Sabem do que senti saudade agora? Daquelas fotos nos livros da terceira série que mostravam umas espumas nojentas nas águas de um rio, com peixinhos boiando, todos mortinhos da Silva. Quem estranhou minha nostalgia esquisita não assistiu ainda ao filme Wall-e.
As crianças de hoje em dia têm muito mais motivos para ter pesadelos apocalípticos do que eu na mesma idade. Sim! Wall-e é um desenho animado, em teoria, diversão infantil. Mas tem muito adulto que deveria assistir. Longe de mim fazer propaganda consumista, mas é que esse filme mostra um futuro que esses dias eu vislumbrei... possível.
Também não tenho a intenção de estragar a história, mas é preciso falar um pouco do enredo.
Wall-e é um robô cuja função é compactar lixo em pequenos tijolos, empilhando-os depois. Super prático e organizado! O grande problema é que Wall-e está, literalmente, sozinho no mundo! Os humanos abandonaram a Terra e vivem em órbita a bordo de estações espaciais. Wall-e anda por uma cidade com imensos arranha-céus e, quando se vê de perto, percebe-se que esses edifícios são na verdade imensas pilhas dos tais tijolos de lixo compactado. Outros robozinhos como Wall-e estão caídos aqui e ali. Só ele sobreviveu porque, devido a algum erro de programação, tem a capacidade de consertar a si mesmo trocando suas próprias peças defeituosas pelas de outros robôs inutilizados. Além disso, como todo bom filme de robôs que respeite a memória de Isaac Asimov, criador das leis da robótica, Wall-e é dotado de sentimento. Coleciona carinhosamente cacarecos que vai juntando nas montanhas de lixo e tem surtos românticos assistindo a velhos musicais... Chega! Não digo mais nada, não conto que o assassino é o mordomo, nem sob ameaça de ser enterrada viva!
Mas a verdade é que ando me sentindo ameaçada. Era uma sensação meio vaga lá pela terceira série, mas vem crescendo com os anos a ponto de ter-se transformado quase numa obsessão: seremos sufocados pelo próprio lixo que produzimos! E o último a abandonar o planeta, se conseguir fazer isso, nem vai precisar apagar a luz. Ela já não existirá mais por falta de recursos para produzi-la! Quimérico? Considerando que a Quimera é um monstro mitológico com corpo e cabeça de leão, além de outras duas cabeças: uma de cabra e outra de dragão, mais um rabo de serpente e que solta fogo pelas narinas, acho até que ela pode ser considerada mansa como um cordeirinho diante do imenso monstro negro e fedorento de lixo que atualmente assombra meus pesadelos.
Semana passada fiz uma organização no quartinho de despejo aqui de casa. Vocês sabem como é, de vez em quando temos de colocar as coisas em ordem, jogar fora o que não é mais útil, guardar o que achamos que será útil um dia, mas que só voltaremos a ver na próxima organização, e assim por diante. Quando acabei, nem mesmo o prazer de ver tudo arrumadinho como os tijolos de lixo do Wall-e conseguiu diminuir meu terror em perceber a quantidade de sacolas plásticas que acumulei em casa em tão pouco tempo. Isso me espantou porque há pelo menos um ano evito o máximo que posso as sacolas plásticas. Carrego uma sacolinha de tecido dobrada na bolsa e vou colocando ali o que compro. Dá para dizer que consigo recusar 90% das sacolas que me oferecem porque, quando esqueço a sacolinha de tecido, o que acontece com uma certa freqüência, devo confessar, aceito a primeira sacola e vou colocando ali o que compro em seguida. Ao supermercado é comum eu levar um carrinho de feira ou sacolas reutilizáveis. Então, como pude juntar aquela quantidade impossível de sacolas plásticas?
Meu desespero foi ainda maior por conta de um texto que li num e-mail desses que rodam o mundo pela Internet em pacotes, pelo menos esses, ciberdegradáveis. Foi uma reflexão, um exercício de lógica muito simples, do estilo
como não pensei nisso antes?
Em termos bem genéricos, as primeiras pesquisas que levaram ao desenvolvimento do plástico começaram ali por meados do século XIX. Hoje são inúmeros os tipos de plástico existentes e o tempo que eles levam pra se desintegrarem por completo varia de algumas décadas até infinitos milhares de anos. Vamos considerar uma média bem otimista de 200 anos para a maioria dos plásticos. Considerando que ainda estamos no início do século XXI, de meados do século XIX até hoje passaram-se uns 150 anos. Estão percebendo aonde eu quero chegar? Tirando uma pequena parcela que tenha sido reciclada,
quase todo o plástico produzido desde o início até hoje ainda está por aí! Não é assustador? Tenho a impressão de que as pessoas pensam que caminhões de lixo são como cartolas de mágico que fazem desaparecer as coisas. Basta ser educadinho e não jogar lixo nas ruas e pronto! Fim do problema. Mas essa não é a verdade! O civilizado latão de lixo é só o
início de um gigantesco problema. Vocês também estão sentindo, como eu, a montanha de detritos crescendo ao nosso redor?
Nem sei mais se foi bom ou ruim refletir sobre isso porque agora olho para este copo de plástico no qual acabei de tomar um suco de mamão como se ele fosse um inimigo prestes a pular na minha garganta e me asfixiar em segundos! O canudinho entrará pelas minhas narinas e a bandeja em plástico rígido golpeará minha cabeça até que perderei os sentidos nesta cadeira cujo assento é feito de uma imitação plástica de palha, sob o guarda-sol cuja cobertura é feita de uma imitação plástica de tecido e... Ei! Preciso interromper meu delírio histérico-ecológico para perguntar a alguém por que diabos poliméricos é necessário esse guarda-sol se estou dentro de um shopping center
coberto?
Olho para as mesas ao meu redor. As pessoas comem despreocupadamente enquanto eu, em verdadeiro surto bioparanóico, estou imaginando um motim iniciado pelos porta-guardanapos, todos de acrílico, os quais, a um sinal previamente combinado comandarão o levante dos talheres plásticos que voarão descoordenados, atraindo das carteiras todos os cartões, sejam eles de crédito, de débito, de planos de saúde, de locadoras ou de lojas, mas todos com uma coisa em comum, ou seja, feitos de plástico! Tais cartões partirão em violenta revoada, abrirão e farão com que os imensos cestos de lixo vomitem os restos
imortais de milhares de refeições
fast food que de
fast só têm mesmo a decomposição da
food.
Aliás, experiência interessante a ser realizada: entrar no MacDonald’s e comprar um lanche da promoção. Em seguida separar cuidadosamente o conteúdo da bandeja em dois grupos. De um lado o que é comida e que vai, em pouco mais de 24 horas, se transformar em... bem, vocês sabem no que a comida se transforma! De outro, todos os papéis e plásticos resultantes dessa saudável refeição: a caixinha do sanduíche, a embalagem da batatinha, os saquinhos plásticos que guardam os dois guardanapos de papel, os próprios guardanapos, o canudinho acompanhado do papel que o embala individualmente, os saquinhos que guardam porções igualmente individuais de temperos nem sempre consumidas, mas sempre jogadas fora e, no caso de uma refeição infantil, também aquele brinquedinho, na grande maioria das vezes inútil e muito menos interessante do que parecia na propaganda, às vezes com luzinhas coloridas, portanto, contendo pilhas altamente tóxicas quando jogadas no lixo. Em resumo, tudo aquilo que vai demorar pouco menos de 24...
séculos até ser consumido totalmente!
A competição na corrida da desintegração é injusta! Aquela comida vai rapidamente virar um mísero cocô e, assim mesmo, nem toda ela terá esse nobre destino já que boa parte vai se alojar na cintura do comensal, enquanto aquele lixo vai se instalar confortavelmente em algum aterro sanitário per omnia seculum seculorum. Um dia esse aterro ultrapassará, em altura, o Everest!
Quando esse dia chegar, teremos novos e interessantes esportes radicais, quiçá participantes dos Jogos Olímpicos. Escalaremos picos de montanhas de garrafas PET, faremos
rafting em mal-cheirosas corredeiras de chorume, praticaremos rapel em falésias de velhos eletrodomésticos amontoados e executaremos emocionantes saltos de
bungee jump nos cânions formados de pneus empilhados. Evidentemente precisaremos de máscaras de gás para evitarmos os exames
anti-dopping contra os vapores alucinógenos que aspiraremos em ambientes tão bucólicos.
Nem Stephen King, mestre das histórias de horror, imaginou cenário igual!
E olhem que estou me concentrando só no lixo que não é biodegradável. Nem estou mencionando o gasto de energia para
produzir tudo isso.
É por esse motivo que um filme como Wall-e deveria ser executado repetidas vezes, até a exaustão, em todas as TVs de plasma que substituem rapidamente as antigas e obsoletas TVs de tela plana, produzidas há longínquos dois anos. Essa tralha inútil aguarda lentamente a desintegração daquelas outras TVs, verdadeiros dinossauros tecnológicos, cujas imagens eram produzidas por tubos de raios catódicos.
Falando em tubos, uma vez abri um tubo de pasta de dentes e vi que ele tinha uma minúscula película de papel metalizado que deveria ser retirada. Para que? Evitar contaminação, alguns se apressarão em me explicar. Imediatamente imaginei o que aconteceria nesse mundo ideal e asséptico se a população de um país como a China tivesse também acesso a tubinhos de pasta de dentes com aquela película protetora. Um bilhão de pessoas usando, digamos, um tubinho de pasta de dentes por mês! Vamos esquecer o destino do próprio tubo vazio, e vamos pensar nas 12 bilhões de películas de papel metalizado atiradas displicentemente no lixo que serão acumuladas no prazo de um ano. Será um belo espelho para refletir os raios solares e mandá-los de volta ao espaço evitando, assim, que o último chinês a abandonar a Terra tenha de também apagar a luz do sol!
A cada item descartável de
conforto com o qual me deparo, penso: e se todas as pessoas do mundo tivessem acesso ao mesmo
conforto? Minha pergunta foi respondida em um programa de TV sobre meio-ambiente a que assisti há alguns anos. Saibam vocês que, para que todas as pessoas do globo tivessem uma vida com os mesmos e civilizados recursos disponíveis nos países do primeiro mundo, seriam necessários SEIS planetas Terra! Como não existem seis planetas Terra nesta minúscula galáxia em que somos condenados a viver, aparentemente é um só mesmo, vamos reconhecer que nosso
conforto será responsável pela nossa maior fonte de desconforto num futuro que receio não estar muito distante. Para vivermos todos como no primeiro mundo, descobriremos que este era, na verdade, o último mundo disponível e que nós o teremos assassinado sob uma grossa camada de lixo!
Assustador é verificar que se considerarmos as opções de solução que temos seremos obrigados a decidir entre o ruim, o horrível e o inaceitável!
A humanidade começou pelo
inaceitável. Imitando a Criação Divina, inspirou-se no avestruz e decidiu enterrar o lixo, mandando, literalmente, a sujeira para baixo do tapete de água ou de terra que cobre o planeta. Não demorou nem um século para perceber que não daria certo. Como são rápidos os humanos!
Passou, então, a considerar o
horrível. Nova inspiração na Criação para implantar uma verdadeira idéia de jerico: mandar o lixo para o espaço! O negócio é que, vejam como é perfeita a Natureza, tudo o que sobe, desce. Chegaria o dia em que teríamos não mais chuvas de meteoritos em forma de românticas estrelas cadentes, mas sim, chuva de detritos. Não existiria guarda-chuva, nem mesmo com cobertura de plástico super rígido, que nos protegesse de uma sapatada na cabeça, quando esse sapato viesse do céu na velocidade da luz!
Chegamos, enfim, à opção pelo
ruim. Mais uma vez inspiração na natureza, especificamente nas árvores que transformam gás carbônico em oxigênio, ou seja, fazem reciclagem. Ruim? Ruim sim, Senhores! Eu também me espantei quando ouvi essa opinião pela primeira vez, mas fui rapidamente convencida pelo seguinte argumento: o gasto de energia necessário para reciclar o lixo é tão grande, se não for maior, do que aquele necessário para produzir tal lixo!
Então não há solução possível? Nossa saída será mesmo uma plataforma de lançamento espacial, deixando a Terra para as baratas, teoricamente as únicas a sobreviverem? No filme Wall-e uma simpática baratinha é o único ser vivo a compartilhar com ele a cidade. Não sei vocês, mas para mim baratas só conseguem ser simpáticas em filmes de animação. Mas, no caso do Wall-e, o filme acabou sendo de desanimação com o futuro que nos espera.
Entretanto, acredito que há uma solução que a meu ver ainda deixa ter alguma esperança: não consumir, produzir menos e preservar mais, não criar o lixo que, se não existir, vejam que maravilha, não precisa ser reciclado!
Acabei de me lembrar de um outro terror de infância: a abertura de uma antiga novela chamada
Sinal de Alerta, exibida pela Rede Globo nos anos 70. Da trama não tenho qualquer recordação, mas a abertura mostrava um mundo em que todos seriam obrigados a usar máscaras por causa da poluição. Infelizmente os prognósticos hoje são bem piores do que os de 30 anos atrás: não há máscaras que nos ajudarão a respirar se formos obrigados a nadar em um mar de lixo!
A responsabilidade é de todo e qualquer ser humano sobre a face desse planeta que, por enquanto, ainda é de terra e água. É aquela velha ladainha recitada por todas as mães do mundo: se cada um fizer a sua parte... Eu tento fazer a minha com os pequenos gestos que consigo incorporar no meu quotidiano. É peso na consciência, eu sei. Como carrego dentro de mim uma prótese de silicone, estou consciente de que eu mesma não sou mais biodegradável, então tento compensar de alguma forma. Mas é evidente que grandes meios de comunicação conseguem atingir muito mais corações e mentes do que uma simples cidadã como eu, receosa de que logo, logo não conseguirá ficar verde nem mesmo de inveja dos seres que habitarem planetas nos quais ainda será possível viver.
Que outros meios de comunicação tenham iniciativas como a dos roteiristas, produtores e diretores de Wall-e. Eles foram bons, mas ainda não foram perfeitos. Por curiosidade, passei numa loja de brinquedos e vi que até eles, quem diria, sucumbiram ao consumismo e lá estavam os brinquedinhos plásticos com os personagens do filme, acondicionados em embalagens plásticas e à disposição das crianças que brincarão com eles pela eternidade de uma semana, até o lançamento do próximo sucesso de bilheteria com seus novos brinquedinhos plásticos, acondicionados em embalagens plásticas, ...
Por favor, sejamos rápidos! O filme traz uma sugestão de, talvez, quem sabe, um possível final feliz, mas se a coisa continuar como está... Não quero ser pessimista mas acho que nem estação espacial vai conseguir navegar no mar de lixo intergaláctico que gravitará pelo universo!
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