sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Será que o Jassa ainda está vivo?

Ah o tempo, o tempo... Por que será que ele decide sumir dessa forma?

Aproveitando que o assunto do último post foram minhas madeixas, faço uma nova sessão Recordar é viver. É a prova de que meus infortúnios capilares vêm de longa data!

O post original é do meu outro blog, dia 19 de fevereiro de 2004. Nossa! Como passa o danado do tempo! E eu nem imaginava o que ainda viria pela frente com relação aos meus cabelos...

Antes de encerrar essa singela introdução, um comentário para matar a sede de curiosidade dos meus bleaders...

Parênteses. Aprendi ontem essa: um bleader é um blog reader. Vamos criar um termo nacional? Que tal bleitores?

Voltando ao assunto, saibam vocês, meus caros bleitores, que depois do evento que vão ler agora, passei um ano cortando eu mesma meu cabelo . Mas como não sou, nem nunca serei, uma boa cabeleireira, um dia capitulei e procurei outro salão. Antoine é o nome da criatura que devolveu um pouco de dignidade à imagem que eu via no espelho. Mas só um pouco... Diferente do Renato, meu cabelereiro brasileiro, o Antoine não tinha nada de mágico nem de santo e não sabia fazer milagres!

Até a próxima! Idéias são muitas, textos começados existem, mas ainda me falta encontrar o mágico ou santo que dará um jeito no meu tempo!

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Um dia desses parei pra fazer uma análise crítica e realista a respeito do meu estado físico geral depois de alguns meses morando na França. Vamos aos resultados:

· Quem inventou o velcro também teve de passar um tempo fazendo faxina, lavando as mãos constantemente, etc. A pele estava tão ressecada que eu já nem precisava mais pegar coisas de tecido, elas simplesmente colavam na minha mão e vinham junto comigo pela casa.

· Fazia tempo que não via minhas sobrancelhas e teria sido melhor continuar sem ver: elas estavam parecendo duas taturanas. Fiz um rabo-de-cavalo e meu primeiro ímpeto foi o de afugentar os bichos que estavam na minha cara. Foi só depois que eu percebi que eram as sobrancelhas.

· Meu cabelo? Sem comentários. A última vez que passou por um salão foi ainda no Brasil. Minhas luzes não passavam de, no máximo, um abajurzinho. A franja estava um verdadeiro caminho de rato, já que tinha feito a besteira de tentar fazer justiça com as próprias mãos, ou seja, cortar eu mesma.

· Para coroar, os quilinhos (dezenas deles) que se apaixonaram por mim e relutam em ir embora.

Apesar de tudo isso, estranhei quando me olhei no espelho e percebi um leve sorriso no meu rosto. Será que estava aprendendo a ser feliz mesmo na adversidade? Foi aí que observei mais de perto e vi que o sorriso, na verdade, era a pele repuxada. Tinha acabado meu creme hidratante.

Decidi dar um basta na situação!

Com as mãos fui radical: passei a usar luvas para tudo, até pra fazer xixi. As sobrancelhas eu mesma dei uma ajeitadinha. Coisa pouca. Só tirei os fios que estavam caindo dentro dos olhos e emendando tudo sobre o nariz, acabando com aquele ar de Frida Khalo. O rosto foi fácil. Fui ao supermercado comprar um creme hidratante. Só que nesta terra tenho um problema grave. Gravíssimo, eu diria. Sou obrigada a usar cosméticos nacionais! Ha ha ha! Essa é a parte boa de estar morando na França: cosméticos, queijos e vinhos, só os nacionais. Que chato! Escolhi um anti-rugas leve, primeiras rugas, coisa para quem acabou de passar dos trinta. Nisso eles são incríveis! É uma prateleira imensa em qualquer mercadinho de esquina com todos os tipos de creme que se pode imaginar. Até um para afinar o rosto que estou pensando em experimentar. Quem sabe eu não consigo acabar com essa cara de lua cheia e não fico igual à Mortícia Adams? Com o cabelo a coisa era mais complicada. Precisava de uma solução profissional!

Na França temos o médico da família (atende a todos nós, até à Ana Luíza), achei que devíamos ter também o cabeleireiro da família. Já tínhamos tentado um que cortou o cabelo do Vidal e do Felipe e, apesar de os cortes não terem ficado maravilhosos, decidi eu mesma testar pra ver se ficaríamos com ele de vez ou procuraríamos outra opção.

Marquei horário. Uma terça-feira. Dezoito horas. O grande dia!

Por causa do resultado não muito bom com o Vidal e com o Felipe eu estava meio cabreira. Mas sentei confiante na cadeira e fiquei esperando pelo chefe. O dono do salão, aquele que me transformaria numa criatura deslumbrante.

Ele chegou e perguntou o que eu queria. Minha resposta convicta foi: Não sei! E era verdade. Fiquei dias pensando como ia querer cortar o cabelo e não sabia o que fazer. Disse que ele podia fazer o que quisesse. Eu só queria manter a franja (bem cortada, é claro). E não queria o cabelo muito curto. Mas que tivesse volume. E que fosse prático para arrumar (com duas crianças não dá pra ficar horas na frente do espelho). Ah! E que, se possível fosse igual ao daquela foto ali na revista. Dei total liberdade, portanto, para fazer o que quisesse.

Ele se armou de tesoura e pente, pegou uma mecha do alto da cabeça e... tac! Cortou pela metade! Gelei na cadeira. Será que meu francês estava tão ruim que quando disse não muito curto acabei esquecendo de falar a negação? Fiquei ainda mais cabreira.

Foi quando chegou o assistente e ficou, como todo bom assistente, assistindo. Quis saber qual era a técnica de corte que estava sendo usada. O cabeleireiro explicou, o assistente disse ahhhn e continuou assistindo.

Aí o tal do assistente fez um comentário que iniciou o momento mais tenso do dia: Uma vez eu vi uma técnica de cortar que era bem estranha. Eles juntavam o cabelo todo em cima e faziam um único corte. O cabeleireiro disse: É verdade! Você faz assim, ó... Juntou todo meu cabelo no alto da cabeça, chegou a tesoura perto e... tac! Ele só falou o tac, não fez o tac. Eu me encolhi alguns centímetros. Ele se empolgou. Começou a descrever todas as técnicas de juntar o cabelo numa parte da cabeça e tac. Só que ele falava e fazia. Junta tudo na esquerda e tac. Junta tudo na direita e tac. Junta em cima, no meio, atrás e tac, tac, tac. Ele não cortava, mas repuxava todo meu cabelo, chegava com a tesoura perto e falava: tac. Além de estar ficando com dor de cabeça, a cada tac daqueles eu apertava os olhos e encolhia mais um pouquinho. O meu medo era que ele esquecesse o corte que pretendia fazer quando começou.

O clímax aconteceu na descrição da técnica em que o cabeleireiro coloca a cliente de quatro sobre a cadeira, joga o cabelo todo pra baixo e tac! Essa foi ele mesmo quem demonstrou. Não ousou me pedir pra fazer isso, mesmo porque, eu me recusaria. Mas fiquei pensando... Isso tudo foi um curso ma-ra-vi-lho-so que ele fez em Barcelona onde ele aprendeu tu-do o que sabe. O que acontece é que quando eu tinha dezoito ou dezenove anos fazia exatamente isso: juntava todo o cabelo no alto da cabeça e... tac! Eu mesma cortava meu cabelo. Se soubesse que essa era uma técnica refinadíssima tinha aberto um salão e hoje estaria rica. Fiquei, se é que isso é possível, ainda mais cabreira. Na verdade, até nem me importaria de ser cobaia, desde que ele não estivesse cobrando (bastante) por isso.

Felizmente acabou a aula. Já nem me via mais no espelho de tão encolhida que estava. Sentei normalmente de novo e ele voltou a cortar. Foi cortando, cortando. Cheguei a achar que ia cortar tudo. Não faz isso, não! É pouquinho, é fininho, mas é tudo o que eu tenho.

Durante esse tempo meus pensamentos se alternavam. Gostei. Não gostei. Detestei!!! Aí, aí, tá bom. Adorei! Não, do outro jeito. Não dá pra colar de novo esse pedacinho?

Ele terminou o corte, Voilà! Eu estava parecendo um fósforo: uma bolinha no alto da cabeça e o resto espremido nos lados do rosto. Já não tinha como ficar mais cabreira. Desisti de me preocupar. Cabelo cresce, não é mesmo?

De secador em punho, começou o processo de secagem e arrumação do cabelo. As mulheres vão me entender, ele girava o secador e amassava os fios, afinal, eu tinha pedido volume, não tinha? Desligou o secador e pegou a lata de spray (detesto spray!). Fiquei sufocada de tanto que ele apertou o dedo naquela latinha. Puxou para baixo, puxou para os lados, para cima. Acabou! Pegou o espelho para que eu pudesse apreciar o resultado na parte de trás. Não vou dizer que eu parecia uma leoa porque aprendi num parque de diversões num passeio de fim de semana que as leoas não têm juba. Mas eu estava parecendo... quem?... Já sei! Toni Tornado quando cantava ... na BR3... Murmurei um très bien meio engasgado, levantei, paguei e saí.

Ainda bem que o salão é na frente de casa e que felizmente não encontrei ninguém pela rua. Abri a porta do apartamento e voei como um raio para o banheiro. O Vidal na sala com as crianças, perguntou: E aí? Fiquei no banheiro um tempo observando. Passei um lápis nos olhos. Um batom. Talvez estivesse estranhando minha cara sem maquiagem. Não adiantou. Peguei uma escova e comecei a tentar tirar aquele spray todo. Foi difícil. Lágrimas de indignação e de dor de tanto puxar o cabelo escorriam dos meus olhos. Pensei em entrar embaixo do chuveiro e arrumar do meu jeito. Mas achei que seria um desaforo! Pagar caro no salão pra chegar em casa e desmanchar tudo? Isso eu fazia no Brasil quando era poderosa. Agora não estou com essa bola toda, não.

Um dia eu teria de reencontrar as pessoas do mundo, então saí do banheiro e entrei na sala para o Vidal dar seu veredicto. Ele disse que com aquela toalha na cabeça não dava pra ver nada. Brincadeirinha! Só lembrei da minha irmã, Renata, que aos oito anos de idade amarrou uma toalha na cabeça quando minha mãe mandou cortar o cabelo dela bem curtinho. Disse que só ia tirar a toalha quando o cabelo crescesse. Só hoje, quase vinte anos depois, consegui compreender a atitude da minha irmã. Tive vontade de fazer o mesmo.

O Vidal olhou. Ficou quieto por alguns (torturantes) segundos e, para meu horror, disse: O que foi que ele fez aí atrás? Quase surtei! Balbuciei algumas explicações para o que não tinha explicação alguma. Ele, gentil, tentou consertar: Nem fez diferença! Foi pior! Como não fez diferença? Quando eu saí tinha todos os fios quase do mesmo tamanho com as pontinhas viradas para baixo. Agora cada um tem um comprimento diferente com as pontinhas viradas para todos os lados!

O padre tinha dito: na alegria e na tristeza, na saúde e na riqueza, na saúde e na doença, não tinha? Faltou acrescentar com o cabelo seja lá como for. O Vidal decidiu ser solidário e acrescentou: Eu também não gostei do trabalho dele. É um cara legal, mas não dá. Vamos procurar outra pessoa... Fiquei um pouco mais reconfortada, mas, por via das dúvidas, decidi cobrir todos os espelhos da casa, afinal, o que os olhos não vêem o coração não sente, certo?

O travesseiro acabou fazendo um bom trabalho. No dia seguinte o cabelo já tinha baixado bem e com o passar dos dias foi ficando praticamente normal. Mas desconfio que ficarei longe de salões por um bom tempo...

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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Pelo menos a voz continua a mesma!

Nascemos juntos. Quer dizer, não tenho recordações nítidas de nós dois na maternidade, mas estou certa de que, no mínimo, a promessa dele nasceu comigo. E até meus três anos de idade, pelo menos, nossa convivêcia foi pacífica, até mesmo harmoniosa. Daí veio um período do qual não me lembro muito bem e, então, a guerra foi declarada! Um dia, aos onze anos de idade, simplesmente sentei numa cadeira e, muito decidida, dei a ordem: Tosa! Meia dúzia de tesouradas depois, a cabeleireira tinha decepado minhas madeixas.

Meus cabelos passaram a ser curtos, o que se chamava à la garçon ou estilo Joãozinho, depende de quão chique tivesse ficado o resultado. No meu caso foi catastrófico. Mas quem é que controla os hormônios em fúria da adolescência que nos faz cometer loucuras?

De lá para cá, com raros períodos de trégua, estivemos em guerra franca e declarada. Devo reconhecer que ele tem sido mais forte do que eu...

Aquela surecada dos onze anos me deixou ainda mais indecente do que já fica indecente uma menina que sai da infância e cresce toda desconjuntada. Tinha pontas para todos os lados. Dessa época só tenho guardada uma foto 3x4 de uma carteirinha de estudante. Será minha arma de persuasão quando a Ana Luíza entrar na adolescência e tiver as mesmas idéias insanas.

Os tais hormônios, além do tsunami emocional que provocaram, atingiram também diretamente os cabelos e fizeram um estrago sem precedentes! Eu tinha fios de todas as espessuras, assim como fios de todos os tipos: dos lisos escorridos ao crespo sarará. Sem exagero. Isso quem descobriu foi uma das inúmeras cabeleireiras pelas quais passei na tentativa vã de dar um jeito naquela gadelha.

O que sei é que minhas memórias dos onze aos dezoito anos no que se refere a minhas melenas são repletas de tentativas de domar a fera enraivecida dos meus cabelos. Um calvário em bem mais de quatorze estações...

Claro que tentei de tudo. Todos os tratamentos que me aconselharam. Abacate batido, por exemplo. Vocês lembram de uma das cenas do filme O Exorcista? Pois é. Ver minha cabeça coberta de abacate batido no espelho me fez pensar em vidrinhos de água benta. E essa nem foi a receita mais esdrúxula que tentei!

Uma vez sugeriram uma mistura de ovo, azeite de oliva e, se não me engano, um frasquinho de vitamina A. Só que era pra aquecer o azeite de oliva. Claro que quando misturei o ovo ele começou a fritar. Dessa vez, a cabeça cheia de pedacinhos de ovo frito me deram uma vontade quase incontrolável de passar novamente pelas tesouras.

Naquela época, meu sonho era ter cabelos cacheados e foram várias as tentativas nesse sentido. Comecei indo ao salão para fazer bigoudis. Passava horas com aquelas coisinhas na cabeça. Soltava e me via cheia de cachinhos como Shirley Temple. A alegria durava da porta do salão à porta de onde quer eu fosse. Os cachinhos iam se transformando em pontas espetadas e eu acabava, em minutos, parecendo uma Medusa.

Claro que apelei para soluções radicais! Era época dos permanentes e só quem já fez isso pode dizer que sabe bem qual é a eau de cologne que usa Satanás. Mas nem mesmo a química mais pesada conseguiu colocar graciosos cachinhos na minha cabeça. Depois dos permanentes meu cabelo parecia vítima eterna da catástrofe dos bigoudis. E, antes que algum herói solto por aí decidisse reencarnar Perseu e decepar minha cabeça, desisti dos cachos.

Porém, isso não aliviou em nada a situação porque meus cabelos não eram crespos como eu sonhava, mas também não eram lisos. Eles eram uma... coisa. Uma coisa com aparência de vassoura de piaçava.

Como eu tinha de tentar algo, decidi investir no liso. Haja muque para fazer escova! Vale lembrar que estamos falando do século passado, portanto, absolutamente nada de silicone, muito menos nenhum dos 1834 cremes disponíveis que temos hoje. Era xampu de ovo da Colorama e Creme Rinse, aquele rosinha. E só! E, ah, os hormônios, quem disse que eles deixavam minhas mechas em paz? Nem com escova! Então eu apelava para a touca. Vocês conhecem essa técnica para ficar parecendo a Mortícia Adams?

A gente vai prendendo o cabelo com dezenas de grampos, enrolando tudo ao redor da cabeça em tantas camadas quantas forem necessárias para segurar todo o comprimento. Eu costumava fazer isso à noite e dormia assim. O negócio é que a técnica prevê enrolar para um lado e depois para o outro, o que, obviamente, eu não fazia, já que não acordava de madrugada para virar a touca. Portanto, na manhã seguinte tinha de levantar quinze ou vinte minutos antes para ter tempo de tirar a centena de grampos da cabeça e soltar o cabelo que ficava liso, mas todo para um mesmo lado. E os Emos se acham originais?

A lisura durava só até o primeiro ventinho úmido que eu pegava, ventinho esse que sopra em Curitiba uns trezentos dias no ano, mais ou menos. Nos outros sessenta e cinco chove torrencialmente, o que dá no mesmo! Eu saía de casa de manhã como Emo e voltava ao meio-dia igual ao Valderrama.

Como prova para aqueles que pensam que estou exagerando segue um fato verídico. Antes de começar a usar lentes de contato por conta de uma miopia galopante, eu usava uns óculos redondinhos. Um dia me disseram que eu era a cara da Janis Joplin.

Ainda bem que naquela época eu não fazia idéia de quem era Janis Joplin e também não existia internet. Quando vi uma foto dela pela primeira vez já era mais velha, tinha domado os cabelos e pude somente compreender perfeitamente porque ela morreu de overdose. Tem coisas que nem bebendo dá pra esquecer...

Como as toucas não davam jeito, sucumbi à sugestão de uma cabeleireira para testar uma técnica chamada touca de gesso que consistia em passar um produto no cabelo e escovar bem. Mais um perfumezinho de Belzebu que encarei pela frente. Fui ao salão cheia de esperanças e me entreguei às mãos profissionais que me deixariam igual à Perla.

Só que o gesso do nome da técnica não era força de expressão. Ela passou uma meleca branca em todo o cabelo e começou a escovar. Alguns segundos depois aquela coisa começou a endurecer, ela tinha dificuldade para fazer correr o pente ou a escova. Puxava, repuxava e eu tinha a sensação de que ia acabar ficando sem cabelo algum na cabeça. Depois de horas desse sofrimento, tudo foi lavado, secado, e... continuou exatamente como era antes!

Como tudo nessa vida tem um fim, a adolescência inclusive, embora eu não tenha ficado com o cabelo dos meus sonhos, dá pra dizer que tivemos uma certa trégua dos vinte aos trinta anos. Dez anos de relativa paz nos quais minha maior preocupação eram os fiozinhos brancos que começaram a aparecer.

E então, sofri uma nova revolução hormonal causada pela gravidez! Quando o bebê está ali pelos quatro meses, o cabelo da mãe começa a cair desesperadamente. Juntando-se a isso o fato de que mais ou menos nessa época já não eram poucos os fios brancos, dá pra imaginar que pegamos em armas novamente e partimos para a luta, meu cabelo e eu.

Não acreditava mais em soluções caseiras, é claro. Não poderia contar, nem por alto, a quantidade de tratamentos que fiz. Cremes, extratos, ampolas, xampus, pílulas, médicos dermatologistas. Minha herança genética não me deixava qualquer esperança. E as escovas continuavam porque sem elas iam pensar que eu era uma reencarnação da Janis Joplin. Sem os óculos.

Já nem sonhava mais com cabelos crespos, estava conformada. Sonhava só com a possibilidade de lavar a cabeça e deixar secar os cabelos ao vento. Sem chance! Fazer isso significava acabar como a Madame Mim. É por esse, entre outros motivos que não vêm ao caso agora, que detesto programas de praia ou piscina. Isso pra mim sempre foi um verdadeiro tormento capilar.

Com a segunda gravidez, aquilo que era ruim, ficou pior! E para complicar ainda mais a situação, morava fora do país sem dinheiro pra salão, creme ou tratamento. Tintura era eu mesma quem fazia, com resultados que iam do horrível ao tenebroso. Durante um ano cortei eu mesma meu cabelo porque a experiência em salão tinha sido traumática. Voltei para o Brasil num estado deplorável: além da segunda gravidez, um hipotireoidismo fez cair mais de um terço do meu cabelo, que já era quase um terço branco e, o que restou, continuou aquela coisa disforme, nem liso nem crespo.

Com a visita de uma amiga brasileira na minha casa na França aprendi várias coisas sobre silicone, cremes e tratamentos. Foi uma aula para lá de valiosa. De novo em terras verde-amarelas, e novamente submetida ao ventinho úmido de Curitiba, coloquei tudo em prática. Deu uma melhoradinha, mas ainda caía muito, não nascia o suficiente, eu estava insatisfeita. Vocês sabem, a gente vive reclamando, até descobrir que tudo pode ficar ainda pior...

Veio o diagnóstico de um câncer e, por causa das sessões de quimioterapia, fiquei careca. A verdade é que essa foi a época em que menos briguei com meus cabelos, simplesmente porque eles debandaram todos! A peruca foi uma experiência à parte, um causo a ser contado em outro dia.

Com o fim das quimios, meus cabelinhos começaram a voltar. Tivemos um reencontro festivo, cheio de saudades, cuidados e carinhos de ambas as partes. É verdade que, se antes eu tinha um terço deles brancos, agora é quase metade, mas tudo bem. Eles voltaram TODOS! Todos os que tinham caído durante toda a vida, o que significa que eu jamais me vi com tanto cabelo na cabeça!
Estou feliz com isso, é claro! Mas... Sempre tem um mas. Ah, o ser humano, esse eterno insatisfeito. Tal como haviam me prevenido e conforme eu sempre sonhei, agora tenho cabelos crespos! Não é ondulado não. É crespo mesmo. Tanto que tenho andado constantemente com a voz da Sandra de Sá na minha cabeça cantando Sarará crioulo.

Eu sei, isso foi tudo o que sempre quis, fiz permanente e coisa e tal. Mas a moda agora é chapinha e eu moro em Curitiba, que já foi a terra do topete e que hoje deve ter a maior concentração de profissionais de escova progressiva por metro quadrado do país! A considerar o que vejo nas cabeças das curitibanas, elas são todas descendentes de índias ou japonesas. Até as loiras.

Quando abandonei a peruca meu cabelo tinha pouco mais de meio centímetro de comprimento. Voltei a ser o Joãozinho dos meus onze anos. Quer dizer, uso umas echarpes para dar a impressão de que é um corte à la garçon. Fica mais chique.

Ouvi vários comentários de que ficou bom e cheguei a concordar. Mas disse que vou deixar crescer até eu ficar igual ao Capitão Caverna. Daí posso pensar em cortar curtinho de novo. A diferença é que nesse caso vai ser porque eu quis!

O problema é que com um centímetro de comprimento ele já começou a encaracolar. Olhava minha imagem refletida no espelho e me achava a cara do Ronaldinho, só que sem ter os mesmos milhões que ele no banco. Que injustiça!

Novamente tenho de acordar mais cedo, não por causa dos grampos, mas para fazer chapinha. Fazer chapinha num cabelo de pouco mais de um centímetro de comprimento é uma experiência abrasadora. Que o digam meus dedinhos queimados.

Como o cabelo tem crescido super rápido, o que é ótimo, as soluções que dou para não me sentir pavorosa mudam a cada semana. Nos primeiros dias eu conseguia alisar bem e, como eles estavam curtíssimos, eu era a versão feminina do Dr. Spock. Mas, o que deu certo semana passada, certamente não dará na próxima. Haja criatividade!

Nesta manhã tive ummomento difícil... Ontem eu tinha usado a técnica da vez que consistia em fazer chapinha na parte da frente, no que seria a franja, e também nas laterais, deixando a parte de trás ao natural, ou seja, igual a um poodle ruivo, separando as duas metades com uma tiara. Até estava ficando legal, dava um certo ar romântico, mas o clima de Curitiba... Calor úmido, seguido de chuva torrencial e depois garoa. Combinação explosiva. Voltei para casa cansadíssima e me atirei na cama sem nem olhar direito para o espelho. Hoje acordei e dei de cara com a Marge Simpson me encarando no banheiro.

Tudo bem, estou exagerando, admito. Meu cabelo não está azul! Mas o resto era igualzinho! Recomecei a sessão: silicone, spray, creme, chapinha. Deu uma ajeitadinha, mas não muito, e tremo só de pensar no dia de amanhã, principalmente porque continua o calor úmido, seguido de temporal e garoa...

Marquei hora no salão para o fim da semana. Esse cabeleireiro eu conheço e confio. Fez o último corte antes da peruca e operou um verdadeiro milagre com os poucos fios que restavam. Estou botando a maior fé nos poderes mágicos dele. Qualquer coisa, como não sou Sansão e sei que minha força não está nos meus cabelos mesmo, encaro uma máquina dois!

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Eu é que sei onde meu sapato aperta

Hoje aconteceu, mais uma vez, um fato que acontece há anos desde que me tornei consumidora: entrei numa loja de sapatos e pedi para experimentar um dos modelos que vi na vitrine. Não parece uma coisa banal? Mas não é! No meu caso, vivo momentos de extrema expectativa!

O ritual é o mesmo, com poucas variações sobre o tema: olho a vitrine procurando entre os modelos disponíveis aquele que atende aos meus requisitos, depois peço ao vendedor para me trazer um ou dois pares para experimentar...

Tá, tudo bem! Confesso que com o passar dos anos estou ficando cada vez mais exigente, mais cheia de manias. É coisa da idade. Portanto, tenho os tais requisitos. O jargão profissional dos vendedores de calçados muito provavelmente chama meus requisitos de frescuras mas, como o dinheiro e os pés são meus, acho que tenho o direito de querer ou não alguma coisa, não é verdade? Voltemos ao ritual...

Olho os modelos disponíveis, escolho um ou dois e chamo um vendedor dizendo, por exemplo:

- Eu queria ver aquela sandália de couro marrom ali e também aquela outra, número 39, por favor.

Às vezes, eles chegam a confirmar:

- Aquela de salto alto?

- Isso!

- 39, né?

- Exato!

- Só um momentinho, por favor.

E é aí que a expectativa começa. Quanto mais minutos tiver esse momentinho, mais apreensiva eu fico. E o meu desânimo só se confirma se eu observar o vendedor voltando escondido atrás de uma pilha de oito ou nove caixas de sapato que ele tenta equilibrar. Quanto mais caixas ele traz, menor a chance de eu ter encontrado o que procurava. E o ritual continua:

- Exatamente aquelas duas não tem, mas eu trouxe estes aqui, olha!

E eu olho! No lugar de uma sandália de salto alto em couro marrom vejo uma sapatilha preta, uma sandália dourada e um scarpin vermelho de plástico! E, então, o grand finale:

- Ah! Não tinha o 39, tá? Então eu trouxe o 38...

Provavelmente quando eu agradeço e viro as costas desolada sem nem ao menos experimentar o que ele, tão gentilmente, trouxe, devo ser fuzilada com o olhar além de virar objeto da conversa de cafezinho com os colegas: Mulherzinha mais cheia de frescuras!

Requisitos, meu amigo vendedor, requisitos. Se estou procurando uma sandália de salto alto em couro marrom e se, depois de ver tudo o que tinha na vitrine, escolho um modelo, é porque não estou querendo sapato sem salto, nem sandália dourada, muito menos calçados de plástico e, por mais obsceno que seja uma mulher que calça 39, o que eu posso fazer se a combinação genética entre meus pais gerou um Sasquatch? Fique tranqüilo, sou uma ligeira encarnação do lendário Bigfoot, ou Monstro do Pé Grande, mas não como criancinhas nem avanço nas pessoas mostrando as garras, embora até tenha vontade às vezes! Meu número é 39 mesmo e meus pezinhos de Cinderela não entram no sapatinho 38, muito menos no 37 (Sim! Até 37 já veio na pilha de caixas nada a ver que o vendedor trouxe pra mim). Não deu certo com as irmãs da Gata Borralheira e também não dará certo comigo. Além disso, nunca fiz treinamento pra gueixa. É 39 mesmo, fazer o que? Pelo menos minha altura não me deixa ficar parecendo um L maiúsculo. Principalmente porque tenho senso de ridículo suficiente pra não comprar sapatos de bico fino.

Tenho certeza de que, neste exato momento, além de ter contra mim uma horda indignada de vendedores de calçados, também tenho uma galera de leitores pensando: mas que criatura mais mal-humorada! Pobre vendedor que só quis ser gentil. Custa ser um pouquinho mais simpática? E a esses eu respondo: Custa. Custa, sim!

Não diz o ditado popular que tempo é dinheiro? Pois bem. As lojas de calçados só recebem UM par de cada modelo no tamanho 39. Unzinho só! Já fiz essa pesquisa em várias delas e a resposta é invariavelmente a mesma: só existe UM PAR de sapatos número 39 de cada modelo, o qual raramente está disponível quando eu chego. E, se por um lado, o fato de descobrir que não sou a única pezuda da cidade me alivia, por outro, faz com que eu entre numa corrida maluca contra esse outro Sasquatch que quase sempre consegue chegar antes de mim nas lojas e que, ainda por cima, tem o mesmo gosto que eu! Então, a cada vez que preciso procurar um sapato, sei que vou ter de passar por dez lojas ou mais até encontrar um par que seja do modelo, cor, altura do salto, material, preço e também tamanho adequados. Portanto, aqueles minutos que fico sentadinha na loja esperando enquanto o vendedor, que nem me conhece, logo não sabe dos meus gostos, garimpa coisas que não têm nada a ver com o que eu pedi, é o tempo necessário para minha adversária passar à minha frente e zapt!, me deixar comendo poeira na estrada. Descalça!

A solução para o meu caso talvez fosse entrar para alguma ordem religiosa dessas que andam sem sapatos por aí, mas morro de frio nos pés. Além disso, minhas chances de ser santa já ficaram para trás. Perdi qualquer esperança de canonização, tudo por culpa dos vendedores de sapatos que me fazem cometer o pecado da ira sem parar!

A passagem do tempo e a experiência têm as suas vantagens. Depois de viver esse ritual inúmeras vezes aprendi a fazer o pedido nas lojas de sapatos da seguinte forma:

- Eu queria experimentar um igualzinho àquele ali, preto, número 39. Mas é exatamente aquele modelo, PRETO e TRINTA E NOVE, tá? Se não tiver AQUELE MODELO, PRETO E TRINTA E NOVE, não precisa trazer NADA, certo?

Com certeza ele me dá as costas revirando os olhos (Mulherzinha mais cheia de frescuras!). Ingrato! Evito que ele desça escadas carregando as dezenas de caixas que ele vai ter de guardar depois e eu é que sou a chata!

Hoje, esqueci de fazer isso. Entrei na loja e disse, simplesmente:

- Queria experimentar aquela sandália de tirinhas caramelo, número 39, por favor.

Depois de mais de cinco minutos esperando, vi a vendedora chegar com duas caixas. Na primeira tinha um sapato fechado, marrom café, listado, alternando faixas de couro e vinil (Por favor! Faço um apelo desesperado aos fabricantes de sapatos: existem mulheres neste país que NÃO SUPORTAM sapatos de vinil, acreditem!). Na segunda caixa tinha um tamanco plataforma, com salto quadrado, todo bordado com flores coloridas. Pelo menos era na cor caramelo.

Pode ser que meus requisitos é que estejam exagerados, não é mesmo? Entre uma sandália de tirinhas de salto fino e um tamanco florido de salto quadrado não existe tanta diferença assim, eu até posso aceitar isso... Mas depois, que nenhum vendedor venha reclamar adicional de insalubridade por causa do chulé mortal que vai exalar dos meus pés quando eu tirar o tamanco para experimentar a rasteirinha azul turquesa que ele trouxer no lugar do sapato social prateado que pedi para ver. Resistirei até mesmo à tentação de jogar o tamanco na cabeça dele! Prometo!

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Presente? Tem gente que não dá bola!

Há alguns dias levei o Felipe para tomar vacina. Claro que o evento não poderia ter transcorrido sem momentos de tensão. É evidente que levar uma agulhada não é algo pelo qual se passe sem medo. Mas, observando o comportamento do Felipe, percebi que sofremos, sim, mas provavelmente sofremos mais do que a cota que nos é reservada. Por opção!

Enquanto a enfermeira preparava a vacina ele já começou a chorar. Chorou mesmo! O choro era pela dor que ele achava que sentiria. Uma dor antecipada e quase tão sofrida quanto se a agulha já estivesse enterrada em sua carne. Ele estava no meu colo e é claro que eu tentava acalmá-lo. Em vão. Ele nem escutava o que eu dizia. Até que pronunciei alguma palavra mágica e ele, enfim, parou de chorar para me ouvir. O que eu consegui dizer depois disso foi: Espere ela enfiar a agulha. Se doer, chore muito, chore forte. Mas espere! Pode ser que não doa...

Ele se acalmou e esperou. Esperou. Esperou. Então perguntou: Quando é que vai começar? A resposta foi: Já acabou!

Por alguma razão inexplicável, aquela vacina não doeu. Mas, infelizmente, ele já tinha sentido a dor. Uma dor que, no fim das contas, não veio. Pelo menos, não tão forte quanto ele imaginava.

Quantas vezes sofremos antecipadamente as dores da vida? Quantos problemas futuros, quantos projetos de problemas tentamos resolver? E o pior! Quantas vezes o fato de tentar resolver os problemas que ainda não tínhamos fizeram surgir problemas que passamos a ter de verdade?

O grande engano é acreditar que antecipar o sofrimento vai, de alguma maneira, nos preparar ou atenuar o sofrimento quando ele vier. Bobagem! Não vai! O sofrimento antecipado não diminui o sofrimento real quando ele acontece, porque só quando, e se, ele acontecer, é que vamos saber exatamente o que sentiremos, ou como agiremos. E isso vale para tudo! A imaginação de uma torta de chocolate não se compara ao prazer de comer a torta de verdade, assim como a lembrança de um beijo não substitui nem prolonga o prazer do beijo em si. Lembrar da torta ou do beijo dá prazer, assim como imaginar uma dor faz sofrer. E nem uma coisa, nem outra, impedem a força da emoção, seja boa ou seja má, no momento em que ela é vivida.

Ninguém morre de véspera. Nem mesmo o peru! Ele morre no momento em que devia morrer porque, simplesmente, não estava convidado para a ceia mesmo. Quer dizer, até estava, mas em outra condição.

Portanto, ficar no presente, tentando prever um futuro doído vai fazer doer hoje algo que doerá também amanhã. E o mais ingrato é que, caso a dor não venha como esperávamos, ou simplesmente não venha de jeito algum, teremos sofrido uma vez. Inutilmente. E se a dor vier, será ainda mais triste: teremos sofrido duas vezes. Inexoravelmente.

Por mais dura que seja esta realidade, não há como mudá-la: nossa vida acontece no presente. E só nele. O passado... passou. O futuro... não existe nem nunca existirá porque, quando lá chegarmos, já será presente.

Temos um presente da vida a cada instante e muitas vezes o ignoramos insistindo em olhar para trás ou para frente, antecipando dores ou tentando reviver amores, sabores e, até mesmo, horrores. Só que a vida requentada, assim como a vida ainda não preparada, não têm, nem de longe, o sabor da vida bem temperada e ainda fumegante.

Espero que o Felipe tenha registrado a experiência e, nos tempos presentes que ainda virão, aguarde primeiro a agulha perfurar a carne e o remédio invadir as veias para só então chorar as dores reais que a vida lhe trará de presente, no presente.

Serão presentes, sim, mesmo quando forem de mau gosto. Nem sempre gostamos de todos os presentes que ganhamos, mas isso não muda o fato de que eles nos foram ofertados. De presente. Presente de grego, às vezes. Mas, ainda assim, presente.

Tudo o que temos para viver aqui e agora já deveria nos ser suficiente. Pra que mais?

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Rio, quinze graus?!

Faço aqui um apelo: se alguém conhecer o telefone daquela garota carioca, suingue sangue bom que atende pelo nome de Fernanda Abreu, por favor, me passe. Quero ligar e deixar uns recados mal-criados na secretária eletrônica! Não é ela quem canta aquela coisa de Rio, quarenta graus? De qual Rio ela estava falando? Rio de Janeiro? Mentira!!!

Vocês devem ter notado que esse blog ficou meio abandonado semana passada. O que aconteceu é que eu fui ao Rio de Janeiro por conta de compromissos profissionais. Cheia de diminutivos na cabeça, com essa musiquinha nos ouvidos, coloquei só regatinhas e camisetinhas na minha mala. Por via das dúvidas, levei uma jaquetinha. Pois foi essa jaquetinha que me impediu de congelar naquela cidade! Exatamente: passei quatro dias na cidade maravilhosa, morrendo de frio!

No dia em que cheguei, chuva. E frio! Pra ninguém dizer que estou mentindo, aí vai uma foto de um termômetro de rua:


QUINZE GRAUS!

Na verdade, acho que a culpa nem é da Fernanda Abreu. É bastante possível que chegue a fazer quarenta graus por lá. O negócio é essa questãozinha particular entre nós. Quem? São Pedro e esta que vos escreve. Pretensão da minha parte, talvez. Mas que tem alguém na galera do Altíssimo de marcação cerrada com a minha pessoa, isso tem!

Tudo bem, tudo bem! Já sei quem é o mais forte, quem manda no tempo, já aprendi, já aprendi! Será que dá pra mandar um solzinho logo de cara na próxima vez que eu for pra um lugar qualquer? Pensando bem, caso essa coisa de chuva na minha vida continue, posso até oferecer meus serviços de nuvem negra para os lugares que estiverem vivendo períodos de seca, não é? Em vez de me leva que eu vou, sonho meu, atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu, chegarei cantando me leva que eu vou, toró meu, atrás da Juliana veio a nuvem que choveu.

A verdade é que São Pedro é um brincalhão. Faz chover nos lugares para os quais vou, mas depois dá uma risadinha, acaba se comovendo com meus apelos e manda sol. Dessa vez, foram dois dias nublados e dois com sol. Mas frios! Ouvi dizer que foram os dias mais frios do Rio nos últimos tempos. Ninguém merece!

Aproveitei a generosa hospitalidade de minha amiga Sheyla e, entre uma obrigação de trabalho e outra, fui conhecer um pouco dessa cidade improvável, cuja única palavra que pode ser usada como resumo é contraste. O velho e o novo. O pobre e o rico. O belo e o feio. A harmonia e a dissonância. A classe e a absoluta falta dela. Está tudo lá, lado a lado. É impressionante.

Não cheguei a me transformar numa muchacha de Copacabana, como cantou Chico Buarque, mas molhei meus pezinhos nas águas (geladas, diga-se de passagem) da princesinha do mar. Nem de longe passei perto de ser confundida com alguma garota de Ipanema porque meu corpo não tem nada de dourado (com toda essa chuva, como poderia?) e meu balançado... Bem, tem muita coisa que balança por aqui, mas duvido que daria qualquer poema. Também não tinha violão, por isso nem procurei qualquer cantinho, mas imaginei mil canções pra fazer feliz. Claro que fui ao Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara e, lá do alto, derramei meus olhos por aquelas paisagens todas. Vi o Rio de sol, de céu, de mar. Dá pra entender perfeitamente porque D. João VI relutou tanto em ir embora do Brasil.



Mesmo com chuva e frio, mesmo com as desconcertantes favelas encarapitadas nos morros, mesmo com o contraste brutal que escancara a diferença absurda entre pobres e ricos, realmente, não há como negar as canções, o Rio de Janeiro continua lindo!

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Muito "aquém" da imaginação

Eu já disse! Vocês também já disseram... Na verdade, aposto que qualquer pessoa de mais de dezesseis anos de idade, em qualquer lugar do mundo, pelo menos uma vez na vida já disse. Sendo bem sincera, a gente não diz isso, a gente pensa, porque dizer seria assumir o mico e disso pouca gente tem coragem. Confessem! Vocês também já viveram aquele segundo mortal em que a seguinte frase se forma na cabeça: Mas o que é que eu tô fazendo aqui?

Instantaneamente centenas de miquinhos começam a guinchar ao redor, mas geralmente já é tarde, Inês é morta, não adianta chorar sobre o leite derramado, o jeito é enfiar a viola no saco e, como aconselhou nossa sapientíssima ministra, relaxar e gozar. Não tem nada mais perfeito num momento desses do que um monte de clichês e frases feitas para aliviar nossa consciência. Explicar o que, muitas vezes, não tem explicação.

Eu me lembro perfeitamente da primeira, assim como da última vez em que pensei isso. Além de vários outros episódios semelhantes entre esses dois instantes, imaginem se isso teria me acontecido só uma vez na vida. Foram vários os momentos, confessáveis e inconfessáveis, nos quais me arrependi amargamente de ter tomado a atitude que me levou àquela situação, no mínimo, circense.

A primeira vez eu tinha dezessete anos, era julho e decidi ir sozinha para a praia. Sozinha, nesse caso, não é força de expressão. Peguei um ônibus e desembarquei no meio de uma tarde de terça-feira, dia nublado, garoa, frio e, depois de andar duzentos metros pelas ruas sem calçamento de Shangri-lá, desviando de poças d’água e sapos, carregando uma tralha horrivelmente pesada, parei subitamente e, num segundo, a frase veio: Mas o que é que eu tô fazendo aqui?

A última foi há dois anos. Eu, uma senhora casada, mãe de dois filhos, professora universitária com mestrado e tudo o mais, me vi sentada numa cadeirinha, com um cinto de segurança de aço prendendo meus ombros e minha barriga, enquanto o tal carrinho subia por um trilho. De ré! Gente, montanha-russa é coisa pra adolescente! Que idéia ridícula tinha sido aquela? E os engenheiros de montanha russa são todos sádicos. Quando o carrinho chega lá em cima e você vê o mundo com seus olhos paralelos ao chão, mas dezenas de metros acima dele, a geringonça faz um singelo TLEC!, o ponteiro dos segundos dá um pulinho pra frente no relógio e o pensamento vem: Mas o que é que eu AHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Foi! Você despenca, o mundo vira de cabeça pra baixo, a cabeça chacoalha, o cérebro desconjunta, os olhos reviram, os cabelos embaraçam, as pernas bambeiam e a bexiga, se bobear, solta o que estiver lá dentro. E ainda têm coragem de chamar isso de parque de diversões?! Parque de orações seria mais adequado. Só eu rezei cinco ave-marias nos eternos quarenta e cinco segundos que durou aquela agonia!

Saibam vocês que a grandecíssima responsável por todos os micos do mundo é a nossa imaginação. Sim, estou convencida disso! Imaginamos coisas e situações, mas esquecemos que o mundo perfeito só existe dentro da nossa cabeça. A vida real não tem nada a ver com os delírios das nossas ondas cerebrais sem noção!

Aos dezessete anos eu me vi fazendo maravilhosos passeios à beira-mar. Só esqueci que em julho chove, faz frio, não existe vivalma na praia, além disso a casa fechada cheira a mofo, não tem ninguém que cozinhe e, o pior, anoitece! Noites escuras em balneários desertos, com grilinhos fazendo cri-cri do lado de fora, estão muito mais para Bruxas de Blair do que para qualquer filme da Meg Ryan.

Não. Para a montanha russa não tem explicação que justifique a não ser o desespero. A gente vê a idade avançando e quer ter de novo dezesste anos, esquecendo completamente que mesmo aos dezessete anos já pagava micos.

Há dezenas, centenas, quiçá milhares, senão milhões, de exemplos de situações do tipo o-que-eu-tô-fazendo-aqui. Há alguns anos minha irmã, Renata, decidiu fazer parte de uma campanha de Natal que distribuiria brinquedos a crianças carentes. Na imaginação dela o filme estava pronto: o grupo chegaria ao local combinado, todos vestidos de Papai Noel, as crianças sairiam das casas com sorrisos nos lábios e se aproximariam do grupo, que entregaria os presentes com os olhos marejados de lágrimas. Tais presentes seriam desembalados e aqueles bracinhos cheios de gratidão enlaçariam os pescoços dos abnegados e incógnitos papais noéis que ao final voltariam às suas casas com os corações transbordantes de amor e espírito natalino. Lindo, não? Na imaginação!

A realidade foi que eles chegaram lá e já tinha uma multidão de crianças que, nem bem o saco do Papai Noel foi aberto, avançou nos pacotes. A Renata tentava entregar um embrulho, olhos nos olhos, dizendo Feliz Natal!, mas não conseguia porque vinham mãos de todos os lados e ela só fazia gritar: Calma aí!, Péra lá!, Tira essa mão daí, moleque! Os que pegaram os presentes abriam os pacotes e reclamavam! Voltavam para xingar as pessoas e dizer que se era pra trazer aquela porcaria, melhor nem aparecer, banco de filhos da... Exatamente! Ela também quis saber o que estava fazendo lá naquele momento.

E assim as histórias se sucedem. Tem o cara que vai assistir ao parto do filho, mas na primeira gota de sangue que aparece percebe que o estômago realmente existe e... Assim como a mãe que passa nove meses corajosamente aguardando o parto normal, mas depois de seis horas de contrações lembra de uma seringa de anestesia e... Tem o aventureiro de fim de semana que paga um curso para saltar de pára-quedas ou pular de bungee-jump, mas na hora em que a porta do avião abre ou que ele sobe na ponte, olha para baixo e... Tem o pai que contrata decoração, balões e animadores para entreter os convidados na festa de aniversário da filha, mas na hora em que o animador veste esse pobre pai de palhaço, com peruca de cachinhos pink, nariz de bolota e calça com cintura de bambolê se olha de relance no reflexo do vidro do salão de festas e... E o que dizer do cara quase quarentão que aceita o convite de um amigo para ir ao aniversário de uma colega mas quando descobre que a faixa etária dos convidados não passa muito dos 18 anos olha pra porta e... Sem esquecer da mulher que vai sozinha ao aniversário da filha de um amigo sem conhecer absolutamente ninguém da família ou dos outros amigos dele e, depois de duas horas ouvindo uma conversa insuportavelmente chata de uma amiga da esposa do pai da madrinha da aniversariante, olha discretamente para o teto e...

Todos esses personagens anônimos do mundo real gritariam em uníssono se pudessem: Mas o que é que eu tô fazendo aqui?!!!

Tudo culpa dela. Da imaginação. Imaginação fértil, eu diria. E todo mundo sabe que o melhor adubo do mundo é a... Isso aí que vocês imaginaram. Só que na vida real ela é ainda mais fedida!

O pior é que a gente não aprende. Continua a imaginar situações perfeitas, nos mundos perfeitos, que não existem. E, fatalmente, uma hora ou outra vai se ver no meio de centenas de miquinhos que guincham ao redor...

Pensando bem, disse que isso é o pior, mas a grande verdade é que são exatamente esses momentos símios que animam as conversas, não é mesmo? Tem coisa mais chata do que uma pessoa que não paga mico? Um ser humano para o qual tudo dá certo? Eu só conheço uma única pessoa assim no universo: eu mesma. Na minha imaginação, é claro! A versão mundo real paga um mico atrás do outro, depois vem contar aqui nesse blog.

Que venham os macaquinhos, então! Mas uma coisa eu prometo para vocês: montanha-russa, nunca mais! Não mesmo! Imaginem!


Versão para impressão.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Êta ela!

Na minha cabeça existem várias imagens para representar o paraíso. Esta é uma delas:


Uma caixa cheia de coloridas linhas de bordar é, para mim, uma coisa que existe com certeza no paraíso. E, exatamente as linhas dessa foto, são para lá de especiais. Essa é a caixa de linhas de bordar à máquina da minha avó Jandyra.

Há poucos meses estive com essa caixa nas mãos e fiz várias fotos para poder ficar olhando pra elas quando estivesse me sentindo no inferno ou no purgatório.

Desde muito pequena eu via essas linhas, brincava com elas, ficava encantada principalmente com as matizadas, essas que têm duas ou mais cores e fazem esses retroses listadinhos. Ficava horas ao lado da máquina de costura, observando o sobe e desce dos pés dela apoiados no pedal, que fazia girar a roda, que movia a correia de couro presa à máquina, que fazia a agulha subir e descer enquanto ela movimentava o bastidor para frente e para trás criando, aos poucos, os trabalhos maravilhosos que temos espalhados pela família.

Se hoje eu simplesmente não consigo viver sem estar próxima de linhas, agulhas e tesoura como vocês podem ver aqui, certamente é porque meu DNA tem o gen que obriga as mãos a trabalharem constantemente para criar peças, tramas, objetos... Não nasci aranha por puro acaso. Ou talvez tenha sido aranha em outras vidas, quem sabe? A verdade é já mudei de profissão várias vezes, já fiz de tudo um pouco. A única coisa que permanece inalterada para mim, desde os 7 ou 8 anos de idade, é essa ligação com tecidos e linhas. Minhas duas avós, Rosa e Jandyra, passaram elas também suas vidas enroladas aos fios, tecendo teias de bordados e rendas. Além de neta, no caso da minha avó Jandyra, ainda sou afilhada. Não tinha mesmo como escapar!

Jandyra, como vocês podem ver, é a imagem da avó típica: óculos, cabelos branquinhos, quitutes na cozinha e aquela ligação direta com o povo lá de cima. Terço constantemente na mão, é a ela que sempre recorremos nos momentos de necessidade: Vovó, tenho uma prova super difícil amanhã. Faz uma oração aí, por favor! Tráfico de influência, eu sei. Mas é que a reza dela sempre foi poderosa. Entrevista de emprego, cirurgia, dor de cotovelo, parto... Nada deixou de sair da melhor forma quando ela intercedeu por nós.

Só que o molde de vovozinha das histórias infantis termina por aí! Muito além da Jandyra que a gente vê na foto, tem a alegria, força e vitalidade que explodem onde ela estiver!

Não tem como ignorar sua sonora gargalhada, sem medo de mostrar que está feliz! Ela jamais deixou de expressar por inteiro as emoções, seja de alegria, seja de tristeza, seja de raiva ou de irritação. Nunca me esqueço de uma vez, eu devia ter uns 12 ou 13 anos, quando ela ficou na nossa casa tomando conta dos netos durante uma viagem dos meus pais. Nem sei o que é que eu e meus irmãos estávamos aprontando, só me lembro dela empurrando para longe uma mesinha de centro com o pé e gritando: MERDA!

Isso aí! A vovozinha de cabelos branquinhos sabia muito bem se fazer ouvir quando precisava! Só que a grande verdade é que são raríssimos os momentos como esses que eu tenho guardados na memória. Quando penso nessa minha avó, o que me vem à cabeça são imagens de risos, dança, festa e alegria. E não dá pra dizer que ela nunca tenha tido motivos para reclamar. Teve sim, e muitos!

Aos 11 anos, mais velha de cinco irmãos, perdeu a mãe que tinha apenas 28 anos. O pai dela, meu bisavô, era um homem ligadíssimo à beleza, trazia a si mesmo e aos filhos sempre bem arrumados de acordo com a vanguarda do mundo fashion, que devia chegar com décadas de atraso à pequena cidade do interior de Minas Gerais. Não importa! Minha avó Jandyra devia ser a própria imagem da melindrosa dos anos 20, com sainhas curtas e chapéus enterrados na cabeça.

Com a morte da mãe ela foi morar com tias que, escandalizadas com aquelas modernindades, costuraram tecidos quaisquer aos vestidos que ela teve de usar mesmo assim. O pai se casou de novo anos mais tarde e a madrasta tinha quase a idade dela. O relacionamento foi difícil, mas as duas se reconciliaram anos depois. Ela também se casou, teve filhos, e diante das dificuldades da vida no interior de Minas, viajou com o marido e a prole para começarem nova etapa no Paraná. Dito assim parece simples. Mas não consigo deixar de ficar impressionada e curiosa em imaginar como aconteceu essa viagem de mudança com nove filhos pela mão e a décima na barriga, de trem, por mais de mil e duzentos kilômetros de distância! A filha mais nova (minha mãe), tinha pouco mais de dois anos! Ela tinha toda a razão de repetir muitas vezes, deixando completamente a modéstia de lado: Êta eu!

A vida recomeçou no norte do Paraná e por ali seguiu. Com os dez filhos. Além desses, alguns abortos. Mas raramente ela comentou os filhos que não vingaram. Ao longo dos anos foi cada vez mais normal as pessoas se espantarem com a sua força e vitalidade. A resposta foi sempre a mesma: 10 filhos, 34 netos, 39 bisnetos e 3 tataranetos! Êta eu!

Não é que minha avó Jandyra não tivesse consciência das dificuldades pelas quais passou. Tinha. Mas ela, sem ignorar o lado feio da vida, sempre fez questão de focalizar o olhar no lado bonito dela. E essa concentração na visão do belo fez com que ela se sentisse sempre cheia de razões para ser feliz. O ruim existia, claro. Mas era solenemente ignorado.

Há mais de 20 anos um problema na coluna a obrigou a usar constantemente um colete ortopédico. Posso imaginar o quanto deve ser desconfortável um colete ortopédico. Mas o que ela fez foi aproveitar o colete para andar toda empertigada e ainda mais elegante. O colete impediu que ela curvasse os ombros e adotasse a atitude derrotada que eu vejo em tantas pessoas, às vezes bem mais novas do que ela.

Agora que parei para pensar no tempo do colete, vi que os números associados a essa minha avó são sempre grandes. Desde a numerosa descendência até os tempos de experiência...

No começo falei dos seus bordados à máquina, coisa que ela começou a aprender ali pelos 10 anos de idade. São mais de 80 anos de experiência já que ela completou 96 anos no ano passado. O colete ortopédico não deixava mais que ela ficasse sentada muitas horas seguidas. Em vez de reclamar, decidiu aprender crochê. Aprender uma coisa nova aos 70 anos de idade! E eu vejo tanta gente de 40 por aí dizendo que já cansou...

Recentemente descobri que sou um plâncton. Hoje penso que minha avó Jandyra sempre foi um plâncton. Só não se deu conta disso. A vida a foi guiando por caminhos diversos, nem sempre fáceis, e ela se deixou levar. Em cada novo destino encontrou seu bem-estar e continuou a descobrir razões para gargalhar e ser feliz. E, se por acaso alguma contrariedade pegava fundo, se a irritação viesse, sua reação era cantar. Não dizem por aí que quem canta seus males espanta? Quando começava a cantar a gente já sabia que ela estava espantando os seus males.

Eu me sinto um pouco pretensiosa em encontrar semelhanças entre nós duas, já que minha admiração por ela é imensa. Mas não consigo deixar de notar essas proximidades. Desde a mais bobinha delas, a coincidência nas iniciais e quantidade de letras dos nomes, Jandyra e Juliana, até o fato de sermos ambas librianas, apaixonadas pelo bordado e pela máquina de costura, enlouquecidas por flores e por um lindo pôr-do-sol.

Deve ser essa atração do libriano por tudo o que é bonito e harmônico. Nem sei quantas vezes ouvi minha avó comentar a respeito da sua própria roupa que Essa costurinha aqui da gola combina direitinho com a cor da minha meia, você viu? Também sou obcecada pela combinação de cores até mesmo nas peças que não se podem ver, se é que vocês me entendem, que sempre que possível vão combinar com a roupa que eu estiver usando. É mania, eu sei! Mas agora vocês sabem que é herança genética e que esse tipo de herança é incontrolável.

Quanto às flores, nunca consegui ter seu dedo verde... Adoro flores, não tem como passar por elas sem me sentir atraída, sem, no mínimo, olhar. Mas não consigo ter um vasinho sequer na minha casa. Já minha avó cercou suas casas de flores. Seus jardins sempre foram os mais floridos da rua e, até mesmo na hora de casar, ela conseguiu encontrar um marido cujo nome de batismo era a versão masculina do nome de uma flor: Accácio.

Claro que eles devem ter tido suas dificuldades como qualquer casal, é evidente que essa união foi como todas as outras, feita de concessões e ajustes de ambas as partes. Mas a imagem idealizada que eu tenho dos dois é a de uma união de corpo e alma, daquelas de filme da sessão da tarde, que fazem a gente dar um longo suspiro no final e dizer isso é coisa que só acontece no cinema...

Quando ele se foi, ela instalou rodinhas nos pés e passou a viajar constantemente, pulando da casa de um filho para a casa de outro. Provavelmente foi o jeito plâncton que ela encontrou de driblar a tristeza e de enganar a memória. Estando sempre fora de casa, ela podia criar a ilusão de que um dia voltaria para a sua própria casa e para o seu companheiro. Sábia Jandyra... Foram mais de 50 anos de vida em comum com aquele que o inconfundível sotaque mineirês transformou em Cassim.

Aliás, o tal do mineirês corre forte nas minhas veias. De tanto ouvir da minha avó frases como Tô pelejano nesse fugão pra fazê uma abobrinha afogadinha, tenho a sensação de que vivi nas Minas Gerais. É incrível isso, mas mesmo sendo paranaense, tenho saudade de Minas. Saudade do que não vivi, dos lugares onde não morei, das paisagens que não vi. Talvez seja por isso que eu faça tantas fotos. Procuro captar e fixar as imagens que tenho dentro de mim como uma forma de materializar minhas emoções. Uma tentativa de me traduzir em imagem. A chegada da máquina fotográfica digital permitiu que eu extravasasse meu interior sem medo e sem culpa, e nos últimos anos acumulei milhões de bytes em fotos.

Meus objetos mais freqüentes de cliques são, não por acaso, as flores, uma bela paisagem, um lindo pôr-do-sol, e o que eu chamo de texturas, cliques em close de cascas de árvore, pedras, areia, água... Uma vontade de captar o detalhe, a cor em estado puro, quem sabe, para com elas tecer um bordado de vida.

Como disse, as flores são minhas musas assim como um belo pôr-do-sol e, na grande maioria das vezes, era na minha avó que eu pensava quando via o resultado das fotos. Sei que não sou original nos meus temas fotográficos, mas não tenho qualquer pretensão profissional nessa área. Quero apenas refletir nelas o que carrego dentro de mim. E essa paixão pelo pôr-do-sol e suas cores mutantes é igualmente herdada da minha avó.

Um dia assistíamos as duas a um poente maravilhoso que era possível observar da janela do apartamento em que eu morava nos meus já longínquos 17 anos. Hoje uma cortina de prédios se interpõe entre meus olhos e o sol mas, naquela época, do oitavo andar tínhamos garantidos espetáculos quase diários. Naquele dia eu e minha avó olhávamos mudas para o sol que se escondia no horizonte, invejando secretamente a capacidade da natureza de brincar com as cores daquela maneira desconcertante. Num determinado momento, sem desviar os olhos do céu em brasa, ela me disse: Depois que eu morrer, quando você assistir a um pôr-do-sol desses, lembre de mim.

Eu olhei para ela querendo esboçar um protesto porque para mim ela era imortal. Mas não disse nada. Segui meus dias e meses assistindo a tantos outros ocasos e, nos últimos anos, fotografando todos os que consegui. Na última semana tivemos dias lindos em Curitiba, mas infelizmente a correria em que vivo não me deu a chance de ver nenhum pôr-do-sol. O que eu desconfio, é que eles devem estar muito mais bonitos, já que minha avó Jandyra, há sete dias tomou um grande embalo nas rodinhas sob seus pés e fez mais uma viagem, a última aqui dessa nossa Terra. O céu certamente está muito mais bonito e decorado. Provavelmente, logo estará também cheio de toalhinhas bordadas, é certo!

Agora minha avó Jandyra já é também parte do meu arsenal de imagens. Uma imagem composta de tantas outras, de flores, de paisagens, de bordados, de cores e de poentes. A partir de agora, minha avó existirá dessa forma dentro de mim:

Mosaico criado com o programa AndreaMosaic 3.23 Beta (referência no fim do post)

Usei um programa de computador que transformou parte das minhas fotos particulares nesse mosaico. Quanto mais de longe a gente olha a imagem, melhor enxerga a foto original...

Quando ela fez 90 anos, muita gente da família escreveu uma pequena história sobre ela e essas histórias foram reunidas em um livro. Eu quis muito escrever alguma coisa também naquela época, mas não consegui. Por quê? Não sei... Acho que ainda me faltava muita compreensão da vida. Da minha própria e também da vida dela. Eu não estava pronta. Senti muito não ter contribuído com aquele livro que ela tão orgulhosamente mostrou a tanta gente.

Hoje, uma semana depois de ela ter ido embora, com sete anos de atraso, faço a minha homenagem e coloco em palavras a imensa admiração que tenho por ela e pela vida que ela viveu.

Quero, como ela, ser capaz de diminuir a importância dos maus momentos, para enaltecer os bons. Quero ter vontade de aprender coisas novas aos 70, 80, 90 anos. Quero dançar no baile de formatura dos meus netos até às seis horas da manhã como ela dançou no meu quando tinha 82 anos. Quero me olhar no espelho aos 94 anos e dizer Não sei, mas acho que estou começando a ficar um pouco enrugada... Quero fazer meus bordados e costuras enquanto meus olhos e minhas mãos suportarem.

Não... Contrariamente ao que eu pensava aos 17 anos, minha avó não era imortal. Não aqui na Terra. E, pensando bem, o doce Accacinho já devia estar morrendo de saudades da sua Jandyra. No meu mundo interno, povoado de imagens, eu tinha de criar uma também para esse momento. Mas para isso não tinha máquina fotográfica, nem programa de computador que desse jeito. Por isso, inspirada num desenho que vi num jornal quando morreu o cantor Gonzaguinha, criei agora minha própria cena, como eu acredito que ela aconteceu. É uma pena que eu não lembre o nome do artista que fez o desenho que inspirou o meu (nem mesmo a santa Internet conseguiu me ajudar dessa vez). Mas tudo bem. Minha imagem está criada, desenhada a mão mesmo, e deixo aqui como parte dessa homenagem.

Lá de onde eles estiverem, espero que consigam também ver o que desejei para os dois...

Êta eles!

Versão para impressão

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A Internet é realmente uma coisa maravilhosa! O mosaico criado com a foto da minha avó só foi possível porque encontrei um excelente programa gratuito na Internet chamado Andrea Mosaic. Aqui vão os dados para quem quiser também utilizá-lo, ou conhecer os interessantes trabalhos que podem ser feitos:

AndreaMosaic Beta
Copyright (c) 1997-2008 Andrea Denzler
Version 3.23 Beta Tile Aspect Ratio 12:9
http://AndreaPlanet.com/andreamosaic

Para quem quiser baixar o mosaico e ver todos os pedacinhos individualmente, clique aqui.

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Caso esteja aparecendo uma mensagem de erro no momento de baixar os arquivos (fotos e texto), deixe para voltar ao site em outro momento. O Yahoo (local onde coloco os arquivos para download) tem um limite diário de acessos. Uma opção é clicar o link com o botão direito do mouse e selecionar a opção Salvar destino como.