terça-feira, 10 de março de 2009

Para bom entendedor, uma palavra pesa

Estava aqui pensando no meu dicionário, o Houaiss. Mais de três mil páginas, excelente para quando surge uma dúvida atroz ou para quando preciso desamassar um papel que ficou enrolado, por exemplo. Dupla finalidade! Mas consigo carregar meu dicionário, o que me faz crer que ele não revela seu real peso, apesar das três mil páginas. Se meu Houaiss pesasse realmente o quanto deveria, não seria possível levantá-lo nem com guindaste.

O que me fez chegar a essa brilhante conclusão foi uma reflexão que li no blog Bigode de Chocolate. Cozinhar, para mim, é uma paixão. Escrever também, como já deve ter ficado óbvio para quem me acompanha. Portanto, encontrar um blog que fale de comida, mas de maneira literária, foi praticamente um êxtase! Para ficar perfeito só faltavam mesmo umas cortininhas de patchwork, mas todo mundo sabe que paraíso na terra não existe...

O post que me inspirou sugere um novo nome para uma sobremesa maravilhosa e o que ele pensa, assim como o que eu acho, você vai ter de ler por lá. Por aqui quero só refletir sobre o peso das palavras. O quanto uma palavra carrega consigo de coisas boas e de coisas ruins. É impressionante!

Vou dar um exemplo com um termo do francês. Baiser, como substantivo, quer dizer beijo. Portanto, o jovem mancebo enamorado que se aproximar de sua amada e disser Quero te dar um baiser, verá seu rosto ruborizar-se e encontrará, quem sabe, seus lábios trêmulos de paixão num ósculo furtivo. Mas, se o mesmo jovem, diante da mesma donzela, com o mesmo olhar lânguido e apaixonado, sussurrar em seu ouvido Eu quero te baiser, verá seu rosto ruborizar-se, mas de indignação e encontrará, provavelmente, uma bolsa que voará à velocidade da luz em direção à sua cara-de-pau!

Estranho? O que acontece é que baiser, quando usado como verbo quer dizer... Bem, quer dizer aquele ato que até começa com um beijo, mas que termina você imagina como. Se fosse traduzido para o português, seria descrito por uma palavra impronunciável nas salas de estar de famílias de bem. É isso mesmo! Isso aí que você está pensando! Ficou vermelho? Pois é...

Você, que lê esse texto, que não é francês nem falante de francês, provavelmente não sente qualquer frisson se eu escrever: Tá querendo me baiser? Nem mesmo depois de saber qual é o significado da palavra. Agora, se eu trocar baiser pelo equivalente em português e que, ainda por cima, rima com ele... Quanta diferença!

As palavras, portanto, têm peso. Têm história, tradição, afeto, uma porção de coisas associadas que vão muito além do simples ajuntamento de letrinhas e, principalmente, muito, muito, muito além do significado descrito nos dicionários.

Quer mais uma prova? Lá vai um começo de história...

Corucão, vestido de seda e coberto de jóias, mas com sua habitual cara verruguenta, dentes podres e odor fétido, entrou no recinto em que já estavam os irmãos Meco, Palor e Pânfobo. Trêmulos como sempre, os três tiveram um sobressalto quando deram de cara com Corucão. Pânfobo, o maior dos três, tentou esconder-se embaixo da mesa, mas encontrou Lutífica, com os seios à mostra, a boca vermelha e os cabelos de fogo tentando, sem sucesso, corromper Incelência, que a olhava sem compreender enquanto arrancava pétalas de uma flor branca que encontrara pelo chão...

A mesmíssima história, apenas com os nomes próprios dos personagens alterados em algumas letrinhas, muda muito o clima dessa cena:

Corrupção, vestido de seda e coberto de jóias, mas com sua habitual cara verruguenta, dentes podres e odor fétido, entrou no recinto em que já estavam os irmãos Medo, Pavor e Pânico. Trêmulos como sempre, os três tiveram um sobressalto quando deram de cara com Corrupção. Pânico, o maior dos três, tentou esconder-se embaixo da mesa, mas encontrou Luxúria, com os seios à mostra, a boca vermelha e os cabelos de fogo tentando, sem sucesso, corromper Inocência, que a olhava sem compreender enquanto arrancava pétalas de uma flor branca que encontrara pelo chão...

Não é legal isso? Agora vou me divertir imaginando o que acontecerá com as palavras que saírem da minha boca daqui por diante. Umas vagarão flutuando pelo ar, outras partirão saltitantes pelo espaço, algumas despencarão imediatamente no chão e machucarão quem estiver por perto e tropeçar nelas...

Tudo bem, com um muxoxo, aceito o sanatório. Mas só se o Houaiss for comigo! De caminhão!!!


P.S.: achou estranhos os nomes na primeira versão da história? Dá uma olhadinha no Houaiss... ;-)

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3 comentários:

  1. Haha,
    Nada como formar-se em letras.
    Esse é prá lá de metalinguístico.
    Muito bom.
    Contos e recontos.
    Como sou mais antiguinha, só tenho o Aurélio, que agora ficou levinho, levinho.
    Mas serve.
    Ah, se o Borges te lesse!!! ( O Jorge Luiz, claro.)
    Beijinhos
    Marie

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Poxa, diante de toda essa cultura que você demonstra ter, não passo de um meco sem lugar definido no mundo. Antes, até achava ser o meu palor o motivo de todo esse desentoo com o mundo, mas não, é a inscícia mesmo. Você me desculpe, Juliana, apesar do galrão que pareço agora, acho que você despertou o pânfobo que adormecia em mim.

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