segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Sinais do tempo

Hoje, quando acordei e olhei no espelho, me vi com um rostinho de 16 anos.

A cara cheia de espinhas!

Ninguém merece!!!

Que injustiça... Ver ao mesmo tempo a realidade dos quarenta que se aproximam junto com um flashback do pior pesadelo de qualquer adolescente: aqueles pontinhos amarelos que, no meu caso, apareciam sempre que eu tinha alguma festa ou encontro muito importante. O tamanho da espinha era proporcional à importância do evento. Não por outro motivo, na minha festa de 15 anos eu tinha uma espinha no nariz que alguns “amigos” batizaram de A Torre. Pessoalzinho legal aquele...

Na verdade, essa minha realidade dos quase quarenta nem é tão grave assim e, pra ser bem sincera, eu nunca fui contra os sinais da idade. Até que eles começaram a aparecer!

Encarar os primeiros fios de cabelo branco não foi nada fácil. Um belo dia eu me olhei no espelho e percebi um brilho diferente no cabelo. Fui olhar de pertinho e ele estava lá. Abusado. Saliente. Inegável. O fio de cabelo branco!

O primeiro eu arranquei, tudo bem. Mas, mesmo sem ter visto esse filme, eu já conhecia o final e ele não era feliz: tintura!

Comecei com umas luzes. Depois foi uma henna básica. Eu me enganava pensando que era uma espécie de tratamento. Daí passei para o shampoo tonalizante. Coisa pouca. Mas com o tempo não teve mais jeito e o negócio foi partir para coisas mais pesadas: tintura permanente, aquele cheiro de amoníaco, a testa, o pescoço, as orelhas manchados, e as tentativas, infrutíferas, de tentar limpar aquilo tudo. Desde aquele momento eu soube que só teria duas alternativas: a zona generalizada no banheiro ou a conta salgada no salão.

Enquanto eu morei fora do país, quando a única renda da família era em Reais para um orçamento em Euros, a decisão foi fácil: fazer justiça com as próprias mãos! Cheguei até a arriscar luzes em mim mesma. Quer dizer, luzes não. Holofotes! Eu li as instruções direitinho, dizia pra pegar mechas finas a fim de obter um resultado mais natural. Eu achei que tinha pegado mechas finas, mas para meu mais profundo horror, quando lavei e sequei a cabeça descobri que tinha um cabelo castanho escuro na parte de baixo e um capacete laranja fosforescente na parte de cima. E a grana pra comprar outra tinta, só no mês seguinte.

Tempos passados, felizmente! A renda familiar não mudou muito, mas agora pelo menos é em Reais pra pagar contas em Reais, portanto, dá pra encarar o salão.

Quer dizer, vejam só como são as coisas. Nesse exato momento não tenho mais esse dilema! Nem solução caseira, nem rombo financeiro. Fiquei careca por causa da quimioterapia. Uma tremenda economia em tintura... Tudo nessa vida, definitivamente, tem um lado bom!

Mas os cabelos brancos foram só o começo. Veio a gravidez e, depois dela, a queda de cabelo. Tive até saudade dos brancos. Eram brancos mas, pelo menos, estavam lá.

Uns tempos depois, apareceram bigode e barba. Cheguei a pensar que os cabelos estavam caindo da cabeça pra ficarem plantados no meu queixo. Achei aquilo um abuso e procurei um endocrinologista.

Como estava com uns kilinhos a mais também, fiquei numa tremenda esperança de ele encontrar algum probleminha hormonal qualquer que, quando resolvido, acabaria com dois incômodos de uma só vez. Fui pra consulta toda animada. Ele, analisando meus pelinhos com lupa, perguntou:

- Qual é a sua descendência?

- Portugueses e espanhóis, basicamente.

- Ih! Povinho peluuuudo! Não tem problema nenhum, não. É só fazer eletrólise e tudo bem.

Saí arrasada. Não só ia ter de encarar dieta e exercício, como ainda ia continuar barbada! E o que é pior: começaram a aparecer cabelos brancos na barba também!!! O que é que é isso?! O duro é que não era nem em quantidade suficiente pra eu conseguir um empreguinho de Papai Noel no fim do ano. Mulher barbada num circo. Nada! Só aquela coisa ridícula que, se eu deixasse crescer, me faria ficar parecida com o Salsisha, aquele amigo do Scooby-Doo.

Acrescentei mais um compromisso na minha agenda de beleza, além de mais uma conta no meu cartão de crédito: tintura, e também depilação da barba e do bigode. Será que os homens fazem idéia do nosso calvário?

Depois vieram as ruguinhas. Discretas, eu nem percebia. Mas um amigo, muito gentil, um dia me falou: “Nossa! Você não mudou nada. Umas ruguinhas e só!”

Rugas? Eu?! Por favor, chamem o Pitanguy!

Na falta dele, saí correndo pra comprar cremes. Ao redor dos olhos, anti-idade, tira manchas, diurno, noturno, com vitamina C, retinol, colágeno, proteínas... Eu não sei vocês, mas fico completamente perdida numa farmácia diante de uma prateleira de cremes. Cada um tem uma coisa que eu quero, será que a gente pode comprar todos e misturar?

Mas nada se compara à experiência arrasadora de encontrar um cabelo branco... Na cabeça? Não! Na barba? De jeito nenhum. Isso mesmo! LÁ!

Claro que isso não aconteceu comigo. Imagina! Foi com uma amiga... Quer dizer, nem é amiiiiga, é só uma conhecida. Na verdade, conhecida de uma amiga minha. Alguém bem distante... Nem sei porque eu sei dessa história.

Encontrar um cabelo branco na perseguida é uma experiência pra lá de traumatizante. Pra começar a conversa, naquele exato momento ela passa do status de “perseguida” para o de “esquecida”. Automaticamente. Sem dó nem piedade...

Achar um cabelo branco na perseguida é praticamente dar entrada num financiamento pra pagar o asilo.

Não tem como achar um cabelo branco na perseguida e não pensar imediatamente em dentadura, andador e fralda geriátrica. Não dá! Uma coisa puxa a outra, é inevitável.

E ainda por cima, me contaram que nem se deve usar tintura porque, depois de uns dias, os cabelos tingidos “lá” ficam verdes! Pensando bem, no fim das contas, uma perseguida marciana é bem melhor do que uma perseguida anciã, não é verdade?

Eu imagino, como eu disse não foi comigo que isso aconteceu, não, de jeito nenhum, mas eu imagino que uma mulher que acha um cabelo branco na perereca já não anda na rua como antigamente. Fica meio cabisbaixa, tem medo de que esteja escrito em néon na cara: “Pode esquecer, essa aqui já dobrou o Cabo da Boa Esperança. A perereca tá branquela!”

Deve ser por isso que de uns anos pra cá deu a louca na mulherada e elas resolveram que o melhor mesmo era tirar tudo de uma vez. Limpeza total. Até seria uma boa alternativa se, pra isso, não fosse necessário passar pela tortura da depilação. Seja de que jeito for: na cera, com a dor insuportável, ou na gilete, com a coceira intolerável.

É, envelhecer não é fácil mesmo. A verdade é que todo mundo queria chegar aos 90, mas sem sair dos 30.

E pensar que uma vez eu profetizei num cartão de aniversário que escrevi pra uma amiga: nós começamos falando de namorados e vestibular, hoje falamos de trabalho e filhos e acabaremos falando de dentadura e aposentadoria...

Eu só não sabia o que vinha antes disso!

Versão para impressão

8 comentários:

  1. Excelente Juliana, só mesmo uma boa crônica para tentar salvar o meu dia... ...um dia que nem posso chamar de novo já que pra mim ele nem começou pois o meu ontem ainda não acabou...
    .. Ju, adoro ler seus textos que sempre são "empanados" com um humor característico com o qual muito me identifico. Adoro rir de mim mesmo e das situações por que passo. O lado bom de poder envelhecer é justamente poder ter, a cada dia, mais assunto!!! a vida me ensinou, e você sabe do que falo, que não se pode falar dos outros... assim, o que me resta??? ou melhor, o que nos resta??? falar de nós mesmos!!!
    Parabéns pelo Blog... numa dessas me animo e encaro um também...
    Adorei o nome... me inspirou a batizar o meu blog.. que tal "PALAVRAS ENCONTRADAS"??? No seu texto, à milanesa, me deparei com várias!!!

    Abração

    Seu amigo,

    Paulo 40ão Horácio (na verdade, quase 42)

    ResponderExcluir
  2. Pode usar tinta na margarida sim, Juliana...kuákuákuá...experiência própria. Não fica verde não. Estou rolando de rir aqui. Mas que é um choque o primeiro fio branco ao sul do Equador, ah isso é!
    Mas pense Pollyanamente. No momento vc TEM cabelos a tingir e com um tubo vai poder pintar umas 10 vezes...olha a economia!

    Bjs. Amei.

    ResponderExcluir
  3. Aiai, Ju!!!
    Adorei rir contigo!!!
    Você tem razão, o "nascimento" da velhice é cruel e lento... Mas como diz uma sábia voz: "Não reclame de como vc está hoje, pq amanhã estará pior!"
    Beijos com bastante carinho,
    Lili

    ResponderExcluir
  4. Groozhyc, o Groo de Minas18 de dezembro de 2007 17:49

    Ah, ah, ah... mulheres... sempre as mulheres... e especiais, bem especiais... que loucos ventos trazem tanta apreensão sobre o correr solto e incontrolável da vida... sim, ela é incontrolável... por mais que tentemos controlá-la sempre nos deparamos com o imprevisto, o inimaginável. O que, admitamos, não é de todo mal. Controle é meio rotineiro demais, paradão demais. Amo o caos, e amo imaginar que em algum ponto obscuro de meu passado eu poderia ter mudado alguma coisa, e amo mais ainda sorrir e não me arrepender por não tê-lo feito... envelhecer... aproximar-se cada vez mais de si mesmo ao mesmo tempo em que enxerga cada vez melhor os outros. Uma dádiva. Danem-se as dentaduras (já estou quase acostumando com a minha e por mais incrível que pareça continuo a mesma pessoa), danem-se os pelinhos brancos no parquinho de diversões (abra-se um parágrafo para dizer que homem é bicho doido mesmo: já estou achando pelinhos brancos a coisa mais sensual e atraente do mundo... ai, ai.. pelinhos brancos...), dane-se quase tudo... mas jamais as coisas que realmente carregamos em nossa existência, que nos fazem crescer e que, contrariando todas as leis conhecidas, nos fazem ficar mais jovens a cada dia que passa... como diria Juca Chaves: "ser jovem é saber envelhecer"...
    Ah, talvez seja mais fácil pra homem, sem precisar se preocupar com pinturas de cabelo (alguns), ruguinhas nos olhos, pelinhos brancos (ai, ai, ai... olha eles aí de novo, me perseguindo...), seios caindo (hum... talvez não seja assim tão fácil... acho que preferia mil vezes ter seios pra cair...)
    Ah, linda e adorável Juliana, tuas palavras já me remoçaram alguns anos nestes poucos instantes em que nos permitimos ser crianças de novo e brincar de escrever e poder falar de sentimentos, bobagens e bobeiras... Beijos, mais beijos, muito carinho...

    Groozhyc, o Groo de Minas, vulgo Mário, o Lúcio... ai, ai... ainda sonhando com pelinhos brancos... um dia ainda vejo um trem desses...

    ResponderExcluir
  5. Oi Juju, adorei a crônica, encaixo-me em muitas coisas que disseste, mas ultimamente com o Lexapro eu liguei o "foda-se" rsss.. deixei os cabelos brancos, só pinto uma vez ao ano...rss... beijos!

    ResponderExcluir
  6. Olá Juliana, qto tempo guria...
    Nossa, simplesmente amei esta crônica em especial, já entrei nos 40rentinha e estou passando pela mesma fase, só que não me conformo com os tais fios brancos e continuo a retirá-los, apesar de ter sido avisada que eles ficarão toim-ioem-oen e grossos, fazer o que? Outro dia gastei $400 pilas para ver se o salvador da pátria daria um jeitinho, mããããsss... foi-se todo o money... rsrsrsrs...
    Salve nós de 40 e todas as tinturas e perucas possíveis!!!

    Te adoro!!! Linda!!!

    Beijinhos carinhosos***

    ResponderExcluir
  7. Oi Fofissima,
    Que delicia ler os seus relatos.
    São verdadeiros deleites, pois a nos vemos UM MUITAS SITUAÇÔES semelhantes...
    Beijnhos
    Deborah Carvalho

    ResponderExcluir
  8. Adoro sua cronicas!!!rio, choro, me emociono!As vezes meu dia cinza se torna ensolarado com seus escritos.Mto obrigada!

    ResponderExcluir

Gosto de saber o que você pensa!