sexta-feira, 28 de março de 2008

Era uma casa muito assombrada

Sem tempo para escrever um novo texto, faço uma outra sessão Recordar é viver!

Publico, em homenagem ao meu amigo Eugenio que não acredita que eu fui uma excelente dona-de-casa durante os três anos, três meses e dez dias em que morei na França, um texto do meu antigo blog, com algumas alterações de tempos de verbos, vocabulário e etc. Coisa de gente perfeccionista, claro! Mas não existe nenhuma mudança de conteúdo. Eu realmente fui uma Rainha do Lar exemplar! E sem diarista!!!

Lá vai!

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Elas me venceram! As manchas no chão da sala... Esfreguei o chão valendo sem sucesso e decidi atacar de água sanitária. Elas não deram a menor bola para meus esforços. É preciso reconhecer uma derrota. Mas essa pequena batalha perdida não tira de mim o orgulho de ter sobrevivido ao trabalho doméstico. Não! Tenho muitas vitórias pra contar de meu estágio de Rainha do Lar...

Eu tinha tanta intimidade com o serviço de uma casa quanto com mecânica de automóveis. Pelo menos com os carros sabia que se por acaso tivesse um problema na rua era só parar, abrir o capô e ficar olhando para o motor com cara de ponto de interrogação até aparecer uma alma caridosa para resolver meu problema. Pois bem. Na primeira vez que me vi diante de uma pia cheia de louça fiz o mesmo: fiquei parada olhando para ela com cara de ponto de interrogação. Não adiantou. Tentei o ponto de exclamação. Ninguém apareceu. Reticências... Nada! Percebi que era eu mesma quem tinha de resolver aquela bagunça!

Estou exagerando. É claro que eu já tinha lavado louça na minha vida antes. Mas, roupa e na mão... Nunca! Quando fomos de mudança para a França, ficamos os vinte primeiros dias num apart-hotel. Num flat, para usar um termo em bom português. Depois de alguns dias já tinha uma pilha de meias, cuecas, calcinhas e roupas do Felipe pra lavar (como criança suja roupa!). Achei que ia ser super simples e fiz o que era óbvio: comprei uma caixa de sabão em pó, enchi uma bacia de água e coloquei tudo lá dentro. No dia seguinte enxagüei bem, torci e, chocada, vi que tudo continuava completamente sujo! Tentei imaginar o que eu tinha feito de errado. Vasculhei minha memória em busca de filmes, novelas, essas coisas que eu podia ver quando não tinha uma casa pra cuidar, em que aparecessem mulheres lavando roupa. Lembrei! Para a roupa ficar limpa tem de esfregar! Resolvi experimentar. Incrível! Não é que deu certo?

O problema é que no terceiro par de meias (alguém pode me explicar porque fui comprar meias brancas para uma criança?) minhas mãos já estavam em frangalhos. Foi quando ouvi um barulhinho assim: chec, chec, chec. Olhei pro lado. Era o Felipe. Ele estava me "ajudando" a lavar a roupa. O tampo da pia da cozinha tinha uma parte cheia de ondulações nas quais ele passava a peça para frente e para trás. Olha só! Ele tinha descoberto o objetivo daquilo! Claro que é meio nojento isso: lavar roupa íntima na pia da cozinha. O problema é que por lá não existe área de serviço nos apartamentos e casas. Pelo menos, não naqueles que tivemos a oportunidade de conhecer. Portanto, também não tem pia de cozinha. O que existe é um "tampia" ou um "pianque", como vocês preferirem, ou seja, uma coisa que serve ao mesmo tempo de pia de cozinha e de tanque.

Mesmo a descoberta ajudando bastante, ainda assim não estava achando aquilo muito legal. Sonhava com a suave melodia de uma máquina de lavar roupa funcionando! E percebi que uma casa é um lugar cheio de mistérios e fonte de muitas lendas...

Primeiro exemplo: dizem que a origem da cornucópia, aquele chifre de onde ficam jorrando eternamente frutas, sementes e coisas do gênero, seriam os cornos de uma cabra, chamada Amaltéia, que teria amamentado Zeus enquanto o poderoso fugia do pai que queria acabar com a raça dele e blá, blá, blá. Mentira! A origem da cornucópia é um cesto de roupa suja! Aquilo nunca fica vazio, por maior que seja o esforço. É impossível! A gente tenta, tenta, chega quase a esvaziá-lo, mas, um dia de bobeira e... pronto! Está o cesto transbordando de novo. Por isso, tenho certeza de que quem inventou a história da cornucópia só colocou essa coisa da cabra que amamenta um deus para ficar mais romântico. Na verdade, a idéia veio é do cesto de roupa suja mesmo!

Tem mais! Estou certa de que existe um buraco negro entre o cesto de roupa suja e a mesa de passar roupa. Se isso não for verdade, como explicar os pés de meia que simplesmente desapareciam? Felizmente todo mundo tem dois pés aqui em casa, mas sempre acabava sumindo um ou outro. É ou não é de espantar?

Entrei em desespero. Baixei decretos. Por exemplo, enquanto não tivéssemos máquina de lavar roupa, todo mundo tinha de almoçar pelado! Principalmente quando fosse comida com molho de tomate. Aliás, toalha de mesa? Dispensável! Mais fácil passar um paninho do que tentar tirar manchas de gordura de tecido. É por isso que as mesas não são mais de madeira-de-lei. Tudo de fórmica que é muito mais prático. E assim foi até comprarmos um dos grandes inventos da humanidade: a tão sonhada máquina de lavar roupa.

Por falar nessa história de inventos... Vou confessar uma coisa aqui. Entre os sete pecados capitais, reconheço fraquejar em dois. O primeiro deles é a preguiça. Admito, admito! Numa outra vida devo ter saído da barriga da minha mãe falando "ô meu rei... se avexe não...". Ficava meio chateada comigo mesma por causa disso. Mas refleti e cheguei à conclusão que os grandes inventos da humanidade foram criados por grandessíssimos preguiçosos. Vou explicar. Se não fosse pelo fato de alguém estar morrendo de preguiça de ter de arrastar as coisas, ainda não teria sido inventada a roda. É ou não é? Se não fosse a preguiça, porque tentar achar uma forma mais fácil de fazer alguma coisa difícil? Assim caminha a humanidade: preguiça de bater claras em neve? Batedeira! Preguiça de ficar na frente do fogão esperando dar o horário de desligar o leite? Microondas! Preguiça de esfregar a roupa? Máquina de lavar! E por aí vai. E quem disser que não necessariamente essas coisas foram inventadas por quem, por exemplo, realmente tinha preguiça de lavar roupa, eu respondo: é verdade. O que só prova minha teoria! Essa criatura é tão preguiçosa, que tem preguiça só de pensar na tarefa que alguém teria de fazer e pimba! Inventa uma máquina. Minha preguiça ainda não me levou a inventar nada. Mas pelo menos estou com a consciência mais tranqüila.

Ahn? Qual é o outro pecado em que eu fraquejo? Ah, acho que não vou contar. Seria a avareza? Quem sabe a inveja? Ou talvez... a luxúria? Hein? Hein? Nada disso! Uma simples e mundana gula... Fazer o que?

Essa gula também teve um efeito positivo: encontrei uma mestre-cuca escondida em mim. E o fato de cozinhar bastante me levou a descobrir ainda mais mistérios em uma casa...

Muitos cientistas já se perguntaram de onde se origina a vida. Lá pelo século XVII um maluco chamado Jean Baptista Van Helmont desenvolveu a teoria da "geração espontânea" que queria dizer mais ou menos o seguinte: a vida aparece espontaneamente a partir de uma matéria bruta. Deixe um pedaço de carne em um lugar qualquer e dias depois ele vai estar coberto de larvas. De onde vieram essas larvas? Do nada! Foram geradas espontaneamente (coisa mais nojenta). Ele também tinha uma "receita" para a produção de ratos (chegadinho numa porquice esse tal de Van Helmont...). É claro que um monte de gente caiu matando em cima do coitado, dizendo que aquilo era um absurdo, que essa tal de geração espontânea não existia, etc., etc., etc. Homens! Mal sabem eles que a geração espontânea existe sim! É só fazer uma experiência bem simples...

Pegue uma cozinha cheia de louça suja e arrume tudo. Dê uma voltinha e reapareça logo em seguida. Você vai ver que começa a surgir, do nada, mais louça suja! Um copinho aqui, uma colherinha lá e, em pouco tempo, a pia já está cheia de novo. É ou não é geração espontânea? Você vai andando pela casa e lá estão elas: atrás da televisão, no chão, do lado do sofá... É uma loucura! Às vezes, elas estão mais agressivas. Você acaba de arrumar a cozinha, abre o fogão assim como quem não quer nada e encontra uma travessa imunda! Tem dias em que, além de agressivas, elas também estão abusadas: você termina a cozinha, enxuga a pia com papel-toalha (de vez em quando baixa o espírito da mania de perfeição), olha satisfeita para o trabalho concluído, vira as costas e dá de cara com um liquidificador sujo em cima do forno de microondas! É de matar!

Por favor, não confundam a geração espontânea com aquela outra coisa que acontece quando a gente se oferece, gentilmente, para lavar a louça e a dona da casa começa a desenterrar da geladeira potinhos de conteúdo geralmente cabeludo. Isso não tem nada a ver com geração espontânea. Isso aí é sacanagem mesmo!

E os mistérios de uma casa não param por aí! Estou convencida de que existia um saci que passava pela nossa casa na madrugada de domingo para segunda. Acho impossível acreditar que a bagunça da segunda-feira de manhã já estivesse lá no domingo à noite! Tenho certeza de que isso era obra de um saci. Quer dizer, como estávamos na Europa, talvez fosse um Leprechaun que decidiu dar um tempo na sua tarefa de cuidar do pote de ouro que existe no final do arco-íris, e resolveu imitar o amigo brasileiro. Saci ou duende, não importa, o resultado prático era que toda segunda-feira de manhã eu passava pelo "momento desolação" da semana quando via o estado geral da casa...

Do jeito que eu estou falando, até parece que achei ruim essa vida de mãe-esposa-dona-de-casa. Não! Aprendi e me diverti bastante também. Foi meio cansativo, é verdade. Mas criei meus mecanismos de defesa. Elaborei o "Estatuto da Rainha do Lar":

1 - Estabeleça um horário de trabalho e cumpra-o à risca. Sua jornada se encerra às 19h00? Então encerre mesmo. Se for preciso, saia de casa, fique sentada na porta por uns cinco minutos e entre se jogando no sofá e dizendo: "Puxa! O dia no trabalho hoje foi de matar. Nada como chegar em casa e dar uma relaxada!"

2 - Respeite seu horário de trabalho. Um dia, quando decidi que era hora de parar, fui tomar um copo d'água na cozinha. Enquanto tomava a água, olhei para cima e pensei "Nossa! Esse lustre da cozinha está um horror!". Já estava quase pegando um paninho quando disse para mim mesma: "Nem pensar!". Se fizesse isso, com certeza ia dar meia-noite e eu estaria de balde em punho lavando os vidros da sala.

3 - Escolha um dia para ser o "dia da faxina". Nos outros, faça só o básico ou, melhor, não faça nada. Eu escolhi a terça-feira. Por quê? Bem, na segunda não dava (tinha o problema do saci). Na quarta-feira o Felipe não tinha escola. Quinta e sexta já estão muito próximas do sábado. Do jeito que eu fiz, como os outros dias eram mais leves, meu final de semana já começava na terça-feira à noite (olha a preguiça aí).

4 - Resista à tentação do "vou lavar só essa loucinha...". Não faça isso! Se você começa lavando uma loucinha, elas começam a se multiplicar feito loucas (não se esqueça da geração espontânea), e você acaba não fazendo mais nada o dia todo! Deixe acumular um tanto razoável na pia e só depois se atraque com as bandidas.

5 - Resigne-se ao fato de que, amanhã, você vai ter de fazer de novo tudo o que fez hoje. É assim mesmo. Portanto, não vale a pena querer "adiantar" nada. Não dá. Deixe para amanhã o que deve ser feito amanhã e pronto. Só quando tive de cuidar de uma casa entendi uma história que a Selvina, que trabalhou comigo por quase 10 anos, me contou. Ela disse que o castigo dado à mulher por causa daquele episódio da maçã era ter de fazer o serviço doméstico. Nunca acaba e todos os dias tem de ser refeito. Bem bolado esse castigo, não? O problema é que na época da Eva todo mundo comia com as mãos e só vestia folhas de parreira, que são descartáveis. Sacanagem o que a esposa do Adão foi fazer com a gente! Já estava na hora de o divino rever esse castigo, não é verdade?

Eram os primeiros artigos. Daí voltei para o Brasil, abandonei os serviços domésticos e deixei de lado o estatuto...

De maneira geral e apesar de toda a inexperiência, me saí bem. Mesmo com lavagem de roupas. Uma vez, cheguei até a desenterrar de algum canto obscuro da minha memória a lembrança de algumas propagandas de amaciante de roupa. Achei que valia a pena investir nisso porque notei que as roupas ficavam meio duras depois de lavadas. Comprei o mais barato que tinha no mercado. Amaciante, como o próprio nome diz, devia amaciar a roupa, não é? Só que um dia, quando fui recolher as toalhas de banho do varal, sem querer, deixei uma delas cair no chão. Ela parou de pé! Achei aquilo meio estranho. Mas a certeza de que o amaciante não estava fazendo o trabalho dele veio no dia em que o Vidal me perguntou:

- Você tem usado amaciante de roupa?

- Tenho, por quê?

- É porque ontem de manhã coloquei uma cueca e saí de casa. Tive de andar bastante e... bem... as partes, sabe? Ficaram todas esfoladas...

Claro que ele colocou mais roupa por cima da cueca, afinal por lá fazia um frio danado. Mas nesse dia tive certeza absoluta de que o ditado "o barato sai caro" é a mais pura verdade! Corri ao mercado e comprei um produto mais decente! Achei uma injustiça o amaciante estar estragando meu excelente trabalho.

Bem, para falar a verdade, teve a ocasião em que acumulei vários panos de prato para lavar. Vocês sabem, os panos de prato... Aqueles pedaços de tecido que servem para tirar a sujeira que não saiu na esponja! Eles geralmente ficam num estado lastimável. Pois bem, muita água sanitária e sabão em pó rolou pelo meu "pianque" até que eu terminei tudo. A primeira parte da lavagem foi na mão mesmo, vejam só que progresso. Como estava empolgada na empreitada, decidi lavar também os panos de chão. Quando terminei, pendurei tudo à altura dos olhos para admirar minha obra e foi nesse momento que percebi, horrorizada, que os panos de chão tinham ficado mais brancos do que os panos de prato. Achei aquilo um absurdo e não tive dúvida: imediatamente, sujei os panos de chão!

(Publicado originalmente em http://www.familiamartins.blogspot.com/ em 16/04/2004)

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Uma observação antes de encerrar: é o terceiro post seguido em que falo em pecados... Devo estar me sentindo muito culpada nos últimos tempos, só pode ser! Alguém tem um jeito de contactar São Pedro, tentar psicografar uma mensagem, sei lá?! Acho que estou precisando de absolvição...

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sexta-feira, 21 de março de 2008

Filho de peixe...

Já contei, não é segredo pra ninguém, que eu sofro do mal da preguiça. A lei do menor esforço é o artigo número um da minha constituição particular. Em seguida vem “deixe para depois o que deveria ser feito agora, sempre que for possível”, “devagar a gente vai do mesmo jeito, ainda que não chegue a lugar algum” e por aí vai. Se pudesse, passava horas e horas deitada numa rede sem culpa!

Por isso, a simples idéia de que eu teria de fazer lição de casa com meus filhos quando eles entrassem em idade escolar me apavorou. Felizmente eles só lerão esse blog, se um dia chegaram a ler, daqui a muito tempo e aí das duas uma: ou eu terei conseguido fazer a poupança necessária para pagar o reforço escolar, ou eles já vão estar quase fora da escola.

Quero avisar aos terroristas de plantão que se alguém for dar com a língua nos dentes pra um dos dois eu nego! Palavra de mãe é lei. E mãe é sagrada!

Realmente, a tal da lição me pegou de surpresa. Quando o Felipe foi para a primeira série ainda morávamos na Terra do Astérix. As aulas aconteciam às segundas, terças, quintas e sextas das nove da manhã às cinco da tarde e, aos sábados, das nove ao meio dia. Início de ano, reunião com a professora e a bomba caiu sobre a minha cabeça: agora ele vai ter lição de casa! Naquele momento, na verdade, eu não percebi a bomba. Eu achei que, como qualquer criança normal, o Felipe simplesmente chegaria em casa, responsavelmente, verificaria a lição a fazer e faria. Sem que eu nem tivesse de tomar conhecimento do fato. Eu não contava com a genética. Talvez tenha deixado de fazer essas lições na escola, quem sabe?

Pois é! Tal como a cor dos olhos e o dedão do pé meio tortinho, a preguiça também é hereditária. O Felipe anda pela casa e eu vejo a minha própria preguiça por ali, reencarnada.

Quero deixar bem claro o que já tive a oportunidade de dizer em outra ocasião: engana-se quem pensa que a preguiça é algo que faz parar o mundo, muito pelo contrário! É a preguiça que move o mundo! Se não fossem os preguiçosos, aqueles que não queriam mais saber de arrastar pedras por aí, a humanidade não teria inventado a roda. Pra que achar uma forma mais fácil de fazer uma coisa difícil se a gente não tem preguiça de fazer essa coisa? Sem a preguiça estaríamos ainda fazendo uga-uga dentro das cavernas, tenho certeza!

Depois dessa defesa antropo-sócio-técnico-científica de nós, os preguiçosos, volto a contar que entre mim e o Felipe as lições se tornaram rede de batalha: eu querendo me encostar de um lado, ele do outro e pronto: a confusão se estabeleceu.

O grande problema é que, no papel de mãe, jamais poderia autorizar nem incentivar a tal da preguiça. Além de botar disciplina no nosso barraco, ainda tinha de vencer minha própria preguiça de fazer isso. Oh, calvário!

Estávamos na metade superior da laranja Terra. Hemisfério Norte, verão em julho, inverno em dezembro, um lugar em que Papai Noel não morre cozido vestindo roupa de lã em pleno verão. Ano escolar sempre começa logo após o verão, portanto, início das aulas em setembro. Uma simples questão geográfica que me deu mais um ano de aparente sossego... Por conta desse descompasso entre o calendário escolar francês e brasileiro, quando o Felipe terminou a primeira série na França, não tinha completado 7 anos. Se estivéssemos no Brasil ele estaria ainda na metade da primeira série nesse momento. Aí eu pensei: não vamos ficar aqui pra sempre. Ele é tão novinho. Tem aula o dia todo... Absurdo a escola mandar lição pra casa! Onde está o Piaget que permite uma situação dessas? Não vou obrigar essa pobre criança a fazer lição, que tortura. Ufa! Passa já essa rede pra cá!!!

Claro que eu não admiti isso pra ele! Continuava lá da minha rede dizendo que fazer lição era importante, necessário, obrigatório, etc. e tal. Mas, de verdade mesmo, não insistia muito.

Aí ele começou a segunda série. Estávamos na França ainda, mas no Brasil ele estaria terminando a primeira série. E já tínhamos data para voltar. Tive de deixar minha redinha tão confortável. Sob protestos veementes, é claro! Enfim, fui obrigada a começar a controlar e exigir as tais das lições. As estratégias foram as clássicas: pedidos delicados, firmes, insistentes, enérgicos e histéricos, nessa ordem de gradação. Recompensas, ameaças, castigos. O fundo do poço. Para reescrever uma lista de seis palavras ele demorava uma hora e meia! E quando chegava ao fim estávamos exauridos e exangues da batalha.

Passei a prestar mais atenção ao tema “lição de casa” nas rodas de conversas de mães no portão da saída das aulas. Uma técnica aqui, uma dica ali, adaptações criativas da minha parte e eu elaborei um novo método de tortura, digo, um novo método de educação (mães não torturam, tudo o que elas fazem é pelo bem dos filhos, embora Freud diga o contrário).

O método consistia no seguinte: criei uma tabela com os dias da semana de um mês. Essa tabela ficava suspensa pelos ímãs na porta da geladeira. No final de cada dia eu fazia uma avaliação do trio banho-lição-comportamento. Foi tudo bem? Eu colava uma etiqueta azul naquele dia. Algum problema? Etiqueta vermelha. No final de cada semana a avaliação geral. Ele tinha direito a uma etiqueta vermelha por semana. Mais de uma etiqueta vermelha e era punição certa. Punição essa que variava, mas que obedecia à regra geral: perde aquilo que mais quiser no momento.

Tinha os requintes de crueldade, digo, de sofisticação. O prazo pra terminar a lição era marcado num relógio de cozinha. Ele tinha meia hora, tempo mais do que suficiente para a quantidade de tarefa a fazer. Tic, tac, tic, tac... Trrrrriiiiiimmmm. A lição tinha de estar pronta antes do trim. Acho que ele nunca se deu conta da quantidade de vezes que eu atrasei furtivamente aquele relógio. As meias horas às vezes duravam noventa minutos. Nem Einstein conseguiria explicar a relatividade daqueles tempos de lição. Sou mãe e não madrasta! Apesar de não parecer, confesso.

Voltamos ao Brasil e o esquema das etiquetas continuou. Devia ser uma verdadeira tortura chinesa aquilo porque um dia ele implorou:

- Eu me rendo, eu me rendo! Eu faço as lições sem reclamar, mas, por favor, pare com as etiquetas!

Eu concordei, vejam como sou magnânima. Nada a ver com minha preguiça de preparar a tal tabela, lembrar das etiquetas, imagine! Abandonamos, aliviados, as etiquetas coloridas.

Se ele passou a fazer as lições civilizadamente? Claro que não! Continuamos as brigas diárias e, nesse ponto, ele sofisticou a argumentação dizendo:

- A Ana Luíza não tem de fazer lição, então eu também não tenho!

- Ela é quatro anos mais nova do que você! Aos três anos você também não tinha de fazer lição. E eu não tinha de controlar lição, ai que saudades... – Esse finalzinho eu só pensei, é claro!

Enfim, entre lágrimas e ranger de dentes de ambas as partes, as tais das lições iam saindo meio alquebradas.

O grande problema é que somos, Felipe e eu, além de preguiçosos, também perfeccionistas. Essa genética é de matar. E essa combinação, de enlouquecer! Entre a vontade de não fazer nada e a chamada de atenção da professora no dia seguinte pelo trabalho não feito ou, pior, mal feito, o que escolher? Oh, céus!

Ele começou a perguntar:

- Até quantos anos eu vou ter que ir pra escola?

- Olha Fê, não quero te desanimar, mas eu, por exemplo, quase quarentona, ainda vou pra escola...

Nunca vi dois olhos tão desalentados na minha vida.

- ... mas tem gente que só estuda até os 18 anos!

Uma centelha de esperança brilhou para logo em seguida se apagar. Ele tinha feito a lição de matemática naquele dia: dos 8 aos 18 anos seriam dez anos. Uma eternidade!!!

Observava, indignado, a irmã naquela moleza de vida pré-escolar. Nada de lições para fazer.

Nessa época, eu já tinha abandonado completamente a tarefa de fiscalizar e orientar lições e passado a bola para o Vidal. Se a coisa continuasse comigo um de nós acabaria inexoravelmente num hospital. Psiquiátrico. O Vidal assumiu brilhantemente a tarefa que eu era incapaz de conduzir.

Até que um dia abri a mochila da Ana Luíza e exclamei:

- Olha, a Ana Luíza agora tem lição pra fazer.

Dentro da minha cabeça a seqüência de pensamentos já começou a se formar: ela é tão novinha. Primeira série ainda demora. Que absurda essa responsabilidade já tão cedo!

O Felipe estava por perto e vibrou:

- Ah ha! Agora ela vai ver o que é bom! - esfregava as mãos com um brilho insano no olhar.

Peguei aquela folha cheia de linhas tracejadas, as quais ela devia seguir com um giz de cera e, ombros encurvados diante do filme cuja reprise eu já antecipava, fui atrás dela.

O Felipe veio junto dando risadinhas maléficas. Queria estar presente no tão sonhado momento em que a irmã se juntaria a ele no campo de concentração das tarefas escolares.

Ela estava na sala, entretida com suas bonecas. Eu cheguei e, num fio de voz, disse:

- Zizá, deixa essas bonecas e venha aqui. Você tem lição pra fazer.

O Felipe acrescentou:

- Agora você vai ver só como é chato ter de fazer lição!

Ela olhou pra mim. Olhou pro Felipe. Olhou pra folha na minha mão. Arregalou os olhos. Levantou e gritou:

- OBAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Saiu correndo e sentou na cadeira diante da mesinha onde eu, perplexa, coloquei a tal folha. O Felipe não conseguia juntar o queixo do chão. Ficou catatônico. Arrasado.

Expliquei o que ela tinha de fazer, ela fez, terminou e falou:

- Quero mais!

E o Felipe ainda ali, parado, incrédulo.

Disse que era só aquilo e ela começou um choro convulsivo porque queria mais lição pra fazer. Pensei: “Essa não!” Sugeri que ela viesse dividir a rede comigo e com o Felipe que, a essas alturas, já estava deitado no meu colo, ganhando um cafuné. Tem certas decepções na vida que só cafuné de mãe curam. Mesmo que a mãe seja torturadora.

Depois desse dia e depois da infinita paciência do Vidal, o Felipe se resignou e se rendeu às lições.

O ano escolar acabou de recomeçar e hoje reina a paz no lar dos Martins. As lições são feitas sem lágrimas. A Ana Luíza ainda não tem lições diárias, mas eu providenciei umas revistinhas de atividades pra ela se acalmar. Ao que parece, ela não entrou na linha sucessória da minha preguiça.

Eu me limito a perguntar, do fundo da minha rede:

- Fê, tem lição hoje?

- Já fiz! Tem um espacinho pra mim aí nessa rede com você?

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domingo, 16 de março de 2008

Salve-se quem puder

Tirando a casa da nossa avó, todo o resto no mundo se renova. Mesmo o que tem tradição secular, mais dia, menos dia, acaba passando por uma reforminha.

Eu, pobre mortal pecadora, já estava acostumada aos motivos que me dariam um bilhete de primeira classe sem escalas para o inferno: os velhos e conhecidos sete pecados capitais. Gula, luxúria, avareza, ira, soberba, vaidade, preguiça. Só de ler essa lista eu vejo que não tenho a menor chance de salvação. Fui criada nos preceitos da doutrina cristã, que admiro bastante. Mas o Vaticano... definitivamente, ele não me quer no seu rebanho.

Pra mim, não adianta nem tentar escapar do caldeirão de Lúcifer. Olha só o primeiro pecado da lista: a gula. Uma das coisas que mais me dá prazer na vida é cozinhar. Escolher as receitas, sair para comprar os ingredientes, preparar tudo e depois servir aos outros e a mim mesma em sessões de puro prazer descarado e culpado. Inchar minha vaidade com os elogios que ouço na maioria das vezes, felizmente. Claro que uns acidentes de percurso acontecem de vez em quando. Nessas ocasiões, descarrego toda a minha ira contra o forno desregulado ou minha falta de atenção, mas as pizzarias que entregam em casa servem pra que?

A verdade é que nem sei quantas vezes sucumbi diante de uma bela massa cheia queijo derretido, acompanhada de um bom vinho tinto. Ou então diante de uma mesa de café colonial coberta de bolos, pães, tortas, bolachinhas, frios, chás, sucos, geléias... Quem é que consegue resistir? Qualquer um se joga no chão, agarrado aos pés da mesa gritando “Podem me levar pra Satanás, eu não me importo! Mas depois do lanche...”

Não preciso nem continuar com os outros pecados: luxúria? Hummmmm. Preguiça?! É meu sobrenome! Para a Igreja Católica, eu sou uma ovelha irremediavelmente perdida. Diante da impossibilidade de chegar ao paraíso e fazer companhia aos puros de coração e fortes de espírito que conseguem se manter no caminho da luz, e considerando que resistir a esses pecados é muito difícil mesmo, adotei a prática “jaque” que consiste no seguinte: já que eu fraquejo na gula, então não vou mais me preocupar com o resto e vamos aproveitar a vida! Salvem os hedonistas!!!

Eu acreditava que o céu devia ser um lugar com muito espaço livre, imaginando que são poucas as pessoas que conseguem passar ilesas pelos sete pecados capitais. Mas li uma notícia semana passada que me mostrou que eu estava errada! A Igreja Católica acabou de dar uma repaginada nos pecados e lançou uma novíssima lista! Fiquei animada pensando que os antigos tinham caído em desuso, mas não! A lista atual veio para SOMAR novos pecados àqueles que já me atormentavam a consciência. Acho que estava acontecendo algum problema de superpopulação no céu e foram necessárias medidas drásticas para regular a entrada de novos membros.

De qualquer forma, me enchi de esperanças. Quem sabe eu não sairia dos últimos lugares na fila de pecadoras? Podia ser que os novos pecados não me pegassem. Fui correndo ver a tal lista pra ver se conseguia aplacar minha consciência. São seis novos pecados, chamados “sociais”. A idéia é interessante. Explora o fato de que o homem é responsável também pelo que faz aos outros homens em grande escala e não só ali, no miudinho, tipo explodir de raiva com uma fechada no trânsito ou gastar o dinheiro do leite das crianças no salão de beleza. Confesso que enquanto lia isso ia ficando cada vez mais animada. Meus pecadinhos são quase todos inocentes, não vão muito longe, atingem poucas pessoas ao meu redor. Achei que, enfim, eu teria uma chance ínfima, quase raquítica, de salvação!

Mas depois de ler a lista e refletir um pouco, vi morrerem secas e esturricadas minhas esperanças...

Os novos pecados são: fazer modificação genética, poluir o meio ambiente, causar injustiça social, causar pobreza, tornar-se extremamente rico, usar drogas.

Juro que avaliei cuidadosamente um por um. As conclusões foram desanimadoras...

Fazer modificação genética. Eu não sou bióloga, nem agrônoma, nem química, na verdade, passo longe de qualquer coisa que lembre um tubo de ensaio. Mas nem por isso me senti menos pecadora... Tive um câncer, que nada mais é do que um grupo de células mutantes que se reproduzem! Fiz modificações genéticas em mim mesma! E o pior! Como tenho filhos, é possível que tenha transmitido essa característica aos dois, que se tiverem filhos podem transmitir aos netos, bisnetos e assim per omnia saecula seculorum, amém. Sem chance! Se eu tivesse tido o câncer antes de ter filhos, ainda tinha uma possibilidade de evitar espalhar esse pecado por aí. Agora já é meio tarde... Foi só o primeiro pecado da lista e eu não consegui me ver fora da fila dos pecadores. E a continuação não foi mais promissora...

Poluir o meio ambiente. Irremediavelmente perdida! Do paraíso não vou ver nem as plaquinhas de indicação do caminho! Vejam bem, agora carrego dentro de mim uma prótese de silicone. Não sou mais biodegradável! Quanto tempo demora pra se desintegrar uma prótese de silicone? Se um saco plástico leva 200 anos pra se decompor, quanto tempo eu mesma não vou ficar poluindo o ambiente depois que passar desta para melhor?! E nem cremação adianta, já pensei nisso também. Silicone queimado deve poluir o ar, com certeza. Além de não sair da fila, desconfio que fui jogada ainda mais para o fim dela...

Os próximos três pecados devem ser analisados em conjunto, pois pra mim um leva ao outro. O primeiro é tornar-se extremamente rico. Como não dá pra todo mundo ser extremamente rico, uma única criatura extremamente rica na face da terra significa um bom tanto de gente na miséria. Portanto, a chance de quem se torna extremamente rico causar pobreza, é praticamente certa. E num lugar onde alguns têm muito e muitos não têm nada, existe injustiça social. Batata! Digamos que nessa parte eu achei que podia respirar um pouco mais aliviada porque, se conseguisse escapar do primeiro deles, ou seja, ser extremamente rica, escaparia dos demais também. Ilusão. Pura ilusão.

Qual é o conceito de “extremamente rico”? Qual é a moedinha que, ao cair no meu cofrinho, vai me transformar em extremamente rica? E mais, quem é que vai avaliar isso pra dar o veredicto? Se a coisa for feita por comparação eu estou ralada! É bastante evidente que comparada a mega-investidores, jogadores de futebol, artistas de cinema, alguns políticos e por aí vai, eu estou a anos-luz de ser considerada extremamente rica. Mas, basta eu ligar a televisão e ver um documentário sobre tribos na África, ou sobre algumas cidades no nordeste, imagens de favelas no Rio de Janeiro ou em São Paulo ou, mesmo sem televisão, é só eu dar uma voltinha pelo centro da cidade e ver gente que dorme na rua e percebo que minhas possibilidades de salvação são esquálidas e minúsculas. Quando a gente joga uma pedrinha num lago vão aparecendo círculos na água cada vez mais afastados uns dos outros, não? Da África até os sem-teto da minha cidade, a dura realidade da diferença abissal entre a condição de milhares de pessoas pelo mundo e a minha foi descrevendo os círculos como os da pedrinha na água, mas de fora pra dentro, até chegarem e se fecharem sobre mim, pobre pedrinha pecadora atirada no fundo do lodo enquanto aguarda as chamas eternas. A sentença sobre a minha condenação já está sendo escrita no supremo tribunal divino, sem chance de apelação.

Mas ainda faltava um pecado a analisar. Quem sabe? Uma única chance de não sair completamente desmoralizada dessa avaliação. Vamos ver: usar drogas. Depois de oito sessões de quimioterapia falar em usar drogas pra mim é até piada. Mas considerei que drogas com prescrição médica seriam uma espécie de “atenuante” nas avaliações do tribunal divino. Eles deviam estar falando de drogas alucinógenas, que dão barato, aquelas coisas. Que alívio! Pelo menos um!!! Na minha ficha policial dos arquivos de S. Pedro não consta uma única experiência com drogas. A não ser que... Álcool também é considerado droga? Tipo assim, tomar uns pileques, dar uns vexames, dançar a macarena em cima de uma mesa de bar com uma gravata amarrada na cabeça? É, meu povo, não tem jeito mesmo. Meu lugar é, definitivamente, ao lado do Coiso-Ruim, do Cramulhão, do Chifrudo. Se por um lado tenho o consolo de pensar que não vou estar sozinha na casa do Tinhoso, por outro, tenho pavor de multidões e detesto calor. Que azar!

Não é de desanimar? O céu, definitivamente, não é um lugar feito para seres humanos! As metas a serem atingidas pra chegar lá estão além das nossas possibilidades, a Igreja Católica acabou de mostrar isso. O pessoal do Vaticano ocupará sozinho o paraíso. Ficaremos todos os outros, reles mortais pecadores, na companhia de Belzebu, sem orientação espiritual, nem nada.

Pensando bem... Acabei de me lembrar de uma notícia que ouvi no ano passado sobre quanto o Vaticano gastou nas últimas férias de verão do Papa Bento XVI. A módica quantia de um milhão de Euros. Só isso. Um milhão de Euros para custear as despesas do Papa e da sua comitiva durante o merecido descanso nos meses de verão.

Um milhão de Euros é bastante dinheiro, não? Acho que dava pra financiar uma boa pesquisa que encontrasse alternativas à manipulação genética. Ou, quem sabe, poderia ajudar num projeto de despoluição de um rio, ou de reflorestamento, sei lá. Pensando bem, um milhão de Euros aplicados numa tribo de algum país da África daria pra diminuir um pouco a diferença social, não daria? E quantas pessoas será que poderiam ser mantidas num programa de desintoxicação e recuperação de drogas com um milhão de Euros?

Acabei de ficar mais animadinha! Iremos todos para o inferno, com certeza. Mas já não estaremos sozinhos. Ufa!

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sexta-feira, 7 de março de 2008

Sobe ou desce?

Será que George Orwell, quando escreveu 1984, foi um grande visionário? Ou será que deu a idéia pela qual o mundo fofoqueiro e indiscreto em que vivemos tanto ansiava? Foi no seu romance que apareceu o “Grande Irmão”, o hoje mundialmente famoso “Big Brother”. Ficamos sabendo do personagem do comandante onipresente nas vidas de todos pelas teletelas espalhadas em cada casa, cada centímetro de rua, cada canto de edifício público ou privado e a humanidade se transformou para sempre.

Quem não ouviu pelo menos falar da gaiola dourada artificial do reality show da TV que pegou emprestado o nome do personagem de Orwell? Aquele mundinho restrito e de mentira onde pessoas ficam em observação como ratinhos num laboratório: vamos colocar machos e fêmeas num mesmo ambiente, hormônios em fúria, e vamos ver o que acontece? Injeta um pouco de cerveja. Tira a comida. Acene com a recompensa da glória e da fama e vamos espiar à vontade. Realmente, um prato cheio para os sociólogos, antropólogos e psicólogos de plantão. Formados ou não... A ética médica não diz que é ilegal fazer experiências com humanos? Mundo doido e cheio de contradições esse em que vivemos...

Só que esse programa de TV é um grande faz-de-conta, não dura mais do que a eternidade de um verão. Anima conversas de salão, filas de pontos de ônibus e de bancos, situações em que só nosso arsenal de perguntas e respostas pré-formatadas sobre uma das maiores especialidades da raça humana, a meteorologia, não preenchem completamente o vazio das conversas vazias: Será que chove hoje? Calorão, né? Que frio! Ufa! Eis que agora podemos também falar da vida alheia sem medo de parecermos fofoqueiros! Autorização para espionar, para escutar atrás da porta, para olhar pelo buraco da fechadura. E para comentar depois!

Só que andei pensando e percebi, chocada, que eu mesma estou vivendo parte do enredo de 1984! Eu e todas as pessoas que vivem nas grandes cidades hoje em dia. Nós já vivemos sob o olhar constante e vigilante das teletelas do “Grande Irmão”. Estamos num Big Brother compulsório e nem tem prêmio de um milhão no final!!!

Já ando quase precisando de uma cirurgia no maxilar de tanto obedecer às plaquinhas do tipo “Sorria! Você está sendo filmado.” que vejo a torto e a direito todos os dias. Talvez essas plaquinhas tenham tornado as pessoas mais simpáticas, afinal estão sempre sorrindo, mas é um simpatia tão falsa quanto a vidinha na gaiola dourada... Entro em edifícios comerciais, lojas, condomínios e vejo a mim mesma nos monitores de TV sem parar. A grande sacanagem é que a TV engorda a gente pra caramba! E, além do mais, não estou recebendo nenhum cachê por ceder minha imagem desse jeito. Que injustiça! Onde está o meu agente que não resolve essa situação?

Nas estradas e avenidas está escrito “rodovia monitorada por radares”, na minha querida Rua XV de Novembro que percorro de norte a sul vejo os constantes avisos: “área de segurança monitorada por câmeras”. Pra todo lado que eu olho eles estão lá, onipresentes, os olhos que tudo vêem.

Vocês sabem quantas vezes uma pessoa é capturada em imagem por dia na cidade de Londres? Em torno de 300 vezes! E esse dado é de 2002, o que me leva a crer que de lá pra cá a coisa deve ter ficado ainda mais grave, é uma loucura!

Tudo bem, é uma questão de segurança. É verdade que os assaltos na Rua XV diminuíram e que eu posso subir e descer seu calçadão com meus fonezinhos de ouvido ou falando no celular, os pés no chão e a cabeça nas nuvens, sem medo. Mas e as ruas que não têm câmeras? Vamos nos transformar em Londres? Tudo bem se vierem junto o Tâmisa, o Big Ben e a Tower Bridge. O príncipe Harry não seria uma má idéia também...

Bem, não sei vocês, mas podem me filmar, eu não tenho nada a esconder. Quer dizer, quase nada. Na verdade, umas coisinhas mínimas que nem dariam manchete de jornal. Então, aceito e convivo bem com “O Olho”. Já estou até pensando nuns truques de maquiagem pra ele, rímel, delineador, sombra. Já somos amigos.

Mas tem um lugar em que eu não suporto as tais câmeras: elevador! Colocar câmera no elevador pra mim é a mesma coisa que colocar câmera no banheiro!!! Onde já se viu? E mais: pra quê? Tem câmera por tudo, a gente vê quem entra e quem sai do elevador pelas câmeras do corredor, da garagem, das escadas... Pra que câmera dentro do elevador? Elevador não dá pra seqüestrar, não tem como um ladrão entrar, render a ascensorista e dizer: ”Desvie o curso e leve esse elevador direto ao cofre do banco!” Na verdade, nem ascensorista existe mais! A não ser no Edifício Asa em Curitiba. Todo mês quando viajo nas asas dos elevadores do Edifício Asa me espanto com essa atividade profissional que resiste bravamente aos tempos modernos...

Decididamente, câmeras em elevadores me revoltam! E estou ainda coletando dados para uma pesquisa, mas desconfio que as câmeras são colocadas praticamente só nos elevadores que têm espelhos! Isso foi idéia de jerico de algum voyeur, só pode! Em elevador com espelho quem é que resiste àquela olhadinha pra ajeitar o visual? Sempre levantei atrasada e o espelho do elevador foi a extensão natural daquele do meu banheiro. No exato tempo de oito andares abaixo eu entrava de cara lavada e saía de lápis, batom e rímel. Daria até pra publicar um “antes” e “depois” se naquela época existissem as tais câmeras. Hoje, infelizmente, isso não é mais possível. A quantidade de maquiagem que sou obrigada a usar pra disfarçar os sinais do tempo e das quimios me obrigaria a morar no centésimo décimo andar! Tive de me render e ajustar meu despertador.

Mas não é só maquiagem... Tem aquela inspeção básica na cara pra ver se não tem um cravo mais saliente, uma espinha impertinente. Tem a olhadinha na bunda pra ver se está tudo em cima, ou conferir que continua embaixo, fazer o que? Uma verificada nos dentes pra ter certeza de que o brócolis ou o feijão do almoço corrido sem tempo pra escovar os dentes depois não estão lá, querendo ter eles também seus 15 minutos de fama diante das câmeras. Isso sem falar na ajeitada no sutiã, na calcinha...

E por falar em calcinha, o que dizer dos namoros furtivos, dos beijos roubados, das carícias ousadas? Impossíveis sob o olhar vigilante e indiscreto do Grande Irmão, encarnado e devidamente representado pelos porteiros! Os consultórios dos psicólogos devem estar lotados de pessoas que não têm mais a menor chance de realizar as fantasias de uma namoradinha no elevador. A eles eu digo: procurem elevadores sem espelho. Meio sem graça, eu sei, mas são os únicos ainda com chance de não terem câmeras.

Definitivamente, câmera no elevador é um absurdo! Vamos às ruas, vamos ao protesto!

Elevador! Cego! Jamais será esquecido!
Um, dois, três. Quatro, cinco mil! Queremos ter de volta o anonimato em elevadores do Brasil!


E precisamos ser rápidos! Elevadores não são mais cegos, mas ainda são surdos e mudos! Já podem “ver” o que fazemos no íntimo de suas entranhas, mas ainda não podem escutar. Lá no livro do George Orwell as tais teletelas viam E escutavam! Já pensaram? Parem o elevador desse mundo de elevadores vigiados que eu quero descer! Sei lá a que andar ele vai chegar, mas não quero que continuem a me vigiar. Tenho meus pudores, ora bolas!

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Alguns recados...

Em primeiro lugar, quero agradecer publicamente e em bloco a todos os comentários aqui no blog, mas também aos emails, scraps no Orkut, mensagens no MSN e mesmo recadinhos ao vivo e a cores que tenho recebido de quem acompanha ou passa por aqui de vez em quando! Realmente escrever essas coisas é uma atividade da qual eu gosto muito e que pretendo continuar enquanto tiver coisas a dizer! E olhem que sou muito faladeira!!!

Se não respondo a tudo na hora, às vezes nem respondo, é porque sou lerdinha e atrapalhada mesmo. Ou respondo mensagens ou escrevo outros posts. Prefiro os posts, vocês não?

Portanto, não é pouco caso, é só pouco tempo mesmo! Mas leio tudo, adoro e guardo com carinho!

Em segundo lugar, semana que vem é a última quimio! Uhuuuuu!!!!
Provavelmente estarei envolvida em batalhas ferrenhas contra os torturadores e não vou escrever nada nos próximos 10 dias pelo menos... Tudo bem. Será a última ausência por conta disso!

sábado, 1 de março de 2008

Novidades

Há tempos eu queria encontrar uma forma simples de imprimir esses textos do blog porque sei de pessoas que acompanham, mas que não gostam de ler na tela do micro e sempre imprimem. Novidade! A partir de hoje os textos publicados no blog existirão também em versão pra impressão! Não é chique demais isso?

Funciona assim: no fim de cada texto estará escrito Versão para impressão. Ao clicar o link, aparecerá o seguinte diálogo:


Clique Abrir para abrir o arquivo diretamente e imprimir, salvar, ler na tela, etc. Clique Salvar para somente gravar o arquivo no computador.

Para poder ler os arquivos que vou deixar aqui vai ser necessário ter o programa Adobe Reader, que é gratuito e pode ser baixado na internet. Eu indico aqui um link de página em português, mas vocês podem usar a página original da Adobe, se desejarem. Eu sei, nada é muito simples mesmo... Mas isso só tem de ser feito uma vez.

Todos os textos publicados aqui até hoje já possuem também uma versão para impressão, vejam como me empenhei!

Nos últimos dias me dediquei à tarefa de ajeitar tudo isso, o que deu um certo trabalhinho e, portanto, tirou o tempo de escrever uma nova crônica.

Só que, vasculhando meus guardados digitais, encontrei um conto que escrevi em 2004, chamado O Tédio. Nessa época eu participei meio "de penetra" num concurso literário que um grupo de pessoas que gostam de literatura promoveu. Era um grupo fechado, de amigos, e eles já tinham feito concursos desse tipo antes. Naquela ocasião o Fábio, um amigo nosso, que também fazia parte desse grupo, me convidou pra participar do concurso que consistia no seguinte: a Rubiane (uma das integrantes) escreveu um conto chamado O Jogo, o qual terminava com uma palavra - OBRIGADO. O que os participantes do concurso tinham de fazer era dar uma explicação para essa palavra, de acordo com o texto. Obviamente não existiam respostas certas ou erradas, o que mandava era a criatividade de cada um. Como resposta, escrevi o conto O Tédio. A própria Rubiane foi quem escolheu a melhor resposta entre as que foram enviadas.

Ainda não falei com a Rubiane, mas acredito que ela não vai se opor (espero!)... Para poder publicar meu conto, preciso também publicar o dela, senão ele não faz tanto sentido. :-)

Como são textos um pouco longos, vai somente a versão para impressão de cada um:

O Jogo - por Rubiane de Lima
O Tédio - por mim mesma

Quem ganhou o concurso foi um dos participantes do grupo cujo nome não lembro agora. Vou tentar recontactar todos pra ver se eles querem colocar aqui os seus textos também.

Esse foi o primeiro conto que escrevi. E quase o único, para falar a verdade. Depois dele só escrevi a história da Quiltéria, uma quilteira. Esse texto está no nosso antigo blog e também espalhado em alguns blogs de amigas quilteiras, além de publicado na revista virtual PatchStop. Mas outros contos virão. Novas histórias da Quiltéria estão para chegar! Aguardem!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

E nem precisa ser uma Brastemp!

Desde pequena aprendi que não se deve abrir a geladeira na casa dos outros. A instrução veio assim, pronta de fábrica. Sem questionamentos.

Só que de uns tempos pra cá tenho questionado tudo o que me foi imposto. E aí fiquei pensando: “não se deve abrir a geladeira na casa dos outros”. Tá. Por quê? Qual é o risco que corremos ao expor nossa pobre e indefesa geladeira? O perigo, amigo leitor, é que não existe coisa mais reveladora do que uma geladeira. É assustador!

Em primeiro lugar, a geladeira esconde em sua barriga aquilo que virá parar, inevitavelmente, na nossa. Dá pra dizer que a geladeira é uma pré-barriga.

Bois e vacas são chamados de ruminantes porque vão comendo, comendo, comendo e guardando tudo no rúmen. Só param de botar coisas pra dentro depois que o rúmen está cheio. Aí fazem voltar tudo pra boca e só então é que vão mastigar, digerir. A geladeira é nosso rúmen!

E qual é o problema de revelarmos o conteúdo do objeto que guarda o que habitará transitoriamente nosso ventre? Vou adaptar um velho ditado. A partir de agora será: “mostre-me o que tens na tua geladeira e te direi quem és”.

Daria até pra criar um novo reality show, uma espécie de Big Brother gastronômico. Câmeras seriam instaladas em cozinhas anônimas e os participantes ficariam diante de monitores de televisão que mostrariam o conteúdo de geladeiras. Ganharia aquele que, só de olhar esses conteúdos, fosse capaz de dizer quem mora naquela casa.

Loucura? Impossível? Acompanhe comigo.

Você abre a geladeira e vê uns refrigerantes sem açúcar, algumas latinhas de cerveja, uma caixa de leite desnatado, uma maçã e meio queijo branco. Quando a porta é aberta, ouve-se aquele barulho do oco, a névoa saindo. Sentença: casal jovem e sem filhos! Trabalham fora, almoçam fora. Vida social agitada, jantar com os amigos. Durante a semana, trabalho. Final de semana, balada. A geladeira só existe mesmo como promessa da família que um dia virá. Está lá porque onde já se viu casa sem geladeira? Mas é quase um objeto de decoração.

Um dia os filhos vêm, a geladeira começa a se preencher. Fica grávida como a dona da casa, só que depois dela. Quando as crianças chegam, não se ouve mais o barulho do oco quando ela é aberta. Está plena. Potes de Danoninho, iogurtes, frutas, legumes. Caixinhas de suco. Leite integral. Depois dos filhos já não dá mais pra almoçar num restaurante por kilo ao lado do trabalho. A casa passa a ter almoço todo dia e a geladeira adquire importância, ganha status de governanta, é a prova incontestável de que aquela, enfim, é uma casa de verdade!

Com o correr dos anos algumas coisas mudam como, por exemplo, saem os Danoninhos e entram os refrigerantes. Frutas e legumes são solenemente ignorados pelos filhos adolescentes, mas acabam de um jeito ou de outro mantendo seu espaço na geladeira porque contam com uma defensora irredutível: a mãe, a dona da casa, aquela que reina soberana e absoluta sobre a geladeira e seu conteúdo. Cuida da sua arrumação, limpa, enfeita com ímãs na porta. Mãe e geladeira são cúmplices. Por mais que os filhos adolescentes tentem, não vão conseguir ocupar o espaço das frutas e legumes substituindo-os por refrigerantes e Danetes.

Vêm as brigas, as discussões. A luta eterna entre o prazer puro, simples, irresponsável e a saúde.

“Enquanto você estiver nesta casa sou eu quem diz o que vai dentro desta geladeira!”

“Pois eu não vejo a hora de sair daqui e ter minha própria geladeira!!!”

E aí um dia os filhos saem de casa mesmo! Finalmente têm a tão sonhada geladeira particular, talvez comprada de segunda mão, mas deles! Se você fiscalizar o conteúdo da geladeira de jovens em recente liberdade condicional vai ver, se forem mancebos, cerveja de cima embaixo. Já as moçoilas até podem ter cerveja, mas fatalmente você vai ver também alguma fruta, um queijinho. Meninas são mães em estado de hibernação, não dá pra esquecer. Um dia elas serão também senhoras de sua geladeira familiar.

Agora, se você abrir a geladeira e tiver cerveja de cima embaixo, mas também algumas embalagens de pizza ou de comida chinesa, pode afirmar sem medo de errar: é homem separado! Pode até ser um homem solteiro, mas aí aposto que já passou dos 30. No mínimo. O rapaz solteiro, aquele da geladeira cheia de cerveja, que acabou de sair de casa, está geralmente numa fase da vida em que não existe dinheiro pra pedir comida. E restinhos de miojo não ficam guardados na geladeira, vão pro lixo depois de dias em cima da pia ou do fogão. Já o homem separado, ou o solteirão convicto, geralmente trabalha (tem de pagar a pensão, né?) e pode se dar ao luxo de pedir uma pizza. Que não é de graça. Portanto, os restos de pizza e de comida chinesa vão parar na geladeira e serão descobertos pela faxineira meses depois com uma cabeleira de fazer inveja a Elba Ramalho!

O caso mais difícil de identificar é o da geladeira que tem frutas, queijo sem gordura, leite desnatado, mas também uma ou outra garrafa de vinho, talvez espumante, endívias e potinhos com ervas aromáticas. Situação difícil essa. Seria a prova final desse concurso imaginário. A pergunta que vale um milhão.

Uma geladeira com esse conteúdo pode ser de uma mulher divorciada, sem filhos, ou então solteira, mas já quase na idade da Loba. Só que pode ser também de um homem refinado e sensível que possivelmente nem mora sozinho, mas na companhia de outro ser igualmente refinado e sensível, muitas vezes amante de artes e de música clássica. Homens com os quais as mulheres adoram conversar porque são geralmente cultos e divertidos. Mas fica só na conversa. Quando é pra namorar a mulherada tem de sair atrás de uma geladeira cheia de cerveja mesmo, fazer o que? E não adianta se iludir! Aquela famosa cena do filme “9 ½ semanas de amor” em que o Mickey Rourke faz um banquete em cima da barriga sarada da Kim Basinger é pura ficção! Não existe homem solteiro, que jogue no time dos espadas e que tenha mel e cerejas em calda na geladeira. Esqueçam!

O mais impressionante é que a geladeira conta tudo mesmo! Até fechada! Basta olhar os papéis que ficam suspensos pelos diversos ímãs na sua porta, ímãs esses que também botam seu grão de sal nessa fofoca pra lá de indiscreta.

A geladeira do casal recém-casado e sem filhos vai acolher aqueles recadinhos doces do tipo “Amor, vou morrer de saudades durante o dia. Te amo!” presos por ímãs novinhos em folha.

A chegada dos filhos vai depositar poeira e gordura sobre os ímãs, além de substituir lentamente os recados que passarão a ser pragmáticos.“Não esquece de passar no banco. Hoje é dia de pagar a babá. Beijo”. A porta da geladeira também vai servir de suporte para as receitas do pediatra com as doses do antibiótico, para a lista de material escolar, para o endereço das festinhas dos amigos. Nessa fase os ímãs serão panelinhas, florzinhas, frutinhas, miniaturas em geral. Evocarão as viagens de férias, serão as lembracinhas de nascimento dos filhos dos amigos. Todos esses bibelôs imantados conviverão pacificamente ao lado dos telefones do técnico que conserta o aquecedor, do entregador de água, da farmácia 24 horas e da pizzaria.

Os homens solteiros e jovens não terão ímãs. Sem grana, não dá pra pedir pizza. Completamente desnecessários pra segurar papel. Deixar recado pra quem? E, além do mais, ninguém consegue ler com tanta cerveja na cabeça.

Já os descasados terão uma fila indiana de ímãs de pizzaria e de restaurantes de comida chinesa repousando na porta da geladeira. Eles manterão em suspenso uma ou outra conta pra pagar. E só. Os descasados estarão finalmente livres dos bilhetes amargos como chá de losna que a geladeira da antiga residência exibia.

Posso apostar que em muitas separações a geladeira foi o suporte mediador dos recados insolentes. Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher, com exceção da geladeira. Ela é a única autorizada a ficar no meio da disputa e a servir de elo de ligação nessa corrente quebrada. Anteparo nas conversas que não podem mais acontecer frente a frente: “A megera da sua mãe ligou.” ou “A fatura do cartão está em cima da mesa. R$ 200,00 no salão de beleza é absurdo!”. Sábia e imparcial geladeira que fica ali, entre os dois, impávida mesmo quando os pratos voam de um lado para o outro na sua frente.

Fiel geladeira. Onipresença silenciosa nas nossas vidas. Cúmplice das nossas boquinhas da madrugada. Parceira das nossas fugidas do regime. Conviva indispensável na acolhida das sobremesas e bebidas das nossas festas. Conselheira sem palavras. Em quantos momentos não abrimos a geladeira e ficamos ali, olhando seu conteúdo, pensativos, muitas vezes até fechando a porta sem pegar nada? Terapeuta freudiana ortodoxa, daquelas que ficam mudas o tempo todo, a geladeira é quase nosso divã.

Nossa geladeira nos acompanha a vida toda. Caminha ao nosso lado nessa jornada. Começa vazia, vai se preenchendo aos poucos, sustenta os acontecimentos do dia-a-dia, às vezes intermedia as brigas. Depois de muitos anos, ela vai acabar contendo somente coisas saudáveis, livres de colesterol e de gordura trans. Geladeira de avó. Nem ira, nem luxúria. O único pecado que ela vai acobertar é aquele da gula, encarnado num maravilhoso pudim de leite condensado para os netos no fim de semana.

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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Eu, eu mesma e muitas outras

Em novembro passado reencontrei um amigo muito querido com quem eu não conversava há anos. E-mail vai, e-mail vem e ele fez uma pergunta que me pôs a pensar. Ele queria saber como eu o via quando nós dois tínhamos 16 anos.

Ao responder a pergunta dele, tive de pensar em mim mesma. Em como eu era quando tinha 16 anos. Confesso que lembrar que o número que eu via quando subia na balança era muito diferente do que vejo hoje me deixou meio deprimida. Mas, definitivamente, não é sobre esse assunto que eu quero falar!

Quero falar das várias Julianas que estão espalhadas por aí na cabeça das pessoas que me conheceram ao longo da vida.

Exatamente. Várias Julianas!

Estou convencida de que existem clones meus passeando pelo imaginário de quem ainda lembra que me conheceu um dia, mas perdeu o contato comigo desde então. E a certeza de que isso acontece vem de um scrap que encontrei na minha página do Orkut. Ele veio de uma outra amiga, que conviveu comigo lá pelos 16, 17 anos. 20 anos depois ela me encontra e, logo depois do clássico “E aí? O que tem feito? Casou? Trabalhou? Engordou?” (Ops! Eu disse que não queria falar disso hoje!!!), deixa a seguinte pergunta:

Você já gravou um CD?

Gravar CD?!! Eu?!!

Imediatamente lembrei de um dia em que fomos, a família toda, pra um hotel próximo do litoral aqui do Paraná, comemorar os 60 anos do meu pai. Fora de temporada, hotel vazio, tudo à nossa disposição. Inclusive um aparelho de karaokê numa sala de jogos. Como só estava a gente mesmo, me aventurei no microfone e soltei a goela. Logo no fim da primeira música minha irmã entrou na sala vinda de não sei onde e disse:

- O que tá acontecendo? O karaokê tá estragado? Lá de fora a gente ouve uns sons agudos, esquisitos!

Soltei discretamente o microfone e falei:

- Que engraçado, não tinha ninguém cantando!

E agora aquela amiga vinha me perguntar de CD?! Ela devia ter se enganado de Juliana, obviamente. Claro que eu perguntei do que ela estava falando e a resposta foi:

Nos encontros você cantava tanto! Tinha uma voz tão linda que eu tinha certeza de que um dia se transformaria em cantora profissional.

Vocês não sabem da maior: era VERDADE! Realmente eu cantava nos encontros de jovens que fazíamos. Não só cantava como puxava o coro feminino. Adolescente, ensaiava músicas com os pais dos outros adolescentes que recebíamos para fazer a formação de Crisma. Cheguei a cantar em missa de Bodas de Prata. Fazia primeira voz, segunda voz, back vocal! Eu cantava MESMO! E não era só no chuveiro!!!

Desde o dia em que eu e a Katya nos vimos pela última vez, foi como se duas Julianas passassem a existir: eu mesma, e a minha imagem que ficou na lembrança da Katya. O problema é que eu fui pra um lado, e a imagem de mim que morava nas memórias da Katya tomou outro rumo. Hoje, muitos decibéis e linhas melódicas me separam desse clone canoro.

A partir de então, comecei a dar tratos à bola e iniciei a divertida tarefa de tentar imaginar quantas outras versões de mim podem existir por aí e como elas seriam.

Tem a cantora, já devidamente apresentada.

Como eu disse, esse verdadeiro rouxinol fazia suas apresentações em reuniões preparatórias pra Crisma, em grupos de jovens, em missas, etc. Nessa época eu era tão engajada nesses grupos, mas tão engajada, que no colégio chegavam a me chamar de “Irmã Juliana”. Portanto, tem uma versão minha de hábito de freira, de terço na mão, entoando cantos gregorianos nas missas das seis da manhã em alguma igreja católica.

Embora eu não tenha abandonado minhas crenças cristãs, igrejas católicas eu não freqüento mais. E cantar... Bem, já demonstrei que o gogó enferrujou completamente há pelo menos 8 anos (o karaokê NÃO estava quebrado!).

Um pouco mais tarde, no último encontro de jovens do qual participei, em Maringá, na companhia do mesmo amigo lá do começo, fiquei responsável por comandar uma atividade física logo de manhã pra acordar a galerinha. Eu tinha 19 anos e, naquela época, freqüentava aulas de aeróbica. Três vezes. Por semana? Não! POR DIA! Isso mesmo! Eu estava desempregada, fora da faculdade, matriculada num cursinho que não via minhas fuças por lá com muita freqüência, então, sem nada melhor pra fazer, ia pra academia de manhã, de tarde e de noite! Cheguei quase a ser selecionada pra participar da equipe que representaria a academia num concurso de aeróbica!!! Conhecia todos os movimentos, as músicas, os ritmos. Então, naquele encontro, dei aula de aeróbica pra umas 40 pessoas no jardim! Isso me leva a crer que tem gente em Maringá que pode estar convivendo com uma versão minha que já lançou DVD de ginástica, que está a ponto de editar um livro de dietas, corre maratonas e patrocina uma linha de roupas esportivas!

Lembrando do número obsceno que eu vi na balança hoje de manhã (mas eu disse que não queria falar disso) vou só acrescentar que atualmente faço caminhadas umas três vezes... por mês! Só porque estou consciente de que o coração precisa disso, e nada mais! Minha dieta ideal seria uma pirâmide como aquelas que a gente vê por aí nos guias nutricionais só que nas proporções exatamente invertidas, ou seja, na base da pirâmide apenas açúcares e gorduras de todo o tipo, pra depois virem as massas e pães, um pouquinho de proteína e lááááááá na pontinha um ínfimo espaço para frutas, legumes e por aí vai. Claro que se eu insistir na geometria dessa pirâmide, vou encarnar outras figuras, mais precisamente, a esfera. Portanto, como não dá pra seguir nessa linha, vou ziguezagueando pelas retas e ângulos em que a vida me botou, derrapando nas curvas, principalmente nas minhas, e esbarrando em sólidos nos quais, quando a gente sobe, aparecem aqueles números e ai.... vamos mudar de assunto!

No quesito esportes, além das caminhadas, só mesmo volley. Pela televisão. E 3 sets no máximo porque 5 me deixam esgotada! Definitivamente, a versão bombada-sarada-saudável se estiver fazendo jogging por aí está a anos-luz de distância de mim.

Mas a verdade é que aos 19 anos eu andava nessa vidinha mansa de academia, cursinho (sei!) e outras coisinhas mais.

Tudo isso porque tinha começado uma faculdade de Arquitetura e, depois de um ano e meio, decidi que minha vida não era pra ser construída em pranchetas nem planejada em maquetes. Resolvi trancar o curso, me matricular no tal cursinho (sei!) e fazer vestibular pra Informática. Dá quase pra dizer que são áreas afins, não dá? De Arquitetura para Informática. Tudo no bloco de Exatas, pelo menos.

Isso quer dizer que existe uma versão discípula de Niemeyer, projetando estruturas, embelezando praças, edificando os sonhos dos outros... Ela deve ser legal... Mas tão falsa quanto as outras. A verdade é que, enquanto eu aguardava longos meses até o novo vestibular, ficava ali, de casa pra academia, da academia pro cursinho (sei!), do cursinho pra Biblioteca Pública (sempre adorei os livros), da Biblioteca Pública pro cinema, do cinema pros papos pelo telefone, dos papos pelo telefone pras saídas com aquele amigo lá do começo: lanches, conversas filosóficas, ensaios de peças de teatro (ainda teve isso!), passeios pela cidade: XV de Novembro, Santos Andrade, Rui Barbosa... só coisa muito útil!

Claro que meu pai achou que a moleza estava grande demais e, um dia, mais precisamente numa terça-feira à tarde, eu atendo ao telefone e, em vez de um convite pra balada, ouço o seguinte:

- Amanhã você começa a trabalhar no banco, tá? Arrume seus documentos pra levar na agência do Portão. Converse com a Guiomar. Tchau.

Assim. No seco.

Em novembro de 1989 minha Carteira de Trabalho recebeu o primeiro carimbo: atendente no Banco Itaú S.A. Abrir contas, atender ao telefone, preencher depósitos, tirar extratos, vender planos de capitalização, incentivar aplicações tudo isso com um salário no fim do mês! Inacreditável!!! Comprar roupas, lingerie, fazer a unha. Comprar sapato, ir ao cinema, comprar bijuteria. Comprar livros! Tudo isso sem pedir nada pra ninguém? É o paraíso! Fazer poupança como eu recomendava aos clientes do banco? Nem pensar! O negócio era aproveitar a nova vida no recém-descoberto mundo dos adultos, sair com a turma do trabalho e fazer muita festa! O programa preferido do grupo era ir a bailes gauchescos na periferia da cidade. Aprendi todos os passos das diversas danças e quase comprei um vestido de prenda! Mas entre o vestido e uma bota nova, preferi a bota...

Chegamos então, à minha versão bancária, quiçá banqueira, conhecedora do mercado financeiro e dançarina de vanerão. Além disso, fã do Grupo Minuano, vestida ora de tailleur, ora de prenda, de cuia de chimarrão em punho analisando o movimento da Bolsa de Valores e tentando encaixar o ritmo da Bovespa ao de uma milonga. Mas bá, tchê!

Meu futuro no mundo dos grandes investidores começou a se desvancer depois de estar escalada para ser a telefonista da agência no exato dia em que despencou sobre nossas cabeças o Plano Collor. Vocês se lembram do Plano Collor, né? Aquele que confiscou cadernetas de poupanças, saldos em conta corrente, valores aplicados. Tudo isso em uma madrugada, deixando aos bancos e seus perdidos funcionários a tranqüila tarefa de refazer todos os sistemas e informar claramente os clientes sobre as regras de um plano absurdo que ninguém conseguia compreender, nem mesmo quem o tinha elaborado. O que dizer de uma reles telefonista de 19 anos? Eu não consegui mais manter a sanidade e só queria uma coisa: sumir dali! Já estava fazendo faculdade de Informática, aproveitei a necessidade de uma demissão voluntária no banco e ergui o mais alto que pude a mão, despindo a saia de prenda e deixando pra trás também minha vida de bailes gauchescos.

Virei estagiária de informática do setor de treinamento de outro banco, o Bamerindus. Minha responsabilidade era produzir o material didático dos cursos, apostilas, transparências, etc e tal. Entrei de cabeça nos programas de desenho e, mesmo tendo mudado de estágio depois de alguns meses, ainda continuei investindo na criação de materiais de treinamento, na diagramação de jornaizinhos, Corel Draw e tudo o mais. Coloquei meu corpo no mercado (editorial gente, peraí) e fiz trabalhos de editoração pra várias pessoas. Cheguei até a publicar na Gazeta do Povo uma propaganda para o Instituto Paranaense de Cegos escrita e editorada por mim. Era início da década de 90 e o Brasil todo se embalava ao som de Leandro e Leonardo, músicas que eu conhecia de cor e que cantava a plenos pulmões. Hoje, minha versão diagramadora deve ir a shows de Edson e Hudson enquanto cria cartões de visita e papéis timbrados, talvez para agentes musicais, quem sabe? Hummmm acho que não quero encontrar essa por aí.

Prefiro a outra versão da mesma época, aquela que na faculdade de Informática participava de campeonatos de truco nas noites em que não enfileirava copinhos de batidas de vinho acompanhadas de polenta e meios peitos de frango fritos na Casa di Frango. Fim da geração saúde. Aulas noturnas (quando eu ia às aulas, obviamente), estágios abandonados, fã da Rê Bordosa, vida sedentária, etílica, boêmia, e nada, nada, nada publicável. Que horror! Prendam essa minha versão enganosa já! Ela está atrapalhando as orações da versão Freira e bagunçando as aulas de ginástica da versão Sarada, coitadinhas...

Ainda bem que ao terminar a faculdade entrei para o mundo acadêmico. Usava até óculos de aro de tartaruga, paletós e gola rolê. Dava aulas às 7h30 da manhã! Algoritmos, raciocínios lógicos. Fazia programas. De computador! Mas que mentes mais poluídas!!! Estava noiva, mais respeitável impossível. A primeira vez que um funcionário da faculdade me chamou de “Professora” olhei pros lados pra ter certeza de que era comigo mesma que estavam falando.

Muitos alunos passaram pelos meus livros de chamada. Foram quase 10 anos de sala de aula, ensinando os mistérios do computador. Tive alunos desde a pré-escola, passando pela oitava série, ensino médio, faculdade, cursos de pós-graduação, preparatórios para concurso... Cheguei a ser sócia em uma escola de Informática. Professora 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano. Especialização, mestrado, parecia que, enfim, uma versão definitiva e próxima do que sou hoje estava nascendo. Juntas caminhariam de mãos dadas, só que...

Vieram os planos de ir para fora do país por um tempo. Enquanto esperava pelo carimbo no meu passaporte, fiz outro vestibular (sem cursinho dessa vez) e comecei um novo curso superior: Letras. Nem a área era mais a mesma. De Exatas para Humanas, uma guinada de cento e oitenta graus. Mudei de bloco e de foco! Os anos de aeróbica, no fim das contas, tinham ajudado na elasticidade porque vivi por um tempo com um pé em cada centro acadêmico. Atividades que não podiam ser mais distantes.

Nessa época, ia pra aula como aluna às 7h30 da manhã na UFPR pra discutir Homero, Ilíada, Odisséia. Mal a aula acabava, saía me despencando pelas ruas de Curitiba pra entrar às 9h30 em ponto nos laboratórios da PUC e mergulhar nos bits e bytes dos programas em linguagem C dos meus alunos. No meio do caminho ia tentando não ultrapassar o limite de velocidade enquanto chaveava o cérebro pra mudar de um assunto a outro. Não enlouqueci. Será que não mesmo?

Conseguimos realizar o tão sonhado plano de morar fora do país e fomos pra França. De um dia para o outro passei de aluna e professora universitária a dona-de-casa. Minha vida se transformou em faxina, crianças, escola, pediatra, cozinha... Descobri um mundo! Ia maravilhada ao supermercado e passava horas diante das prateleiras de produtos de limpeza, imaginando o que fariam. Testei vários, aprendi milhões de coisas. Virei cozinheira e, modéstia à parte, meus quitutes marcaram estômagos e mentes. Tanto que lá pelas terras do Asterix vive uma versão dona-de-casa exemplar, cozinheira de mão cheia, mãe sempre disponível para acompanhar nos passeios da escola ajudando a professora a cuidar das crianças...

A faxineira, definitivamente, ficou por lá! Mas o resto voltou, e está aqui bem perto desta versão que vos escreve... Meus quitutes continuam marcando estômagos e mentes sempre que eu tenho a chance de chegar perto do fogão. Nenhuma modéstia. A versão atual é bem mais segura do que as outras que andam, vacilantes, por aí...

Também sou quilteira, costureira, rendeira. Pensando bem, só as atividades manuais são constantes na minha vida, desde os sete anos de idade e incontáveis saias-tubo para minha boneca Susi. A versão artesã é a única que resiste à passagem do tempo. Já fiz de tudo. Atualmente, crio meus projetinhos de patchwork que em breve estarão disponíveis ao mundo quilteiro e, de quando em vez, solto meus dedinhos pelo teclado pra vir aqui contar essas coisas aos meus cinco leitores (Sim! Descobri mais um!). O curso de Letras continua e estou me preparando para voltar a ser professora, agora de Francês.

O que será do futuro? Há 20 anos eu seria cantora ou freira. Hoje sou costureira e cozinheira. Logo voltarei a ser professora. Todas essas, e também as outras versões de mim, estão agora aqui ao meu lado, olhando sobre meu ombro, lendo o que eu escrevo... Nesse exato momento elas até fizeram um silêncio momentâneo (como falam! Isso é o que todas têm em comum!) e olham pensativas para o teto.

Decidido! Encontro marcado em 20 anos pra saber quantas e quais outras existirão! Se é que eu vou ter energia pra continuar mudando tanto de rumo assim. Quem sabe? Só o futuro dirá. Mas a única coisa que eu desejo que ele me conte é que o número que aparece na balança, definitivamente, despencará!

Mas será que eu vou conseguir NÃO falar disso?! Que coisa! Versãozinha mais desobediente essa atual...

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