terça-feira, 23 de setembro de 2008

Rio, quinze graus?!

Faço aqui um apelo: se alguém conhecer o telefone daquela garota carioca, suingue sangue bom que atende pelo nome de Fernanda Abreu, por favor, me passe. Quero ligar e deixar uns recados mal-criados na secretária eletrônica! Não é ela quem canta aquela coisa de Rio, quarenta graus? De qual Rio ela estava falando? Rio de Janeiro? Mentira!!!

Vocês devem ter notado que esse blog ficou meio abandonado semana passada. O que aconteceu é que eu fui ao Rio de Janeiro por conta de compromissos profissionais. Cheia de diminutivos na cabeça, com essa musiquinha nos ouvidos, coloquei só regatinhas e camisetinhas na minha mala. Por via das dúvidas, levei uma jaquetinha. Pois foi essa jaquetinha que me impediu de congelar naquela cidade! Exatamente: passei quatro dias na cidade maravilhosa, morrendo de frio!

No dia em que cheguei, chuva. E frio! Pra ninguém dizer que estou mentindo, aí vai uma foto de um termômetro de rua:


QUINZE GRAUS!

Na verdade, acho que a culpa nem é da Fernanda Abreu. É bastante possível que chegue a fazer quarenta graus por lá. O negócio é essa questãozinha particular entre nós. Quem? São Pedro e esta que vos escreve. Pretensão da minha parte, talvez. Mas que tem alguém na galera do Altíssimo de marcação cerrada com a minha pessoa, isso tem!

Tudo bem, tudo bem! Já sei quem é o mais forte, quem manda no tempo, já aprendi, já aprendi! Será que dá pra mandar um solzinho logo de cara na próxima vez que eu for pra um lugar qualquer? Pensando bem, caso essa coisa de chuva na minha vida continue, posso até oferecer meus serviços de nuvem negra para os lugares que estiverem vivendo períodos de seca, não é? Em vez de me leva que eu vou, sonho meu, atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu, chegarei cantando me leva que eu vou, toró meu, atrás da Juliana veio a nuvem que choveu.

A verdade é que São Pedro é um brincalhão. Faz chover nos lugares para os quais vou, mas depois dá uma risadinha, acaba se comovendo com meus apelos e manda sol. Dessa vez, foram dois dias nublados e dois com sol. Mas frios! Ouvi dizer que foram os dias mais frios do Rio nos últimos tempos. Ninguém merece!

Aproveitei a generosa hospitalidade de minha amiga Sheyla e, entre uma obrigação de trabalho e outra, fui conhecer um pouco dessa cidade improvável, cuja única palavra que pode ser usada como resumo é contraste. O velho e o novo. O pobre e o rico. O belo e o feio. A harmonia e a dissonância. A classe e a absoluta falta dela. Está tudo lá, lado a lado. É impressionante.

Não cheguei a me transformar numa muchacha de Copacabana, como cantou Chico Buarque, mas molhei meus pezinhos nas águas (geladas, diga-se de passagem) da princesinha do mar. Nem de longe passei perto de ser confundida com alguma garota de Ipanema porque meu corpo não tem nada de dourado (com toda essa chuva, como poderia?) e meu balançado... Bem, tem muita coisa que balança por aqui, mas duvido que daria qualquer poema. Também não tinha violão, por isso nem procurei qualquer cantinho, mas imaginei mil canções pra fazer feliz. Claro que fui ao Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara e, lá do alto, derramei meus olhos por aquelas paisagens todas. Vi o Rio de sol, de céu, de mar. Dá pra entender perfeitamente porque D. João VI relutou tanto em ir embora do Brasil.



Mesmo com chuva e frio, mesmo com as desconcertantes favelas encarapitadas nos morros, mesmo com o contraste brutal que escancara a diferença absurda entre pobres e ricos, realmente, não há como negar as canções, o Rio de Janeiro continua lindo!

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Muito "aquém" da imaginação

Eu já disse! Vocês também já disseram... Na verdade, aposto que qualquer pessoa de mais de dezesseis anos de idade, em qualquer lugar do mundo, pelo menos uma vez na vida já disse. Sendo bem sincera, a gente não diz isso, a gente pensa, porque dizer seria assumir o mico e disso pouca gente tem coragem. Confessem! Vocês também já viveram aquele segundo mortal em que a seguinte frase se forma na cabeça: Mas o que é que eu tô fazendo aqui?

Instantaneamente centenas de miquinhos começam a guinchar ao redor, mas geralmente já é tarde, Inês é morta, não adianta chorar sobre o leite derramado, o jeito é enfiar a viola no saco e, como aconselhou nossa sapientíssima ministra, relaxar e gozar. Não tem nada mais perfeito num momento desses do que um monte de clichês e frases feitas para aliviar nossa consciência. Explicar o que, muitas vezes, não tem explicação.

Eu me lembro perfeitamente da primeira, assim como da última vez em que pensei isso. Além de vários outros episódios semelhantes entre esses dois instantes, imaginem se isso teria me acontecido só uma vez na vida. Foram vários os momentos, confessáveis e inconfessáveis, nos quais me arrependi amargamente de ter tomado a atitude que me levou àquela situação, no mínimo, circense.

A primeira vez eu tinha dezessete anos, era julho e decidi ir sozinha para a praia. Sozinha, nesse caso, não é força de expressão. Peguei um ônibus e desembarquei no meio de uma tarde de terça-feira, dia nublado, garoa, frio e, depois de andar duzentos metros pelas ruas sem calçamento de Shangri-lá, desviando de poças d’água e sapos, carregando uma tralha horrivelmente pesada, parei subitamente e, num segundo, a frase veio: Mas o que é que eu tô fazendo aqui?

A última foi há dois anos. Eu, uma senhora casada, mãe de dois filhos, professora universitária com mestrado e tudo o mais, me vi sentada numa cadeirinha, com um cinto de segurança de aço prendendo meus ombros e minha barriga, enquanto o tal carrinho subia por um trilho. De ré! Gente, montanha-russa é coisa pra adolescente! Que idéia ridícula tinha sido aquela? E os engenheiros de montanha russa são todos sádicos. Quando o carrinho chega lá em cima e você vê o mundo com seus olhos paralelos ao chão, mas dezenas de metros acima dele, a geringonça faz um singelo TLEC!, o ponteiro dos segundos dá um pulinho pra frente no relógio e o pensamento vem: Mas o que é que eu AHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Foi! Você despenca, o mundo vira de cabeça pra baixo, a cabeça chacoalha, o cérebro desconjunta, os olhos reviram, os cabelos embaraçam, as pernas bambeiam e a bexiga, se bobear, solta o que estiver lá dentro. E ainda têm coragem de chamar isso de parque de diversões?! Parque de orações seria mais adequado. Só eu rezei cinco ave-marias nos eternos quarenta e cinco segundos que durou aquela agonia!

Saibam vocês que a grandecíssima responsável por todos os micos do mundo é a nossa imaginação. Sim, estou convencida disso! Imaginamos coisas e situações, mas esquecemos que o mundo perfeito só existe dentro da nossa cabeça. A vida real não tem nada a ver com os delírios das nossas ondas cerebrais sem noção!

Aos dezessete anos eu me vi fazendo maravilhosos passeios à beira-mar. Só esqueci que em julho chove, faz frio, não existe vivalma na praia, além disso a casa fechada cheira a mofo, não tem ninguém que cozinhe e, o pior, anoitece! Noites escuras em balneários desertos, com grilinhos fazendo cri-cri do lado de fora, estão muito mais para Bruxas de Blair do que para qualquer filme da Meg Ryan.

Não. Para a montanha russa não tem explicação que justifique a não ser o desespero. A gente vê a idade avançando e quer ter de novo dezesste anos, esquecendo completamente que mesmo aos dezessete anos já pagava micos.

Há dezenas, centenas, quiçá milhares, senão milhões, de exemplos de situações do tipo o-que-eu-tô-fazendo-aqui. Há alguns anos minha irmã, Renata, decidiu fazer parte de uma campanha de Natal que distribuiria brinquedos a crianças carentes. Na imaginação dela o filme estava pronto: o grupo chegaria ao local combinado, todos vestidos de Papai Noel, as crianças sairiam das casas com sorrisos nos lábios e se aproximariam do grupo, que entregaria os presentes com os olhos marejados de lágrimas. Tais presentes seriam desembalados e aqueles bracinhos cheios de gratidão enlaçariam os pescoços dos abnegados e incógnitos papais noéis que ao final voltariam às suas casas com os corações transbordantes de amor e espírito natalino. Lindo, não? Na imaginação!

A realidade foi que eles chegaram lá e já tinha uma multidão de crianças que, nem bem o saco do Papai Noel foi aberto, avançou nos pacotes. A Renata tentava entregar um embrulho, olhos nos olhos, dizendo Feliz Natal!, mas não conseguia porque vinham mãos de todos os lados e ela só fazia gritar: Calma aí!, Péra lá!, Tira essa mão daí, moleque! Os que pegaram os presentes abriam os pacotes e reclamavam! Voltavam para xingar as pessoas e dizer que se era pra trazer aquela porcaria, melhor nem aparecer, banco de filhos da... Exatamente! Ela também quis saber o que estava fazendo lá naquele momento.

E assim as histórias se sucedem. Tem o cara que vai assistir ao parto do filho, mas na primeira gota de sangue que aparece percebe que o estômago realmente existe e... Assim como a mãe que passa nove meses corajosamente aguardando o parto normal, mas depois de seis horas de contrações lembra de uma seringa de anestesia e... Tem o aventureiro de fim de semana que paga um curso para saltar de pára-quedas ou pular de bungee-jump, mas na hora em que a porta do avião abre ou que ele sobe na ponte, olha para baixo e... Tem o pai que contrata decoração, balões e animadores para entreter os convidados na festa de aniversário da filha, mas na hora em que o animador veste esse pobre pai de palhaço, com peruca de cachinhos pink, nariz de bolota e calça com cintura de bambolê se olha de relance no reflexo do vidro do salão de festas e... E o que dizer do cara quase quarentão que aceita o convite de um amigo para ir ao aniversário de uma colega mas quando descobre que a faixa etária dos convidados não passa muito dos 18 anos olha pra porta e... Sem esquecer da mulher que vai sozinha ao aniversário da filha de um amigo sem conhecer absolutamente ninguém da família ou dos outros amigos dele e, depois de duas horas ouvindo uma conversa insuportavelmente chata de uma amiga da esposa do pai da madrinha da aniversariante, olha discretamente para o teto e...

Todos esses personagens anônimos do mundo real gritariam em uníssono se pudessem: Mas o que é que eu tô fazendo aqui?!!!

Tudo culpa dela. Da imaginação. Imaginação fértil, eu diria. E todo mundo sabe que o melhor adubo do mundo é a... Isso aí que vocês imaginaram. Só que na vida real ela é ainda mais fedida!

O pior é que a gente não aprende. Continua a imaginar situações perfeitas, nos mundos perfeitos, que não existem. E, fatalmente, uma hora ou outra vai se ver no meio de centenas de miquinhos que guincham ao redor...

Pensando bem, disse que isso é o pior, mas a grande verdade é que são exatamente esses momentos símios que animam as conversas, não é mesmo? Tem coisa mais chata do que uma pessoa que não paga mico? Um ser humano para o qual tudo dá certo? Eu só conheço uma única pessoa assim no universo: eu mesma. Na minha imaginação, é claro! A versão mundo real paga um mico atrás do outro, depois vem contar aqui nesse blog.

Que venham os macaquinhos, então! Mas uma coisa eu prometo para vocês: montanha-russa, nunca mais! Não mesmo! Imaginem!


Versão para impressão.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Êta ela!

Na minha cabeça existem várias imagens para representar o paraíso. Esta é uma delas:


Uma caixa cheia de coloridas linhas de bordar é, para mim, uma coisa que existe com certeza no paraíso. E, exatamente as linhas dessa foto, são para lá de especiais. Essa é a caixa de linhas de bordar à máquina da minha avó Jandyra.

Há poucos meses estive com essa caixa nas mãos e fiz várias fotos para poder ficar olhando pra elas quando estivesse me sentindo no inferno ou no purgatório.

Desde muito pequena eu via essas linhas, brincava com elas, ficava encantada principalmente com as matizadas, essas que têm duas ou mais cores e fazem esses retroses listadinhos. Ficava horas ao lado da máquina de costura, observando o sobe e desce dos pés dela apoiados no pedal, que fazia girar a roda, que movia a correia de couro presa à máquina, que fazia a agulha subir e descer enquanto ela movimentava o bastidor para frente e para trás criando, aos poucos, os trabalhos maravilhosos que temos espalhados pela família.

Se hoje eu simplesmente não consigo viver sem estar próxima de linhas, agulhas e tesoura como vocês podem ver aqui, certamente é porque meu DNA tem o gen que obriga as mãos a trabalharem constantemente para criar peças, tramas, objetos... Não nasci aranha por puro acaso. Ou talvez tenha sido aranha em outras vidas, quem sabe? A verdade é já mudei de profissão várias vezes, já fiz de tudo um pouco. A única coisa que permanece inalterada para mim, desde os 7 ou 8 anos de idade, é essa ligação com tecidos e linhas. Minhas duas avós, Rosa e Jandyra, passaram elas também suas vidas enroladas aos fios, tecendo teias de bordados e rendas. Além de neta, no caso da minha avó Jandyra, ainda sou afilhada. Não tinha mesmo como escapar!

Jandyra, como vocês podem ver, é a imagem da avó típica: óculos, cabelos branquinhos, quitutes na cozinha e aquela ligação direta com o povo lá de cima. Terço constantemente na mão, é a ela que sempre recorremos nos momentos de necessidade: Vovó, tenho uma prova super difícil amanhã. Faz uma oração aí, por favor! Tráfico de influência, eu sei. Mas é que a reza dela sempre foi poderosa. Entrevista de emprego, cirurgia, dor de cotovelo, parto... Nada deixou de sair da melhor forma quando ela intercedeu por nós.

Só que o molde de vovozinha das histórias infantis termina por aí! Muito além da Jandyra que a gente vê na foto, tem a alegria, força e vitalidade que explodem onde ela estiver!

Não tem como ignorar sua sonora gargalhada, sem medo de mostrar que está feliz! Ela jamais deixou de expressar por inteiro as emoções, seja de alegria, seja de tristeza, seja de raiva ou de irritação. Nunca me esqueço de uma vez, eu devia ter uns 12 ou 13 anos, quando ela ficou na nossa casa tomando conta dos netos durante uma viagem dos meus pais. Nem sei o que é que eu e meus irmãos estávamos aprontando, só me lembro dela empurrando para longe uma mesinha de centro com o pé e gritando: MERDA!

Isso aí! A vovozinha de cabelos branquinhos sabia muito bem se fazer ouvir quando precisava! Só que a grande verdade é que são raríssimos os momentos como esses que eu tenho guardados na memória. Quando penso nessa minha avó, o que me vem à cabeça são imagens de risos, dança, festa e alegria. E não dá pra dizer que ela nunca tenha tido motivos para reclamar. Teve sim, e muitos!

Aos 11 anos, mais velha de cinco irmãos, perdeu a mãe que tinha apenas 28 anos. O pai dela, meu bisavô, era um homem ligadíssimo à beleza, trazia a si mesmo e aos filhos sempre bem arrumados de acordo com a vanguarda do mundo fashion, que devia chegar com décadas de atraso à pequena cidade do interior de Minas Gerais. Não importa! Minha avó Jandyra devia ser a própria imagem da melindrosa dos anos 20, com sainhas curtas e chapéus enterrados na cabeça.

Com a morte da mãe ela foi morar com tias que, escandalizadas com aquelas modernindades, costuraram tecidos quaisquer aos vestidos que ela teve de usar mesmo assim. O pai se casou de novo anos mais tarde e a madrasta tinha quase a idade dela. O relacionamento foi difícil, mas as duas se reconciliaram anos depois. Ela também se casou, teve filhos, e diante das dificuldades da vida no interior de Minas, viajou com o marido e a prole para começarem nova etapa no Paraná. Dito assim parece simples. Mas não consigo deixar de ficar impressionada e curiosa em imaginar como aconteceu essa viagem de mudança com nove filhos pela mão e a décima na barriga, de trem, por mais de mil e duzentos kilômetros de distância! A filha mais nova (minha mãe), tinha pouco mais de dois anos! Ela tinha toda a razão de repetir muitas vezes, deixando completamente a modéstia de lado: Êta eu!

A vida recomeçou no norte do Paraná e por ali seguiu. Com os dez filhos. Além desses, alguns abortos. Mas raramente ela comentou os filhos que não vingaram. Ao longo dos anos foi cada vez mais normal as pessoas se espantarem com a sua força e vitalidade. A resposta foi sempre a mesma: 10 filhos, 34 netos, 39 bisnetos e 3 tataranetos! Êta eu!

Não é que minha avó Jandyra não tivesse consciência das dificuldades pelas quais passou. Tinha. Mas ela, sem ignorar o lado feio da vida, sempre fez questão de focalizar o olhar no lado bonito dela. E essa concentração na visão do belo fez com que ela se sentisse sempre cheia de razões para ser feliz. O ruim existia, claro. Mas era solenemente ignorado.

Há mais de 20 anos um problema na coluna a obrigou a usar constantemente um colete ortopédico. Posso imaginar o quanto deve ser desconfortável um colete ortopédico. Mas o que ela fez foi aproveitar o colete para andar toda empertigada e ainda mais elegante. O colete impediu que ela curvasse os ombros e adotasse a atitude derrotada que eu vejo em tantas pessoas, às vezes bem mais novas do que ela.

Agora que parei para pensar no tempo do colete, vi que os números associados a essa minha avó são sempre grandes. Desde a numerosa descendência até os tempos de experiência...

No começo falei dos seus bordados à máquina, coisa que ela começou a aprender ali pelos 10 anos de idade. São mais de 80 anos de experiência já que ela completou 96 anos no ano passado. O colete ortopédico não deixava mais que ela ficasse sentada muitas horas seguidas. Em vez de reclamar, decidiu aprender crochê. Aprender uma coisa nova aos 70 anos de idade! E eu vejo tanta gente de 40 por aí dizendo que já cansou...

Recentemente descobri que sou um plâncton. Hoje penso que minha avó Jandyra sempre foi um plâncton. Só não se deu conta disso. A vida a foi guiando por caminhos diversos, nem sempre fáceis, e ela se deixou levar. Em cada novo destino encontrou seu bem-estar e continuou a descobrir razões para gargalhar e ser feliz. E, se por acaso alguma contrariedade pegava fundo, se a irritação viesse, sua reação era cantar. Não dizem por aí que quem canta seus males espanta? Quando começava a cantar a gente já sabia que ela estava espantando os seus males.

Eu me sinto um pouco pretensiosa em encontrar semelhanças entre nós duas, já que minha admiração por ela é imensa. Mas não consigo deixar de notar essas proximidades. Desde a mais bobinha delas, a coincidência nas iniciais e quantidade de letras dos nomes, Jandyra e Juliana, até o fato de sermos ambas librianas, apaixonadas pelo bordado e pela máquina de costura, enlouquecidas por flores e por um lindo pôr-do-sol.

Deve ser essa atração do libriano por tudo o que é bonito e harmônico. Nem sei quantas vezes ouvi minha avó comentar a respeito da sua própria roupa que Essa costurinha aqui da gola combina direitinho com a cor da minha meia, você viu? Também sou obcecada pela combinação de cores até mesmo nas peças que não se podem ver, se é que vocês me entendem, que sempre que possível vão combinar com a roupa que eu estiver usando. É mania, eu sei! Mas agora vocês sabem que é herança genética e que esse tipo de herança é incontrolável.

Quanto às flores, nunca consegui ter seu dedo verde... Adoro flores, não tem como passar por elas sem me sentir atraída, sem, no mínimo, olhar. Mas não consigo ter um vasinho sequer na minha casa. Já minha avó cercou suas casas de flores. Seus jardins sempre foram os mais floridos da rua e, até mesmo na hora de casar, ela conseguiu encontrar um marido cujo nome de batismo era a versão masculina do nome de uma flor: Accácio.

Claro que eles devem ter tido suas dificuldades como qualquer casal, é evidente que essa união foi como todas as outras, feita de concessões e ajustes de ambas as partes. Mas a imagem idealizada que eu tenho dos dois é a de uma união de corpo e alma, daquelas de filme da sessão da tarde, que fazem a gente dar um longo suspiro no final e dizer isso é coisa que só acontece no cinema...

Quando ele se foi, ela instalou rodinhas nos pés e passou a viajar constantemente, pulando da casa de um filho para a casa de outro. Provavelmente foi o jeito plâncton que ela encontrou de driblar a tristeza e de enganar a memória. Estando sempre fora de casa, ela podia criar a ilusão de que um dia voltaria para a sua própria casa e para o seu companheiro. Sábia Jandyra... Foram mais de 50 anos de vida em comum com aquele que o inconfundível sotaque mineirês transformou em Cassim.

Aliás, o tal do mineirês corre forte nas minhas veias. De tanto ouvir da minha avó frases como Tô pelejano nesse fugão pra fazê uma abobrinha afogadinha, tenho a sensação de que vivi nas Minas Gerais. É incrível isso, mas mesmo sendo paranaense, tenho saudade de Minas. Saudade do que não vivi, dos lugares onde não morei, das paisagens que não vi. Talvez seja por isso que eu faça tantas fotos. Procuro captar e fixar as imagens que tenho dentro de mim como uma forma de materializar minhas emoções. Uma tentativa de me traduzir em imagem. A chegada da máquina fotográfica digital permitiu que eu extravasasse meu interior sem medo e sem culpa, e nos últimos anos acumulei milhões de bytes em fotos.

Meus objetos mais freqüentes de cliques são, não por acaso, as flores, uma bela paisagem, um lindo pôr-do-sol, e o que eu chamo de texturas, cliques em close de cascas de árvore, pedras, areia, água... Uma vontade de captar o detalhe, a cor em estado puro, quem sabe, para com elas tecer um bordado de vida.

Como disse, as flores são minhas musas assim como um belo pôr-do-sol e, na grande maioria das vezes, era na minha avó que eu pensava quando via o resultado das fotos. Sei que não sou original nos meus temas fotográficos, mas não tenho qualquer pretensão profissional nessa área. Quero apenas refletir nelas o que carrego dentro de mim. E essa paixão pelo pôr-do-sol e suas cores mutantes é igualmente herdada da minha avó.

Um dia assistíamos as duas a um poente maravilhoso que era possível observar da janela do apartamento em que eu morava nos meus já longínquos 17 anos. Hoje uma cortina de prédios se interpõe entre meus olhos e o sol mas, naquela época, do oitavo andar tínhamos garantidos espetáculos quase diários. Naquele dia eu e minha avó olhávamos mudas para o sol que se escondia no horizonte, invejando secretamente a capacidade da natureza de brincar com as cores daquela maneira desconcertante. Num determinado momento, sem desviar os olhos do céu em brasa, ela me disse: Depois que eu morrer, quando você assistir a um pôr-do-sol desses, lembre de mim.

Eu olhei para ela querendo esboçar um protesto porque para mim ela era imortal. Mas não disse nada. Segui meus dias e meses assistindo a tantos outros ocasos e, nos últimos anos, fotografando todos os que consegui. Na última semana tivemos dias lindos em Curitiba, mas infelizmente a correria em que vivo não me deu a chance de ver nenhum pôr-do-sol. O que eu desconfio, é que eles devem estar muito mais bonitos, já que minha avó Jandyra, há sete dias tomou um grande embalo nas rodinhas sob seus pés e fez mais uma viagem, a última aqui dessa nossa Terra. O céu certamente está muito mais bonito e decorado. Provavelmente, logo estará também cheio de toalhinhas bordadas, é certo!

Agora minha avó Jandyra já é também parte do meu arsenal de imagens. Uma imagem composta de tantas outras, de flores, de paisagens, de bordados, de cores e de poentes. A partir de agora, minha avó existirá dessa forma dentro de mim:

Mosaico criado com o programa AndreaMosaic 3.23 Beta (referência no fim do post)

Usei um programa de computador que transformou parte das minhas fotos particulares nesse mosaico. Quanto mais de longe a gente olha a imagem, melhor enxerga a foto original...

Quando ela fez 90 anos, muita gente da família escreveu uma pequena história sobre ela e essas histórias foram reunidas em um livro. Eu quis muito escrever alguma coisa também naquela época, mas não consegui. Por quê? Não sei... Acho que ainda me faltava muita compreensão da vida. Da minha própria e também da vida dela. Eu não estava pronta. Senti muito não ter contribuído com aquele livro que ela tão orgulhosamente mostrou a tanta gente.

Hoje, uma semana depois de ela ter ido embora, com sete anos de atraso, faço a minha homenagem e coloco em palavras a imensa admiração que tenho por ela e pela vida que ela viveu.

Quero, como ela, ser capaz de diminuir a importância dos maus momentos, para enaltecer os bons. Quero ter vontade de aprender coisas novas aos 70, 80, 90 anos. Quero dançar no baile de formatura dos meus netos até às seis horas da manhã como ela dançou no meu quando tinha 82 anos. Quero me olhar no espelho aos 94 anos e dizer Não sei, mas acho que estou começando a ficar um pouco enrugada... Quero fazer meus bordados e costuras enquanto meus olhos e minhas mãos suportarem.

Não... Contrariamente ao que eu pensava aos 17 anos, minha avó não era imortal. Não aqui na Terra. E, pensando bem, o doce Accacinho já devia estar morrendo de saudades da sua Jandyra. No meu mundo interno, povoado de imagens, eu tinha de criar uma também para esse momento. Mas para isso não tinha máquina fotográfica, nem programa de computador que desse jeito. Por isso, inspirada num desenho que vi num jornal quando morreu o cantor Gonzaguinha, criei agora minha própria cena, como eu acredito que ela aconteceu. É uma pena que eu não lembre o nome do artista que fez o desenho que inspirou o meu (nem mesmo a santa Internet conseguiu me ajudar dessa vez). Mas tudo bem. Minha imagem está criada, desenhada a mão mesmo, e deixo aqui como parte dessa homenagem.

Lá de onde eles estiverem, espero que consigam também ver o que desejei para os dois...

Êta eles!

Versão para impressão

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A Internet é realmente uma coisa maravilhosa! O mosaico criado com a foto da minha avó só foi possível porque encontrei um excelente programa gratuito na Internet chamado Andrea Mosaic. Aqui vão os dados para quem quiser também utilizá-lo, ou conhecer os interessantes trabalhos que podem ser feitos:

AndreaMosaic Beta
Copyright (c) 1997-2008 Andrea Denzler
Version 3.23 Beta Tile Aspect Ratio 12:9
http://AndreaPlanet.com/andreamosaic

Para quem quiser baixar o mosaico e ver todos os pedacinhos individualmente, clique aqui.

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Caso esteja aparecendo uma mensagem de erro no momento de baixar os arquivos (fotos e texto), deixe para voltar ao site em outro momento. O Yahoo (local onde coloco os arquivos para download) tem um limite diário de acessos. Uma opção é clicar o link com o botão direito do mouse e selecionar a opção Salvar destino como.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Sai de baixo, piiiiiiiiii!

Esses dias eu estava lendo o blog da minha amiga Carol e não pude deixar de me sentir solidária a ela ao conhecer suas idéias sobre TPM . Na minha recém-inaugurada série de escritos sobre os grandes tormentos da humanidade não poderia faltar um tratado científico-psicológico sobre este, que é o maior tormento da vida de uma mulher, e de seus filhos, e de seu marido, e da sua mãe, aliás, de toda a sua família, mas também de suas amigas e amigos, até mesmo do seu amante, se ela por acaso tiver um! Para falar bem a verdade, ninguém escapa da fúria de uma mulher com TPM! Do pipoqueiro ao açougueiro, do padre ao verdureiro, é uma verdadeira chacina!

Ouvi dizer que na Inglaterra, no caso de uma mulher cometer um crime, a TPM pode até ser usada como atenuante. Se essa pobre coitada conseguir provar que estava em período pré-menstrual, o crime ganha uma certa complacência do juiz. Sabendo disso, perdi a conta de quantas vezes quis cruzar o Canal da Mancha quando morava na França, só para poder encher de bolacha a cara de um inglês qualquer. Ele até podia usar de acompanhamento no seu fleumático five o’clock tea se quisesse!

Desde que dei uma passada pelo blog da Carol, fiquei pensando que devia eu também descrever esse tormento. Dar meu depoimento, contar minha triste história, dizer às mulheres do mundo que sou solidária a todas elas nesse sofrimento.

Mas então, uma coisa extraordinária aconteceu... Vagando por um sebo no centro da cidade, sem querer derrubei minha caneta no chão. Quando me abaixei para pegá-la, vi um caderno empoeirado, caído embaixo de uma estante. Não resisti! Peguei o tal caderno, assoprei a grossa camada de poeira que havia sobre ele e abri cuidadosamente suas folhas. Era um diário! Páginas e mais páginas preenchidas com uma letra redonda e miúda. Não sei vocês, mas eu adoro romances epistolares (feitos só de cartas). Da mesma forma, adoro histórias que contêm diários, bilhetes e coisas do gênero. Tenho sensação de estar olhando pelo buraco da fechadura, descobrindo segredos. Por isso encontrar aquele diário me deixou animada. Era um diário de verdade! Uma pessoa de carne e osso tinha escrito tudo aquilo! Um diário é quase um Big Brother literário, vocês vão concordar comigo.

Folheava ao acaso o caderno quando um papel solto e dobrado ao meio caiu no chão. Continha um texto pungente, tocante, quase poético. O diário era de uma mulher, não havia dúvidas. Aquela página estava sem data, mas nem precisava! Ele descrevia suas experiências e sensações num dia em plena TPM. A identificação foi imediata! Eu não poderia ter encontrado palavras melhores para explicar aquilo tudo pelo que ela tinha passado! Nem preciso dizer que comprei imediatamente o tal diário.

Essa mulher, cujo nome eu ignoro porque a capa foi arrancada, descreveu perfeitamente tal suplício. Eu jamais teria feito melhor, por isso peço a permissão de vocês para transcrever aqui essa página solta.

Aviso de antemão às almas mais sensíveis que o vocabulário que ela usou é... como dizer, duro, direto, sem meias-palavras. Se alguém se sente desconfortável com esse tipo de linguagem é melhor nem continuar a ler esse post. Mas acho que todas as mulheres sentirão uma espécie de identificação...

Ah! Se você tem menos de 18 anos, também recomendo parar a leitura... Sei lá...

A não ser, é claro, que já seja uma mocinha. A partir do dia em que menstruamos a primeira vez, passamos a ter o direito até de cometer crimes! Temos todo o direito de dizer o que quisermos, do jeito que bem entendermos!

Lá vai!

Querido e amado diário,

Mas por que é que a gente tem essa PORRA, essa BOSTA, essa MERDA dessa TPM?!!!

Ontem eu quase peguei a caneta para escrever por aqui meu bilhete de adeus!

Depois de DIAS tendo só uma entre duas escolhas possíveis: matar ou morrer, decidi que deveria preservar a integridade física, pelo menos das pessoas da minha família, e fui para o parque Barigüi (o dia estava lindo).

2Km antes de chegar na entrada do parque já comecei a me perguntar porque CARALHO existe tanta gente no mundo, e o pior: por que aqueles LAZARENTOS todos decidiram ir ao parque NA MESMA HORA QUE EU, CACETE?!!!

Tive de estacionar no QUINTO DOS INFERNOS e caminhar até o ponto que eu mais gosto do parque que é no extremo oposto do lugar onde tinha achado vaga. Só que tinha MILHARES de pessoas lá! Gente namorando, crianças correndo, velhinhos de bengala: POR QUE ESSA GENTE TODA NÃO FICA CONFORTAVELMENTE EM CASA, PUTA MERDA?!!!

Vão namorar numa cama que é lugar quente!

Ponham essas crianças na frente da TV pra elas pararem de encher o saco!

E essa velharada toda, enfiem num asilo com Rivotril na veia, assim eles ficam babando e não vão ao Barigüi num domingo de sol atrapalhar a minha CRISE DE TPM, MERDAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!!

Por sorte deles eu saí desarmada! Nem mesmo um cortador de unhas! DROGA!

Andei, andei, andei.... Sentei embaixo de uma árvore, DE COSTAS para a pista de cooper, de frente para o lago, de um jeito que as únicas pessoas que eu seria capaz de ver eram aquelas que quisessem cometer suicídio! Se passasse pela minha frente eu jogava! E tem jacaré naquele lago!!!

Fiquei mais de uma hora sentada embaixo daquela árvore! Escrevi páginas e mais páginas de cartas indignadas, chorei baldes de lágrimas. Daí o sol que estava torrando a minha cara se pôs, aquele calorzinho desapareceu, começou a fazer um frio do CACETE e eu tive de ir embora! Peguei engarrafamento (até num domingo, PUTA-QUE-O-PARIU!!!), errei o caminho da padaria, as moças se perderam todas no pedido, mandei meio-mundo à MERDA e voltei ao recôndito do meu lar.

Ao entrar em casa, ouvi imediatamente meus filhos que se pegavam a tapas pra ver quem ia tocar o piano! Fechei o piano a chave (lembrei de tirar as mãos dos dois antes, mas foi no último segundo...), distribui meia dúzia de berros, coloquei a mesa do lanche, arrastei todo mundo pelo pescoço pra mesa a fim de termos PELO MENOS UMA REFEIÇÃO TRANQUILA NESSA CASA! Aí sentei na frente deles e chorei mais 30 minutos. Saíram as crianças, ficou o marido, solidário na alegria e na tristeza e todo aquele BLÁ, BLÁ, BLÁ...

Nessas horas a única coisa que me acalma é fazer alguma atividade manual. Levantei, com a cara deformada, fui para meu quarto de costura, o qual eu tinha colocado na mais absoluta ordem de manhã. Fiz isso porque, geralmente, quando estou em desordem por dentro, botar ordem nas coisas por fora (armários, gavetas, etc.) resolve uma boa parte dos meus problemas! Mas não ontem! Fiquei horas arrumando aquela BOSTA toda! E NÃO ADIANTOU PORRA NENHUMA!

Decidi costurar o acabamento em uma colcha de casal, cujo matelassê eu tinha mandado fazer com uma profissional recomendadíssima. É a primeira colcha de casal que eu faço pra mim na vida e a mulher CAGOU no trabalho! Já na sexta-feira quando fui buscar eu vi que ODIEIIIIIIIIIIIIIIIIIIII aquela linha azul cor de calcinha de PUTA que ela escolheu!

Nem bem tinha começado a costurar, bateu a canseira... Decidi enfiar um comprimido de Valium goela abaixo e me mandei pra cama para pelo menos dormir!!!

Hoje acordei, fui fazer um xixi e................ SANGUE!

Diário, tudo aquilo aconteceu por causa daquele sanguinho no papel higiênico que eu teria beijado se não fosse tão nojento!

Mas por que é que a gente tem de passar por esse tormento todos os meses?!!!

O pior é que ficar SEM não melhora em nada a situação! Ou é gravidez ou é menopausa! Não tem escapatória!!!

Ai ai...

Aliviei...

Sabe Diário, agora estou quaaaaaaase normal de novo...

Ainda estou meio PUTA DA CARA com essas espinhas (SIM!!!!!!!!!!!!!!!!!) e com o número que eu vejo na balança que não abaixa mesmo que eu passe fome (SIM!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!), mas sei que esses dois pequenos detalhes também têm ligação direta de fios desencapados com essa tal de menstruação.

Como é que a gente sobrevive a isso?!!!

Ainda bem que eu tenho você, querido Diário, que me escuta e me compreende sem ABRIR ESSA BOCA pra dizer uma única palavra de reprovação sequer. Se pelo menos o resto da humanidade fosse como você eu não precisaria mandar todo mundo TOMAR NO... PIIIIIIIIII!

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quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Aviso aos navegantes

Sabem do que senti saudade agora? Daquelas fotos nos livros da terceira série que mostravam umas espumas nojentas nas águas de um rio, com peixinhos boiando, todos mortinhos da Silva. Quem estranhou minha nostalgia esquisita não assistiu ainda ao filme Wall-e.

As crianças de hoje em dia têm muito mais motivos para ter pesadelos apocalípticos do que eu na mesma idade. Sim! Wall-e é um desenho animado, em teoria, diversão infantil. Mas tem muito adulto que deveria assistir. Longe de mim fazer propaganda consumista, mas é que esse filme mostra um futuro que esses dias eu vislumbrei... possível.

Também não tenho a intenção de estragar a história, mas é preciso falar um pouco do enredo.

Wall-e é um robô cuja função é compactar lixo em pequenos tijolos, empilhando-os depois. Super prático e organizado! O grande problema é que Wall-e está, literalmente, sozinho no mundo! Os humanos abandonaram a Terra e vivem em órbita a bordo de estações espaciais. Wall-e anda por uma cidade com imensos arranha-céus e, quando se vê de perto, percebe-se que esses edifícios são na verdade imensas pilhas dos tais tijolos de lixo compactado. Outros robozinhos como Wall-e estão caídos aqui e ali. Só ele sobreviveu porque, devido a algum erro de programação, tem a capacidade de consertar a si mesmo trocando suas próprias peças defeituosas pelas de outros robôs inutilizados. Além disso, como todo bom filme de robôs que respeite a memória de Isaac Asimov, criador das leis da robótica, Wall-e é dotado de sentimento. Coleciona carinhosamente cacarecos que vai juntando nas montanhas de lixo e tem surtos românticos assistindo a velhos musicais... Chega! Não digo mais nada, não conto que o assassino é o mordomo, nem sob ameaça de ser enterrada viva!

Mas a verdade é que ando me sentindo ameaçada. Era uma sensação meio vaga lá pela terceira série, mas vem crescendo com os anos a ponto de ter-se transformado quase numa obsessão: seremos sufocados pelo próprio lixo que produzimos! E o último a abandonar o planeta, se conseguir fazer isso, nem vai precisar apagar a luz. Ela já não existirá mais por falta de recursos para produzi-la! Quimérico? Considerando que a Quimera é um monstro mitológico com corpo e cabeça de leão, além de outras duas cabeças: uma de cabra e outra de dragão, mais um rabo de serpente e que solta fogo pelas narinas, acho até que ela pode ser considerada mansa como um cordeirinho diante do imenso monstro negro e fedorento de lixo que atualmente assombra meus pesadelos.

Semana passada fiz uma organização no quartinho de despejo aqui de casa. Vocês sabem como é, de vez em quando temos de colocar as coisas em ordem, jogar fora o que não é mais útil, guardar o que achamos que será útil um dia, mas que só voltaremos a ver na próxima organização, e assim por diante. Quando acabei, nem mesmo o prazer de ver tudo arrumadinho como os tijolos de lixo do Wall-e conseguiu diminuir meu terror em perceber a quantidade de sacolas plásticas que acumulei em casa em tão pouco tempo. Isso me espantou porque há pelo menos um ano evito o máximo que posso as sacolas plásticas. Carrego uma sacolinha de tecido dobrada na bolsa e vou colocando ali o que compro. Dá para dizer que consigo recusar 90% das sacolas que me oferecem porque, quando esqueço a sacolinha de tecido, o que acontece com uma certa freqüência, devo confessar, aceito a primeira sacola e vou colocando ali o que compro em seguida. Ao supermercado é comum eu levar um carrinho de feira ou sacolas reutilizáveis. Então, como pude juntar aquela quantidade impossível de sacolas plásticas?

Meu desespero foi ainda maior por conta de um texto que li num e-mail desses que rodam o mundo pela Internet em pacotes, pelo menos esses, ciberdegradáveis. Foi uma reflexão, um exercício de lógica muito simples, do estilo como não pensei nisso antes?

Em termos bem genéricos, as primeiras pesquisas que levaram ao desenvolvimento do plástico começaram ali por meados do século XIX. Hoje são inúmeros os tipos de plástico existentes e o tempo que eles levam pra se desintegrarem por completo varia de algumas décadas até infinitos milhares de anos. Vamos considerar uma média bem otimista de 200 anos para a maioria dos plásticos. Considerando que ainda estamos no início do século XXI, de meados do século XIX até hoje passaram-se uns 150 anos. Estão percebendo aonde eu quero chegar? Tirando uma pequena parcela que tenha sido reciclada, quase todo o plástico produzido desde o início até hoje ainda está por aí! Não é assustador? Tenho a impressão de que as pessoas pensam que caminhões de lixo são como cartolas de mágico que fazem desaparecer as coisas. Basta ser educadinho e não jogar lixo nas ruas e pronto! Fim do problema. Mas essa não é a verdade! O civilizado latão de lixo é só o início de um gigantesco problema. Vocês também estão sentindo, como eu, a montanha de detritos crescendo ao nosso redor?

Nem sei mais se foi bom ou ruim refletir sobre isso porque agora olho para este copo de plástico no qual acabei de tomar um suco de mamão como se ele fosse um inimigo prestes a pular na minha garganta e me asfixiar em segundos! O canudinho entrará pelas minhas narinas e a bandeja em plástico rígido golpeará minha cabeça até que perderei os sentidos nesta cadeira cujo assento é feito de uma imitação plástica de palha, sob o guarda-sol cuja cobertura é feita de uma imitação plástica de tecido e... Ei! Preciso interromper meu delírio histérico-ecológico para perguntar a alguém por que diabos poliméricos é necessário esse guarda-sol se estou dentro de um shopping center coberto?

Olho para as mesas ao meu redor. As pessoas comem despreocupadamente enquanto eu, em verdadeiro surto bioparanóico, estou imaginando um motim iniciado pelos porta-guardanapos, todos de acrílico, os quais, a um sinal previamente combinado comandarão o levante dos talheres plásticos que voarão descoordenados, atraindo das carteiras todos os cartões, sejam eles de crédito, de débito, de planos de saúde, de locadoras ou de lojas, mas todos com uma coisa em comum, ou seja, feitos de plástico! Tais cartões partirão em violenta revoada, abrirão e farão com que os imensos cestos de lixo vomitem os restos imortais de milhares de refeições fast food que de fast só têm mesmo a decomposição da food.

Aliás, experiência interessante a ser realizada: entrar no MacDonald’s e comprar um lanche da promoção. Em seguida separar cuidadosamente o conteúdo da bandeja em dois grupos. De um lado o que é comida e que vai, em pouco mais de 24 horas, se transformar em... bem, vocês sabem no que a comida se transforma! De outro, todos os papéis e plásticos resultantes dessa saudável refeição: a caixinha do sanduíche, a embalagem da batatinha, os saquinhos plásticos que guardam os dois guardanapos de papel, os próprios guardanapos, o canudinho acompanhado do papel que o embala individualmente, os saquinhos que guardam porções igualmente individuais de temperos nem sempre consumidas, mas sempre jogadas fora e, no caso de uma refeição infantil, também aquele brinquedinho, na grande maioria das vezes inútil e muito menos interessante do que parecia na propaganda, às vezes com luzinhas coloridas, portanto, contendo pilhas altamente tóxicas quando jogadas no lixo. Em resumo, tudo aquilo que vai demorar pouco menos de 24... séculos até ser consumido totalmente!

A competição na corrida da desintegração é injusta! Aquela comida vai rapidamente virar um mísero cocô e, assim mesmo, nem toda ela terá esse nobre destino já que boa parte vai se alojar na cintura do comensal, enquanto aquele lixo vai se instalar confortavelmente em algum aterro sanitário per omnia seculum seculorum. Um dia esse aterro ultrapassará, em altura, o Everest!

Quando esse dia chegar, teremos novos e interessantes esportes radicais, quiçá participantes dos Jogos Olímpicos. Escalaremos picos de montanhas de garrafas PET, faremos rafting em mal-cheirosas corredeiras de chorume, praticaremos rapel em falésias de velhos eletrodomésticos amontoados e executaremos emocionantes saltos de bungee jump nos cânions formados de pneus empilhados. Evidentemente precisaremos de máscaras de gás para evitarmos os exames anti-dopping contra os vapores alucinógenos que aspiraremos em ambientes tão bucólicos.

Nem Stephen King, mestre das histórias de horror, imaginou cenário igual!

E olhem que estou me concentrando só no lixo que não é biodegradável. Nem estou mencionando o gasto de energia para produzir tudo isso.

É por esse motivo que um filme como Wall-e deveria ser executado repetidas vezes, até a exaustão, em todas as TVs de plasma que substituem rapidamente as antigas e obsoletas TVs de tela plana, produzidas há longínquos dois anos. Essa tralha inútil aguarda lentamente a desintegração daquelas outras TVs, verdadeiros dinossauros tecnológicos, cujas imagens eram produzidas por tubos de raios catódicos.

Falando em tubos, uma vez abri um tubo de pasta de dentes e vi que ele tinha uma minúscula película de papel metalizado que deveria ser retirada. Para que? Evitar contaminação, alguns se apressarão em me explicar. Imediatamente imaginei o que aconteceria nesse mundo ideal e asséptico se a população de um país como a China tivesse também acesso a tubinhos de pasta de dentes com aquela película protetora. Um bilhão de pessoas usando, digamos, um tubinho de pasta de dentes por mês! Vamos esquecer o destino do próprio tubo vazio, e vamos pensar nas 12 bilhões de películas de papel metalizado atiradas displicentemente no lixo que serão acumuladas no prazo de um ano. Será um belo espelho para refletir os raios solares e mandá-los de volta ao espaço evitando, assim, que o último chinês a abandonar a Terra tenha de também apagar a luz do sol!

A cada item descartável de conforto com o qual me deparo, penso: e se todas as pessoas do mundo tivessem acesso ao mesmo conforto? Minha pergunta foi respondida em um programa de TV sobre meio-ambiente a que assisti há alguns anos. Saibam vocês que, para que todas as pessoas do globo tivessem uma vida com os mesmos e civilizados recursos disponíveis nos países do primeiro mundo, seriam necessários SEIS planetas Terra! Como não existem seis planetas Terra nesta minúscula galáxia em que somos condenados a viver, aparentemente é um só mesmo, vamos reconhecer que nosso conforto será responsável pela nossa maior fonte de desconforto num futuro que receio não estar muito distante. Para vivermos todos como no primeiro mundo, descobriremos que este era, na verdade, o último mundo disponível e que nós o teremos assassinado sob uma grossa camada de lixo!

Assustador é verificar que se considerarmos as opções de solução que temos seremos obrigados a decidir entre o ruim, o horrível e o inaceitável!

A humanidade começou pelo inaceitável. Imitando a Criação Divina, inspirou-se no avestruz e decidiu enterrar o lixo, mandando, literalmente, a sujeira para baixo do tapete de água ou de terra que cobre o planeta. Não demorou nem um século para perceber que não daria certo. Como são rápidos os humanos!

Passou, então, a considerar o horrível. Nova inspiração na Criação para implantar uma verdadeira idéia de jerico: mandar o lixo para o espaço! O negócio é que, vejam como é perfeita a Natureza, tudo o que sobe, desce. Chegaria o dia em que teríamos não mais chuvas de meteoritos em forma de românticas estrelas cadentes, mas sim, chuva de detritos. Não existiria guarda-chuva, nem mesmo com cobertura de plástico super rígido, que nos protegesse de uma sapatada na cabeça, quando esse sapato viesse do céu na velocidade da luz!

Chegamos, enfim, à opção pelo ruim. Mais uma vez inspiração na natureza, especificamente nas árvores que transformam gás carbônico em oxigênio, ou seja, fazem reciclagem. Ruim? Ruim sim, Senhores! Eu também me espantei quando ouvi essa opinião pela primeira vez, mas fui rapidamente convencida pelo seguinte argumento: o gasto de energia necessário para reciclar o lixo é tão grande, se não for maior, do que aquele necessário para produzir tal lixo!

Então não há solução possível? Nossa saída será mesmo uma plataforma de lançamento espacial, deixando a Terra para as baratas, teoricamente as únicas a sobreviverem? No filme Wall-e uma simpática baratinha é o único ser vivo a compartilhar com ele a cidade. Não sei vocês, mas para mim baratas só conseguem ser simpáticas em filmes de animação. Mas, no caso do Wall-e, o filme acabou sendo de desanimação com o futuro que nos espera.

Entretanto, acredito que há uma solução que a meu ver ainda deixa ter alguma esperança: não consumir, produzir menos e preservar mais, não criar o lixo que, se não existir, vejam que maravilha, não precisa ser reciclado!

Acabei de me lembrar de um outro terror de infância: a abertura de uma antiga novela chamada Sinal de Alerta, exibida pela Rede Globo nos anos 70. Da trama não tenho qualquer recordação, mas a abertura mostrava um mundo em que todos seriam obrigados a usar máscaras por causa da poluição. Infelizmente os prognósticos hoje são bem piores do que os de 30 anos atrás: não há máscaras que nos ajudarão a respirar se formos obrigados a nadar em um mar de lixo!

A responsabilidade é de todo e qualquer ser humano sobre a face desse planeta que, por enquanto, ainda é de terra e água. É aquela velha ladainha recitada por todas as mães do mundo: se cada um fizer a sua parte... Eu tento fazer a minha com os pequenos gestos que consigo incorporar no meu quotidiano. É peso na consciência, eu sei. Como carrego dentro de mim uma prótese de silicone, estou consciente de que eu mesma não sou mais biodegradável, então tento compensar de alguma forma. Mas é evidente que grandes meios de comunicação conseguem atingir muito mais corações e mentes do que uma simples cidadã como eu, receosa de que logo, logo não conseguirá ficar verde nem mesmo de inveja dos seres que habitarem planetas nos quais ainda será possível viver.

Que outros meios de comunicação tenham iniciativas como a dos roteiristas, produtores e diretores de Wall-e. Eles foram bons, mas ainda não foram perfeitos. Por curiosidade, passei numa loja de brinquedos e vi que até eles, quem diria, sucumbiram ao consumismo e lá estavam os brinquedinhos plásticos com os personagens do filme, acondicionados em embalagens plásticas e à disposição das crianças que brincarão com eles pela eternidade de uma semana, até o lançamento do próximo sucesso de bilheteria com seus novos brinquedinhos plásticos, acondicionados em embalagens plásticas, ...

Por favor, sejamos rápidos! O filme traz uma sugestão de, talvez, quem sabe, um possível final feliz, mas se a coisa continuar como está... Não quero ser pessimista mas acho que nem estação espacial vai conseguir navegar no mar de lixo intergaláctico que gravitará pelo universo!


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domingo, 3 de agosto de 2008

Quando uma palavra só não basta

As línguas têm palavras que são difíceis, às vezes impossíveis, de serem traduzidas. Por exemplo, todo mundo já ouviu falar que nós, descendentes de Camões, temos uma palavra que não existe em outros idiomas: saudade. Não é que as outras pessoas do mundo não sintam saudade. Elas sentem, é claro! Principalmente quando vêm para o Brasil, passeiam pelas praias do Nordeste e voltam pra terrinha deles... Duvido que um norueguês, no meio de uma tempestade de neve, não morra de saudades de uma praia de areias brancas e coqueirais. Nessa situação, além de alguns palavrões, ele vai ser obrigado a usar diversas palavras para explicar o que sente, palavras essas que provavelmente são empregadas também em outros contextos. Nossa vantagem sobre ele é, com uma só palavra, dizer tudo!

Isso não é privilégio nosso, pasmem! Ao aprender outras línguas acabamos descobrindo palavras que dizem o que nós, sucessores de Machado de Assis, precisamos de frases inteiras para explicar. Um exemplo é o verbo dépayser do francês. Se quiséssemos achar um equivalente teríamos de inventar algo como despaisar. Diríamos: Estou me sentindo despaisado; Nessas férias eu quero mais é me despaisar; Fiquei completamente despaisado naquela festa... Não dá.

Dépayser significa mudar de lugar, estar fora do ninho, fora de casa, mudar de ares. Pode ser bom ou ruim, depende do contexto. Quando saímos de férias é justamente o que buscamos: mudar de ares, conhecer o novo, viver o diferente...

É exatamente por esse motivo que alguém sai de Curitiba no mês de julho e enfrenta o tormento de fazer malas, horas de aeroporto, turbulência, lanchinho de avião e se manda pro Nordeste. Para dépayser. Deixar para trás os dias monocromáticos em tons de cinza, a garoa e o frio, para inundar os olhos com apenas três cores: o azul do céu, o verde do mar e o branco da areia. Não é por outra razão que uma foto como essa vai parar na ala surrealista do meu museu particular:



Curitiba? Não! João Pessoa! Bem no fundo vocês NÃO conseguem ver a Ponta do Seixas, o ponto mais a leste de todas as Américas. O que vocês também NÃO conseguem ver é onde termina o azul do céu e começa o verde do mar porque tudo está CINZA! E essa, exatamente essa, foi a minha visão quando acordei no quinto dia de viagem. Enfiei uma roupa preta em sinal de protesto e estava quase para sair quando recebi um SMS de uma amiga: E aí? Já tá bronzeada? Olhei novamente para os meus braços e me lembrei do dia anterior, quando tinha passado horas acompanhando uma divertida corrida de hemácias pelas minhas veias aparentes sob a pele translúcida depois de cinco anos sem ir a uma praia. Praia essa que eu olhava naquele instante, de dentro do carro, para me proteger da chuva torrencial que caía! Piadinha de mau gosto aquele SMS, naquele momento em que eu acabava de dar de cara com outra piadinha ainda mais sem graça, dessa vez de São Pedro.

Respondi o SMS da minha amiga: Bronzeada? Alguém pinchou uma maldição! Quase só tempo nublado. Mentira! De vez em quando chove também!

Mau humorada, reconheço, mas quem não estaria?

Só que turista é turista e, além disso, ninguém tinha disposição para fazer bolinho de chuva nem chocolate quente. Saímos mesmo assim. Fomos ver de perto a Ponta do Seixas, o ponto mais a leste das Américas, aquele que não era possível enxergar da janela do hotel. É o primeiro lugar do Brasil onde se vê o sol nascer isso, é óbvio, quando o céu não está desabando em estado líquido como naquele momento! Nesse lugar existe um farol e, atrás dele, foi recém-inaugurado um museu, centro cultural, obra inconfundível de um dos meus ídolos, Oscar Niemeyer:


Lugar amplo, as rampas laterais usadas para chegar aos andares do museu admirando a paisagem. O prédio totalmente de vidro pelo mesmo motivo. Um mirante no topo de onde é possível ver o mar. Mas nós não vimos nada disso porque ninguém conseguia sequer levantar a cabeça, muito menos abrir os olhos debaixo daquela chuva de vento! Pelo menos posso dizer que já fui testemunha de uma chuva horizontal, tão forte era a ventania. Meu investimento em protetor solar foi, literalmente, por água abaixo. Só não perdi tudo o que tinha investido no meu kit-de-verão-para-o-mês-de-julho porque a novíssima e belíssima canga de araras foi excelente para me secar do banho. De mar? Claro que não! De chuva! E a outra canga que sobrou seca foi extremamente útil. Como saída de banho? Nem pensar! Como echarpe, cachecol, xale, só não foi usada como casaco porque não tinha mangas!

Eu disse que dépayser podia ser usado no bom sentido de novos ares, mas também na situação em que a gente se sente meio peixe fora d’água. Era isso que eu estava procurando! Exatamente isso! Ser um peixe FORA d’água e não DEBAIXO dela como naquele momento!

Há quem pense que o ideal num dia como esses seria flanar num dos templos de consumo que existem em qualquer cidade grande: um shopping center. O problema é que esse foi o programa da véspera, dia em que passamos igualmente debaixo de um toró! Ninguém merece!

Assistindo ao noticiário na noite desse dia, vimos a comovente história de uma família paraibana que se mandou para o Rio Grande do Sul com o objetivo exclusivo de conhecer o frio. Como nós entendemos a sensação deles ao chegarem a Porto Alegre sob sol escaldante e temperatura de 28 graus! Viraram a Terra de cabeça para baixo e esqueceram de nos avisar? Para piorar nosso humor, as notícias que recebemos de Curitiba não foram muito diferentes: sol sem nuvens, temperaturas altas durante o dia e clima ameno à noite. E, para completar, tivemos de ouvir da repórter d TV a previsão para o dia seguinte: Amanhã o sol e o clima seco continuam em todo o país com exceção dessa pequena faixa no nordeste. Tive a impressão de ver um sorrisinho sarcástico na cara dela. Deve ter sido só impressão...

Na hora do desespero a gente sempre apela para o que tiver disponível. Decidi consultar um oráculo. Empunhei um notebook indignada confiando que Santo Google saberia nos informar aonde raios poderíamos ir para fugir da chuva. Dito e feito! Descobri que uma das atrações da Paraíba chama-se Lajedo do Pai Mateus no município de Cabaceiras. Essa região, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia e também de acordo com reportagem publicada no jornal Folha de São Paulo, reproduzida pelo site do governo do estado da Paraíba, tem um dos menores índices pluviométricos do país! Mais de dez meses de sol por ano! Era para lá mesmo que iríamos.

O mais interessante é que, justamente por ser um local onde quase não chove, o lugar é conhecido como... Não vou dizer! Vejam vocês mesmos:

Isso mesmo! Chegamos à Roliúde Nordestina! De acordo com a já referida reportagem da Folha, Cabaceiras é a “cidade favorita de diretores de cinema, por onde as nuvens carregadas de água passam e quase nunca param.” Por isso já foi locação de 22 filmes nacionais, entre eles, o Auto da Compadecida.

E a cidade vem se especializando. Tanto que em maio último foi inaugurado o letreiro que vocês viram na foto anterior e, ainda este ano, Cabaceiras ostentará orgulhosamente sua própria calçada da fama! Só que não serão eternizados os pés e mãos de nossos artistas nacionais, mas sim, dos bodes vencedores da tradicional festa Bode Rei que acontece todos os anos na cidade. Realmente, para quem estava querendo fugir da chuva não podia haver melhor locação para o nosso curta-metragem particular!

Chegando à cidade atravessamos uma ponte que cruzava um laguinho que eu quis fotografar. Pedi para estacionar o carro e, antes de dar dois passos do lado de fora parei imediatamente, completamente chocada! Eu não acreditava nos meus olhos, nem nas sensações na minha nuca, mas naquele exato instante... COMEÇOU A CHOVER! A prova irrefutável está aqui:


Estava chovendo na cidade de menor índice pluviométrico do país, a 200Km de distância de João Pessoa, em pleno cariri! Se Fagner cantava que só deixaria seu cariri no último pau-de-arara, eu confesso que estava topando qualquer meio de transporte, até mesmo disco-voador, se fosse pra escapar para um lugar onde deixasse de sentir pingos de água na cabeça!

E olhem que o risco de encontrar um marciano foi grande. Se Cabaceiras é bom cenário de filmes, o tal do Lajedo do Pai Mateus é perfeito para um remake de Ichtar Uórs com alteração mínima no figurino daquele cabra-da-peste do Darth Vader. É só substituir o capacete pelo chapéu de couro e a espada laser pela peixeira. O local é uma elevação de pedra, de uns 2Km quadrados, coberta de enormes rochas arredondadas que a gente tem dificuldade em entender como é que não descem rolando ladeira abaixo.


Isso é ainda mais intrigante se considerarmos o fato de que a chuva que nos recebeu em Cabaceiras, embora tivesse parado (uma nuvem passageira que com o vento não se foi), voltou a nos recepcionar no exato momento em que botamos os pés para fora do carro no tal Lajedo, 25Km de Cabaceiras cariri a dentro, o que deixou escorregadio o chão. Vocês podem estar aí morrendo de rir e achando que eu estou aumentando as coisas, mas não é exagero, nem invenção! A canga usada pela minha mãe como proteção da chuva, além dos respingos na lente da máquina não me deixam mentir:


A chuva ainda foi e voltou algumas vezes nesse dia de aventuras por estradas improváveis, passando por locais impossíveis, que não estavam nem no GPS. Literalmente! O importante é que, além de conhecermos lugares interessantíssimos, tínhamos nos afastado de João Pessoa, cuja previsão dos sites meteorológicos era das mais úmidas: tempo nublado e chuva o dia todo!Nossa vantagem foi ter episódios esparsos de chuva e não aquele clima horrível da primeira foto que vocês viram.

A previsão para o dia seguinte era um pouco melhor e realmente o sol decidiu deixar as gracinhas de lado e, enfim, dar as caras no Nordeste. Como estávamos no extremo leste do país, fomos os primeiros a encontrá-lo pela frente. Que alegria!

Foi só por isso que eu não surtei completamente com o seguinte papinho de elevador, cujo assunto é sempre o mesmo de norte a sul do país: meteorologia!

- Bom dia.

- Bom dia.

- Tá difícil de acertar no programa, né? Eles prevêem chuva, mas faz sol. Hoje previram sol. Será que se confirma?

Achei que tinha entendido errado!

- Como assim? A previsão para ontem era de chuva e quando saímos estava chovendo mesmo. E muito!

- É verdade... Choveu ali pelas 8 da manhã, mas depois parou, abriu sol e fez um tempo ótimo o resto do dia. Se hoje já começou com sol, vamos torcer para que eles acertem dessa vez, né? Ah! Eu desço aqui. Até mais...

Ainda demorei alguns andares para conseguir recolher o queixo que estava caído na altura da cintura, mais ou menos. Então aquela nuvem que nunca pára em Cabaceiras nos acompanhou o dia todo? Se eu descobrir quem foi o invejoso que nos pinchou a tal maldição...

Bem, a verdade é que nosso pé-quente foi mais forte e os últimos dias da viagem foram só de sol, céu e mar. Até consegui me despaisar completamente, dessa vez no bom sentido, e ver da minha janela a Ponta do Seixas:


Vai deixar saudades...

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sexta-feira, 25 de julho de 2008

Deixa a onda me levar...

Há pouco mais de dois anos desenvolvi uma nova filosofia de vida. Já falei sobre isso com muitas pessoas e hoje venho a público oficializar o que já compreendi sobre mim: eu sou um plâncton! Isso mesmo. Um plâncton. Aquela criaturinha que vive no mar e que vai daqui para lá ao sabor da correnteza.

Por que cheguei a essa brilhante conclusão? Porque um dia acordei e percebi que não queria mais nadar contra a maré. Vi que era inútil, além de um gasto desnecessário de energia, tentar mudar o rumo das coisas ou me rebelar contra a grande corrente marinha da vida. Desde esse dia decidi: sou um plâncton e como plâncton viverei.

E como é a vida de plâncton? Simples, muito simples. Vou para onde a correnteza me leva, sem protestar ou resistir. Quando chego ao destino, ou mesmo no meio do caminho, vou me adaptando à nova realidade, procurando aproveitar o que tem de bom no novo ecossistema e tentando, na medida do possível, ignorar o que tem de ruim já que um plâncton do meu tipo, ou seja, um zooplâncton, vejam só, é animal e não planta, portanto, não cria raízes! Um plâncton hoje está aqui, mas amanhã vem uma corrente quente do Equador e leva ele embora. Que beleza! O que era mau não existe mais, o que era bom virou lembrança e vamos a novas descobertas!

É verdade que às vezes a corrente é fria e o pobre do plâncton entra numas geladas de dar dó. Aí o negócio é arranjar um bom cachecol, uma meia de lã e aproveitar pra tomar uns vinhos e comer fondue, porque no frio isso é tudo de bom!

Há quem pense que ser plâncton é ruim porque ele é comida de baleia, mas eu pergunto: quem é que garante que os peixinhos ou mesmo peixões que vão para onde querem conseguirão deixar de ir parar na goela da baleia? Já que não dá pra ser a própria baleia, melhor viver tranqüilo e quando for pra partir, coisa que vai acontecer a todos quer queiram quer não, NHOC!, que seja de uma só vez e sem dor. Claro que não tenho provas científicas disso, mas imagino que, na hora de virar lanchinho de baleia, muito melhor ser plâncton que é engolido de uma só vez do que ser dilacerado e mastigado aos pouquinhos, é ou não é?

Também vão aparecer aqueles que se sentem inferiores por serem apenas passageiros nessa corrente, por não controlarem o leme de seus próprios destinos, não decidirem a direção a seguir. A esses eu digo, mais uma vez, salve a vida de plâncton! Tudo isso aí é verdade, um plâncton não tem muito querer, até pode tentar aproveitar uma calmaria para escolher um ou outro rumo, porém, mais cedo ou mais tarde, virá uma onda que mudará irremediavelmente todos os planos.

Mas o bom de ser plâncton é que, como ele é carregado de um lado para o outro, não se cansa na viagem. Está sempre pronto pra balada assim que chega, embora às vezes esteja um pouco confuso com a mudança de rumo. E há inúmeras vantagens em ser passageiro na vida, vantagens essas impossíveis aos que dirigem: dá pra ficar olhando pela escotilha admirando a beleza da paisagem, dá pra estudar o mapa observando a trajetória percorrida e imaginando as inúmeras e surpreendentes possibilidades de caminho pela frente, dá pra fechar os olhos e dormir um pouco nos momentos de tédio, em tempos de lei seca não precisa se preocupar com o teste do bafômetro, dá até pra escrever com luz individual quando fica noite como é o caso na viagem de ônibus que faço nesse momento (sou um plâncton terrestre também, um dia a ciência descobrirá essa importante categoria!).

E o principal é que, quando cansar de tudo isso, é possível apagar todas as luzes e simplesmente observar a lua e as estrelas que surgirem pelo caminho. Com sorte dá até pra ver uma estrela cadente e fazer um pedido: que a vida me conserve plâncton para sempre!

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Eu tinha um outro post preparado para hoje, sobre minha experiência recente no nordeste. Mas inverti minhas prioridades para publicar esse texto em homenagem a uma amiga de longa data, Cláudia.

Que a corrente da vida não nos faça passar tanto tempo sem nos encontrarmos na mesma praia novamente! Senão vão nos expulsar ainda de muitos outras confeitarias, bares, restaurantes até conseguirmos colocar todos os assuntos em dia! Esses garçons que não entendem a nossa necessidade de falar muitas horas seguidas estão precisando conhecer minha nova filosofia :-)

Mais um aviso: logo voltarão as versões para impressão, inclusive dos posts recentes! Promessa!