dental (vi um estudo que garantia pelo menos seis anos a mais de vida só por passar fio dental), tomava meu complexo de vitaminas, suplementos energéticos, saía pra caminhar, nadar, pedalar, um verdadeiro triathlon antes das 7h30 da manhã!

— Sabemos disso! Sempre admiramos muito a sua determinação. Correr nas manhãs de frio... Realmente, era muita força de vontade.

— Não é? Meu café da manhã era irrepreensível: grãos, sementes, fibras, frutas, leite completamente desnatado, nada de conservantes. Transgênicos? Nem pensar! Eu era filiada ao Greenpeace, ao programa Amazônia Viva, às ONGs de proteção aos golfinhos, baleias, pinguins e ursos pandas. Voluntária do projeto Tamar!

— Estamos por dentro de tudo isso, acredite! Muito louvável essa sua preocupação com a natureza.

— Conversava com as plantas, abraçava árvores... Não acredito que tô falando de mim mesma no passado...

— Você vai se acostumar.

— Não! Eu vou voltar! Veja aí na sua lista. Deve ser alguém com o mesmo nome...

— Não quero ser desagradável, mas nosso sistema de dados é sem falhas.

— Sem falhas era eu! Nada de nicotina, nada de cafeína, nada de estimulantes ou drogas de qualquer tipo, nem uma única gota de álcool a não ser, é claro, um cálice, um único!, de vinho tinto no almoço por causa dos flavonóides e da ação anti-oxidante.

— Tem toda razão! Até Jesus tomava vinho, veja você...

— Exato! Depois tinha barrinha de cereais a cada três horas para manter o metabolismo ativo, saladas variadas no almoço, um bife que era uma verdadeira hóstia grelhada e sem qualquer traço de gordura, quase nada de sal por causa da pressão...

— Parabéns!

— ... siesta para recuperar as energias, exercícios respiratórios para eliminar o estresse, cinco minutos de gargalhadas em grupo para manter o alto astral, massagem para tonificar os músculos, Pilates, RPG, alongamento e dança!

— Pouquíssimos cuidam do corpo como você cuidava, é verdade!

— Então o que é que eu tô fazendo aqui, caramba?

— Veja, é que...

— Já sei! Foi aquele brigadeiro! Aquele mísero brigadeiro que eu cheirei na festa de quinze anos da Claudinha, não foi? Puxa, eu tinha só sete anos, não dá pra dar um desconto?

— Que é isso, não teve nada a ver com brigadeiro.

— Eu comia chocolate, eu sei. Um quadradinho de um centímetro de lado por dia, mas só para manter os níveis de serotonina e, assim mesmo, era chocolate amargo com 99% de cacau!

— Horrível aquilo, não? Confesso que às vezes não consigo entender bem o Criador...

— Pois é! E ainda comia um tomate por dia para evitar câncer de próstata...

— Mas, minha filha, mulheres não tem próstata!

— Eu sei! Mas vai que a ciência descobre alguma coisa, né? A gente nunca sabe... Aliás, evitei tudo que pudesse causar câncer: sol entre 10 e 16h, açúcar... Nem uma única paçoquinha na vida, meu cadastro tá limpo, pode conferir! Ovo frito, toucinho, feijoada? Jamais passaram perto do pires que eu usava para minhas refeições!

— É mesmo! Era um pires, né?

— Um pires! O pecado da gula não aparece de jeito nenhum na minha ficha corrida.

— Não mesmo...

— Achou minha ficha? Então veja aí que, dessa vez, vocês cometeram um engano. Meu lugar é lá embaixo, tô voltando pra lá. Onde é mesmo a saída?

— Não tem engano algum...

— Isso não tem cabimento, não faz o menor sentido!!! Não tem NADA do que apareceu na imprensa escrita, televisiva, falada, cinematografada ou blogada que eu não tenha seguido à risca para preservar minha saúde e juventude! Será que eu fui assaltada? Violentada? Assassinada?

— Não! Claro que não!

— Ufa! Que susto! Trabalhava como voluntária na Pastoral da Criança, nas entidades de auxílio aos idosos, de apoio ao egresso do sistema carcerário. Recolhia doações para creches, para os Médicos sem Fronteiras, para os exilados políticos, para os desabrigados das enchentes, vítimas das secas, refugiados de guerra, para as mulheres mutiladas na África, para os institutos de auxílio aos portadores de necessidades especiais. Olha aí! Até usar só termos politicamente corretos eu aprendi.

— Estou vendo, estou impressionado!

— Então estamos de acordo que meu lugar não é aqui, certo? Onde é que eu devolvo esse crachá de visitante?

— Seu crachá não é de visitante, mas de interno.

— Vocês estão todos loucos, só pode ser! Piraram, surtaram, despirocaram! Olha o Alzheimer, hein? Não me preocupo com isso porque fazia ginástica cerebral três vezes por dia. Resolvia enigmas, preenchia tabelas e mais tabelas de Sudoku. Li todos os clássicos da literatura e acompanhava os jornais do mundo nos idiomas originais. Sabia que aprender línguas é ótimo para manter o cérebro em funcionamento? Por isso não tem razão de ser esse derrame...

— Quem falou em derrame?

— Foi o quê, então? Não me deixe nesse suspense! Adrenalina demais na corrente sanguínea faz um mal horrível!

— Foram causas... como dizer... naturais.

— Naturais? Isso aqui é uma pegadinha, fale a verdade. Cadê as câmeras? Naturais e também orgânicas eram as frutas e legumes que eu consumia, tá me ouvindo? Cinco porções diárias! Daí fiquei sabendo que deviam ser doze! Eu acompanhava todas as novidades dessa área, já disse. Lavava e descascava tudinho, diariamente. E ainda comia uma castanha por dia por causa do selênio, leite de soja por causa das isoflavonas, alimentos crus para absorver a energia vital que era depois distribuída aos meus chacras durante a entoação dos mantras, que eu já cantava virada em direção à Meca e com as guias de todos os orixás penduradas no pescoço pra ganhar tempo... Ohmmmmmmmmm Ops! Foi esse o problema? Eu ia à missa aos domingos também, viu? E fazia novenas!

— Não se preocupe! O reino do Senhor é completamente livre de preconceitos.

— Ah bom! Pensei que tinha sido aquele meu envolvimento com a cientologia, antroposofia e cartomancia. Também dava uma passadinha nuns cultos evangélicos pra garantir É que eu precisava cuidar do espírito, sabe?

— Fez bem! Nada como cuidar do espírito, nós todos aqui sentimos os benefícios dessas orações.

— Mas cuidei da mente também! Fiz análise comportamental, psicanalítica e reichiana. Aproveitei para estudar tarô e mandalas.

— Excelente!

— Se cuidei da mente e do espírito, fiz trabalho voluntário para melhorar a auto-estima resgatando, assim, todos os carmas das vidas passadas e da presente deixando um troquinho para as vidas futuras, e se, ainda por cima, cuidei do corpo, como é que eu vim parar aqui?

— Eu não queria usar termos técnicos, mas já vi que você é uma pessoa esclarecida.

— Muito! Velas, cristais, pirâmides de energia, uma verdadeira Itaipu de tanta luz!

— Certo... Bem, não costumamos comentar esse tipo de coisa, mas no seu caso, vou abrir uma exceção: você teve uma falência múltipla dos órgãos.

— O quê?! Hahahahahahahahahaha! Ah, São Pedro, nunca tinham me contado que o senhor gostava de fazer piada. Pensei que só era personagem delas. Falência múltipla dos órgãos? Impossível! Pra começar, falência é palavra que não fazia parte do meu dicionário. Fiz poupança, plano de previdência privada, aplicação no mercado financeiro. Investi na carreira, em cursos de pós, pós da pós, pós da pós da pós a fim de garantir minha empregabilidade. Desenvolvi atitudes proativas, espírito de liderança, sem esquecer de compartilhar conhecimentos e estratégias para aperfeiçoar a capacidade de trabalhar em equipe. Empreendedorismo já e sempre, mentalização de objetivos, missão pessoal bem delimitada, certificação de qualidade, tudo isso de salto alto, maquiagem, terminho, chapinha, um sorriso nos lábios e eterno pensamento positivo, mesmo com o aumento de horas de trabalho sem contrapartida salarial. Tá, tá, confesso! Tomava umas fluoxetinas e prozacs pra não cair na depressão. Mas só porque todo mundo sabe que depressão é sinal de fraqueza e que devemos estar felizes e contentes sempre! Nada de crises de tristeza ou melancolia, onde já se viu? Isso não é atitude de quem tem sucesso na vida! E, além do mais, fiz viagens de férias porque o lazer é fundamental para manter a criatividade e ampliar o conhecimento geral. Não pode ter havido falência múltipla dos órgãos. E mesmo que isso tenha acontecido, prestei atenção aos inúmeros treinamentos motivacionais que me garantiram e convenceram de que crises são oportunidades de crescimento. Eu jamais teria tido um ataque cardíaco por causa de uma crise dessas!

— Eu não falei em órgãos empresariais. Falei em órgãos do corpo, sabe? Tipo assim, coração, pulmão, rim, essas coisas.

— É evidente que eu sei o que quer dizer falência múltipla dos órgãos! Mas nem considerei essa hipótese porque é simplesmente IMPENSÁVEL que meus órgãos internos tenham falido! A cada vez que a medicina abaixou as taxas de qualquer coisa, qualquer uma, seja colesterol, triglicerídeos, glicemia e o escambau, eu acompanhei. Eles foram apertando o certo e eu ali, firme! Número era comigo mesma! É pra diminuir a taxa de açúcar no sangue? Diminuo! É pra aumentar o HDL? Aumento! Meu hemograma era digno de ser emoldurado e pendurado na parede! Eu tinha cadeira cativa no laboratório de exames. Meus órgãos funcionavam perfeitamente! Sinto muito, mas o senhor dessa vez está enganado. Quem é o chefe aqui? Quero falar com o gerente! A brincadeira perdeu a graça. E os exercícios respiratórios para eliminar o estresse e diminuir as toxinas que vão provocar excesso de radicais livres já não estão mais funcionando! Chega pra lá, Querubim! Vou fazer a posição Adho Mulha Svanasana da Yôga, me concentrar em Shiva para despertar minha Kundalini... Namastê!

BROOOOOOOUUUUUMMMMMM!!!!!!!

— Olha aí! O chefe não está gostando nada disso! Nem eu, diga-se de passagem. Aliás, já perdi a paciência! Você teve falência múltipla dos órgãos, sim, morreu dormindo e ponto final! Agora vamos andando com isso, entra de uma vez que já tem uma fila enorme aí atrás.

— Mas... mas...

— Que é isso? Também não é pra tanto. Olha, usa aqui a manga da minha túnica para enxugar essas lágrimas.

— O que foi que eu fiz de errado pra vir parar aqui? Eu não entendo!

— Todos, eu repito, todos os seres humanos virão para cá mais cedo ou mais tarde. É inevitável...

— Isso! Mais cedo ou MAIS TARDE! Por que no meu caso foi mais cedo? Não pude começar a viver de verdade, não tinha um único minuto livre por conta de todos esses cuidados. Fiz tudo para ter um futuro tranquilo e saudável, quando poderia desfrutar a vida sossegada... Mas antes que esse futuro chegasse, vocês me trazem pra cá? Isso não é justo!

— Esperamos o quanto foi possível. Você teve até certa prorrogação de prazo em reconhecimento a todos esses esforços, mas mesmo essa prorrogação tem limites.

— Eu estava na flor da idade, no auge! Ainda no mês passado fiz meu mapa astral, comemorei meu aniversário...

— Exato! Seu aniversário de 120 anos!

— Então!!! Deve estar todo mundo lá embaixo comentando: Coitada! Tão jovem! Dá uma forcinha aí, vai? Deixe eu voltar pra me divertir um pouquinho, por favor...

— Próximo!

8 comentários:

  1. Eu sabia, eu sabia....
    Adorei.
    Por isso, já comi um Toblerone inteirinho hoje, no lugar do jantar.
    E olha a hora que tô postando!!!!
    120?!?!?!? Nem a pau.
    Maravilhosa.
    Muito bom mesmo.
    Beijo
    Marie

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  2. Oi, Juliana! Buscando seu nome pelo google da vida achei seu blog e aproveitando quero parabenizá-la pelo senso de humor refinado e sagaz. Deixa eu perguntar, esse semestre agora você vai ser professora de Francês básico na ufpr? Se sim, queria conversar contigo, tem algum email? :)

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  3. Rose, minha amiga! Que saudade!
    Um ótimo 2010 pra você também!!!
    Ainda hoje vou te fazer uma visitinha... ;-)

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  4. Marie!

    FEZ BEM!!! hahahahah

    Pois é... se esse for o preço a pagar pra chegar aos 120, confesso minha insuficiência de fundos! :-)

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  5. Oi Clarissa

    Obrigada pela visita e elogios!

    Eu estou escalada para o básico esse semestre. Sempre pode haver mudança de última hora, claro.
    Entre em contato comigo pelo endereço juliana.vermelho@gmail.com

    E apareça mais vezes!

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  6. Sinceramente. Velejei, naufraguei e estou a deriva, gostaria de saber qual das extremidades do pensar você navega. Isso não quer dizer que não tenhas talento, mas que talento você quer expressar afinal.

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  7. Oi Cardoso

    Em primeiro lugar, obrigada por deixar um comentário. Meu texto te deixou à deriva e você, ainda assim, gastou um pouco do seu tempo para deixar um comentário. Acredite, isso me deixa feliz! (Tudo bem, sou meio esquisitona mesmo)

    Quanto à sua pergunta sobre qual talento quero expressar, tenho de dizer que escrevo o blog com a pretensão de... escrever um blog. Só isso. Não ha compromissos da minha parte com qualquer objetivo a não ser dizer o que me vai pela cabeça.

    Na maioria das vezes eu uso o humor, mesmo quando o assunto é indigesto. É uma característica que apareceu sozinha, não foi uma busca da minha parte. Pensando sobre a sua pergunta, acho que poderia comparar alguns dos meus textos a caricaturas. É isso. Se fossem desenhos, seriam caricaturas, o exagero em determinados pontos, algo que sabe-se que não é representação da realidade, mas está baseado nela.

    Se você se sentiu desonfortável com esse texto, então você "entrou na minha sintonia". O que me motivou a escrever esse diálogo absurdo foi justamente o desconforto que sinto com a época na qual vivo. Com a busca pela perfeição em todos os níveis, com a necessidade da excelência em todas as áreas, com a pretensão, talvez, de desenvolver plenamente todos os talentos. Coisa, obviamente impossível.

    Se não estiver ainda à deriva por aí, apareça mais vezes :-)

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